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A importância do discurso de Meryl Streep

A importância do discurso de Meryl Streep

Aconteceu ontem em Los Angeles a 74ª edição do prêmio Globo de Ouro que consagra tanto produções do cinema quanto da televisão. Formado pela HFPA (Hollywood Foreign Press Association) que é composta de Jornalistas e Fotógrafos, são eles os responsáveis por selecionar os indicados e por fim os vencedores e contam com mais de 90 membros em 55 países.

Uma das categorias da premiação é o Cecil B. De Mille Award, dado aos artistas por seu conjunto da obra. Na edição do ano passado o homenageado foi o ator Denzel Washington e esse ano foi a ilustre Meryl Streep. A atriz começou a carreira no início da década de 70 e não parou mais, contabilizando até o momento 79 produções nas quais atuou entre cinema e televisão.

Com mais tempo de agradecimento do que os demais, Meryl aproveitou a oportunidade para falar acerca do resultado das eleições americanas e no que isso pode influenciar no futuro dela e dos demais colegas de profissão. Todavia, nem todos viram com bons olhos o discurso engajado da atriz e não me refiro ao moço do topete. Alguns consideraram inadequada sua postura e que ela deveria apenas se sentir lisonjeada pelo prêmio e agradecer aqueles que a ajudaram a chegar ali, sem acrescentar uma visão pessoal. Deixando claro que aqueles que teceram tais comentários desconhecem a pessoa que é Meryl Streep e toda a sua militância em Hollywood.

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Foi mais do que um discurso político. Foi um apelo e um pedido para a união de todos, pois ao invés de falar de si mesma, Streep optou por enaltecer os colegas de profissão, chamando-os pelo nome e apontando suas origens e explicando como isso é o que faz a indústria ser o que é. Como essa enorme diversidade, essa mistura de talentos de todos os cantos, agrega valor ao trabalho deles e o quanto isso pode ser afetado pelas intenções políticas do novo presidente que declarou abertamente ser contra imigrantes. E aqui é o momento que surgem os defensores do Trump alegando que  estou distorcendo as palavras do sujeito. Bem, ele manifestou sim, mais de uma vez (Oi, vamos construir um muro?) ser contra os imigrantes ilegais e apesar de ter sido bem específico ao citar os Mexicanos, sabemos que essa ojeriza se estende a todos aqueles que não são americanos. Algo um tanto contraditório, tendo em vista que o próprio é neto de imigrantes alemães, mas parece que a palavra imigrante se aplica apenas a outros povos (dentro da lógica ‘trumpesca’) e no caso dos Europeus, os avós de Trump seriam apenas “expatriados”.

Com políticas mais severas em relação à entrada de estrangeiros nos Estados Unidos, acaba por dificultar não apenas para a entrada de turistas, como também para aqueles que vão a trabalho (focando na indústria cinematográfica) e que eventualmente serão barrados, prejudicando assim o caminhar de várias produções e pode ser que até resulte em prejuízo para os estúdios. A atriz britânica Naomie Harris, que atua em Moonlight, teve seu papel modificado por conta de um problema no visto que só lhe garantia a estadia de 3 dias em solo americano. Com um orçamento apertado, o diretor Barry Jenkins foi obrigado a refazer o esquema de gravações, como também o roteiro, a fim de comportar as cenas que precisariam da atriz. Para facilitar o trabalho, alguns atores estão buscando ter dupla cidadania como Emily Blunt que é casada com o ator americano John Krasinski. Porém, sabemos que nem todos os casos tratam-se de casamentos. Outros preferem ir e vir conforme a demanda de projetos como o ator mexicano Diego Luna que atuou recentemente em Rogue One: Uma História Star Wars. Quando questionado, afirmou que sua casa é no México, onde estão seus filhos e esposa e que não pretende se mudar tão cedo para os Estados Unidos, contrariando a velha história de que todo mexicano sonha em ir para os Estados Unidos.

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Além do mais, para alguém que não costuma engolir facilmente as críticas, Trump pode vir a se sentir incomodado com as futuras produções de Hollywood, caso queiram utilizar sua figura para qualquer trama, de modo direto ou indireto, podendo vetar e até mesmo proibir que determinado assunto seja abordado em um filme, peça de teatro ou série de televisão. Atrizes, Atores, Diretores, Roteiristas, Produtores são figuras visadas na indústria e se você pensa que nada pode acontecer a eles, que tem salvo conduto, procure saber mais da época da Guerra Fria e de um cidadão chamado Dalton Trumbo e seus associados.

A verdade é que ninguém sabe o que exatamente Donald Trump vai fazer quando assumir a presidência americana a partir de 20 de Janeiro. Ainda assim, todos tem razão em ficar com medo devido ao conteúdo do que foi dito pelo mesmo durante sua campanha. Estamos falando do cargo mais importante do planeta, com perdão do exagero, e que influencia de modo positivo e negativo em outros países em diversas áreas. Logo, nada mais natural do que esse discurso da Meryl Streep que demonstra não estar somente descontente com a escolha dos americanos para gerir o país, mas também com o futuro dela e de todos aqueles que trabalham no meio.

Por isso, ao invés de fazer um discurso esperado, egoísta e voltado para si, Meryl mostrou para o mundo porquê é uma das atrizes mais admiradas de Hollywood.