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A nova Pequena Sereia e o preconceito velado

A nova Pequena Sereia e o preconceito velado

O preconceito velado é aquele em que o indivíduo age de forma preconceituosa, mas nega ser preconceituoso com o próximo.

Desde ontem as redes sociais estão fervendo com preconceito velado. Motivo? A Walt Disney Pictures ter escalado a atriz negra Halle Bailey (favor não confundir com Halle Berry) para o papel da Ariel no live action A Pequena Sereia que vai ser lançado em 2021.

As reclamações são muitas e os adultos, a maioria dos que estão reclamando afinal criança não liga para isso, usam desculpas mais esdrúxulas para tentar defender um ponto de vista que na verdade está disfarçado de preconceito. Reuni aqui algumas dessas desculpas com breves explicações do porquê serem ilógicas e cheias de preconceito.

AH OS CABELOS

Grande parte das reclamações – algumas bem histéricas – se deve ao fato da Halle Bailey não ter cabelos vermelhos. Como assim a Disney teve a pachorra de escalar uma atriz que não é ruiva? Como assim a Disney escolheu uma atriz que não tem cabelos vermelhos? Bem, a verdade é que quase ninguém possui essa cor de cabelo.

A coloração avermelhada (que não chega perto do tom dos cabelos da Ariel) só ocorre em 2% da população humana (o que por razões óbvias também inclui negros). Se o cabelo de alguém é vermelho como o da Ariel é graças a química e produtos de farmácia.

No conto original escrito por Hans Christian Andersen a sereia tinha na verdade cabelos loiros quase brancos, como o da Daenerys na 1ª temporada de Game of Thrones. Entretanto, a Disney na época tinha a possibilidade de criar uma personagem, a primeira, com cabelos vermelhos. E pasmem, os produtores de brinquedos foram contra. Ron Clements que é co-diretor da animação disse em uma entrevista que os executivos da Tyco, a companhia que possuía os direitos e licença de brinquedos baseados no filme, foram terrivelmente contra a escolha da cor dos cabelos da protagonista. Os executivos estavam certos que as bonecas da Ariel não iriam vender. Sabe o que eles fizeram? Produziram as bonecas mas com outro tom de cabelo. A cor escolhida foi um loiro meio rosado (strawberry blonde no original).

Depois que fez sucesso decidiram lançar uma Ariel mais parecida com a da animação!

Ou seja, uma das principais características da personagem da animação sempre foi motivo de controvérsia. Só outras versões de brinquedos da Ariel que ela ganhou o famoso tom vermelho nos cabelos.

ARIEL NEGRA? SIM! ARIEL NEGRA!

Já falei do cabelo, agora é hora de abordar as reclamações com relação ao tom de pele da atriz. Aqui surgem na verdade três pontos importantes, vamos ao primeiro. Os adultos reclamando, alguns batendo no teclado e insistindo que a Ariel deveria ser branca pois querem fidelidade a animação.

Para começo de conversa Ariel é uma sereia e sereias não existem. O Animal Planet até conseguiu convencer algumas pessoas por um tempo de que elas seriam verdadeiras, mas não, por enquanto, sem provas mais contundentes, sereias são criaturas mitológicas e que aparecem no folclore de diversas culturas.

No conto de Andersen ela é pálida e tem cabelos loiros brancos porque vive nas profundezas do oceano e, só para relembrar, ela é uma sereia e ele pode criá-la como bem entender. A Disney decidiu adaptar o conto para uma animação e mudou várias características do original. Inclusive a Ariel não vira do espuma da mar ou seja, morre. Nem sente dores horríveis ao andar, nem tem a língua cortada pela bruxa do mar, por exemplo. Mas ei, fidelidade né?

Na época a Disney queria inovar, sair da zona de conforto, não criar outra princesa loira, fizeram uma princesa com cabelos vermelhos. Então, porque isso não pode ocorrer agora também? É uma adaptação. Nesse caso não precisa ser fiel a animação, pois se trata de uma criatura mitológica que pode ser moldada como o criador achar melhor. A Disney fez uma vez e está fazendo de novo.

ETNIA ≠ MITOLOGIA

Aqui chegamos no segundo ponto importante, o qual o preconceito, racismo mesmo, está falando mais alto. As vezes até grita. As pessoas não sabem a diferença entre etnia e mitologia.

