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A evolução narrativa de “Guardiões da Galáxia vol. 2”

A evolução narrativa de “Guardiões da Galáxia vol. 2”

Sequências de filmes são complicadas. Requer cuidado dobrado para manter o mesmo nível de excelência do primeiro título e agradar ao público ao mesmo tempo. E James Gunn sabia bem no que estava se metendo.

Os eventos de Guardiões da Galáxia vol. 2 começam poucos meses depois de onde deixamos nossos desajustados após terem vencido a batalha contra Ronan o Acusador e salvado o planeta de Xandar, além de terem caído nas graças dos Nova Corps.

Agora, oficialmente reconhecidos como os guardiões da galáxia, passam a aceitar pequenos trabalhos aqui e ali na imensidão do cosmos e um deles envolve atender ao pedido de Ayesha (Elizabeth Debicki) a Sacerdotisa dos Soberanos, um povo criado com intuito de serem geneticamente perfeitos e que não toleram desvios de conduta. O que coloca a equipe em maus lençóis quando Rocket (Bradley Cooper) contraria as regras e acaba roubando baterias valiosas antes de deixarem o planeta, fazendo com que toda a frota local passe a persegui-los, causando brigas imediatas entre eles e o ataque provoca danos na nave fazendo com que tenham que se esconder num outro planeta. Enquanto continuam discutindo, surge outra nave cujo tripulante os surpreende dizendo ser Ego (Kurt Russell), o pai de Peter Quill (Chris Pratt). Assim, tem início mais uma aventura dos Guardiões da Galáxia vol. 2.

Se o primeiro filme era sobre a união dessas pessoas, no segundo é preciso que aprendam a lidar com as diferentes personalidades e fazer com que a equipe dê certo, é a única disposta a isso é a Gamora (Zoe Saldana).

É nítida a evolução narrativa da história e como James Gunn se preocupou em dar mais profundidade a todos os personagens, distribuindo de forma quase igualitária o tempo deles em tela e também seu desenvolvimento dentro dessa nova trama. De um lado temos uma briga de egos entre Peter e Rocket que insiste que é melhor piloto que o humano e continua a causar problemas apenas para satisfazer a si mesmo. Peter, por sua vez, precisa lidar tanto com os sentimentos em ter descoberto finalmente quem é seu pai, como também com essa relação-não-relação-amorosa que possui, ou tenta, com Gamora. A guerreira que sempre viveu as turras com sua meia-irmã vai tentar apaziguar as coisas entre as duas, isso se Nebula (Kare Gillan) permitir.

São esses dilemas sociais e de convivência que ditam grande parte do começo dos conflitos interpessoais e que dá ao longa um tom mais denso e adulto do que o primeiro. Eles se uniram para salvar a galáxia, mas antes foi um encontro ao acaso e agora escolheram continuar juntos. Só que se trata de um grupo de pessoas tão distintas e com claros problemas de comunicação que fica difícil entrarem em um acordo sobre qualquer coisa. Deixando claro essa visão de família incutida neles através daquilo que Gunn construiu. Por serem tão desajustados e problemáticos que preferiram continuar com aqueles que mesmos diferentes – seja na raça ou pensamento – os aceitam como são. E não é assim que toda família deveria agir?

E esse conflito social não poderia ficar mais claro quando Peter conhece Ego e é levado até seu planeta. Lá, diante de tantas explicações dadas por Ego vemos o abismo que existe entre o que o Star-Lord imaginava de seu pai e como ele é realmente e isso nem é um spoiler, pois o ato de projetar e/ou idealizar uma pessoa acontece com qualquer um. Quando criança Peter imaginava que seu pai fosse uma figura específica de um famoso ator de um programa de televisão, pois assim desejava quando na verdade Ego é outra pessoa, com muita experiência de vida e poderes, o que explica Peter ter sobrevivido ao tocar uma das gemas do infinito. Todavia, laços de sangue não significam que alguém seja considerado um membro da família de imediato ou não e é essa a grande mensagem do filme.

Se por um lado há essa trama mais profunda, com desenvolvimento intenso dos personagens, do outro o diretor soube dosar com inteligência o humor tão característico do filme e que tanto agradou ao público. Dedicou-se as cenas de ação que aumentaram de forma considerável e, também, com a inserção de novos personagens que pudessem garantir as risadas como os Ravagers de Yondu (Michael Rooker). Há também bastante humor na forma do pequeno Baby Groot (Vin Diesel) que como qualquer criança tem dificuldade em entender o que estão lhe pedindo para fazer e por isso pode enfiar os galhos pelas raízes em certos momentos, garantindo assim as gargalhadas necessárias para equilibrar com o restante oferecido no longa.

Guardiões da Galáxia vol. 2 não pode ser julgado como melhor ou pior do que o antecessor porque é nitidamente uma continuação direta, logo, não é possível encará-lo como outro filme, ainda que o seja. Todos os elementos que provam isso estão presentes do primeiro ao último minuto e deixam claro essa ligação na história que começou lá no título de 2014 e que teve seguimento aqui. Ambos são obras-primas e ímpares dentro do universo cinematográfico da Marvel.