Para tentar manter suas afirmações como verdadeiras e coesas e justificar as reclamações de que no live action a Ariel não vai ser branca, os pseudo-adultos estão usando personagens que fazem parte de uma etnia minoritária para dizer que as outras pessoas não gostariam se a mudança fosse o contrário. Nesse caso, se trocassem a etnia da Mulan de chinesa para britânica, por exemplo, seria muito errado. Mas ei, Hollywood já cansou de fazer isso e continua fazendo. Por anos chineses, japoneses, indianos, árabes, paquistaneses, entre outros, ficaram limitados a papéis estereotipados ou foram trocados por atores conhecidos que tiveram os rostos pintados e os olhos puxados com fita durex. Agora, aos poucos, estão conseguindo papéis de destaque.

Christian Bale como Moises (semita) – Johnny Depp como Tonto (nativo americano) – Jake Gyllenhaal como Príncipe da Pérsia (iraniano) – Elizabeth Taylor como Cleopatra (macedônia)

E o que isso tem a ver com relação ao fato da Ariel que antes era branca e agora no live action ser negra? Tudo.

De novo, sereias não existem, são criaturas mitológicas, lembra? Logo, por que não uma sereia negra se a liberdade de criação nesse caso é da Disney? Em segundo lugar, a Mulan é chinesa, Pocahontas é nativo americana, Tiana é negra, essas etnias existem e são muito mal representadas. Como dito acima possuem representação minoritária, não faz qualquer sentido pegar o que quase não tem e trocar por um personagem branco que é maioria, tem em qualquer filme, seriado, livro, animação, jogo, etc.

Isso só quer dizer que tal argumento está repleto de preconceito e zero empatia com outros povos e culturas. Quem o faz está apenas preocupado com a memória afetiva que possui em relação a uma animação que não vai sumir apenas porque o mesmo estúdio que a produziu decidiu fazer uma outra versão da mesma história.

EUROPÉIA?!

O terceiro é ultimo ponto é o mais estapafúrdio e, por isso, nem vou me estender muito. Estão usando o argumento de que a Ariel é dinamarquesa para justificar que a escolha da Halle Bailey para o papel está errada.

O local no qual a história do Hans Christian Andersen passa é sim na Dinamarca porque ele é natural de lá. Porém, contudo, todavia, a Ariel é uma sereia que nasce e vive no fundo do mar. O oceano não conhece barreiras. As tais barreiras e limites de terra é uma coisa imposta pelo homem. Nada impede então do live action se passar em um outro lugar que também tenha uma praia e um mar. Não precisa ser necessariamente na Dinamarca nem em outro local na Europa. Não se prendam a geografia.

QUEM LACRA NÃO LUCRA?

Errou de novo! Duas grandes produções, Pantera Negra e Capitã Marvel, as quais sofreram ataques da internet faturaram muito mais do que qualquer um esperava, até mesmo o próprio estúdio. Pantera Negra faturou até o momento U$1.344 bilhões e Capitã Marvel U$ 1.128 bilhões.

Mas será que isso ocorreu porque o estúdio só está visando o lucro? Óbvio que não! Ocorreu porque existem grupos de pessoas, mulheres e negros, que sentiam falta de se verem representados na tela do cinema. Minorias cansadas de não ter com quem se identificar. Se essa fatia do mercado não existisse, com certeza nenhum dos dois filmes teria alcançado essa bilheteria.

O mesmo ocorre com a escolha da Halle Bailey para Ariel. A única princesa negra da Disney é a Tiana e quase não se encontra produtos dela ou da animação. O que a Disney está fazendo é adaptar-se a uma nova realidade, na qual milhares e milhares de crianças negras (não os adultos que estão reclamando) precisam dessa representação. E com certeza, vão apoiar muito o live action quando sair.

QUE VOZ!

Como a Ariel canta e óbvio que no live action música é o que não vai faltar, Halle Bailey foi sim uma excelente escolha, pois é dona de uma voz espetacular e inclusive já foi indicada ao prêmio Grammy, o Oscar da música! Halle e a irmã Chloe fazem parte da gravadora da Beyoncé e lançaram um álbum em 2016.

Confiram a performance da jovem nesse vídeo e fiquem arrepiados também!

Portanto, você que está aí batendo cabeça no teclado e reclamando da adaptação lhe digo duas coisas: A primeira é que se você não gostou é só não assistir. Não é obrigatório sabe? E a segunda é que muito cuidado com o seu preconceito velado aí, pode render um belo processo.