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Afinal, qual é o problema da crítica especializada?

Afinal, qual é o problema da crítica especializada?

A princípio a resposta é nenhum. Não há nenhum problema com a crítica especializada. Na verdade, há um problema com aqueles que a fazem e também com quem as recebe. Não se preocupe que irei explicar melhor.

O berço da crítica de cinema surgiu a mais de 100 anos lá em Londres em 1912. Acredita-se que um correspondente de um jornal londrino, WG Faulkner tenha criado o hábito de ir aos cinemas, assistir os filmes e depois escrever para o jornal. Entretanto, há quem credite ao americano Roger Ebert como o pioneiro nesta área. Tendo iniciado a sua promissora carreira em 1967 para o Chicago Sun-Times onde permaneceu até falecer em 2013.

O crítico de cinema Roger Ebert

De todo modo, independente qual seja a origem, temos de convir que há um certo desmerecimento para com aqueles que se dizem Críticos de Cinema. Uma banalização, por que não chamar assim? E entendam bem, quando menciono a palavra crítico, me refiro a quem de fato tem domínio sobre o assunto cinema. Que possui conhecimento técnico, reconhece nuances, linguagem dos diretores e além disso, tem formação na área. Um diploma. É, aquele pedaço de papel que muita gente não dá valor. Mas que significa que a pessoa que o possui passou incontáveis horas debruçada sobre livros (nossa, que velha!) para entender do assunto.

Por isso, antes de tudo, é preciso separar o joio do trigo, como diria minha querida avó. Filtrar quem realmente entende do assunto daqueles que só estão expondo sua opinião. Ué, então ninguém mais pode opinar sobre um filme?

Claro que pode! Porém, entenda que tem um abismo entre “falar sobre algo” e “falar com propriedade sobre algo”. Opinião todos nós temos, pois elas provém de nossas experiências de vida. Ora, sofro de enxaqueca, tomo aqui meus remédios. Caso um amigo venha relatar que tem sintomas parecidos, posso muito bem opinar sobre o assunto, certo? Sofro da mesma coisa que ele, já me consultei com um médico, tenho o diagnóstico, por que não? Bem, porque o principal (para não dizer o óbvio) é que não sou médica. Não fiz quatro anos de faculdade, mais dois de residência e outros dois de especialização para atestar que alguém tenha tal doença. Então, por que eu faria isso? Por que qualquer pessoa faria isso?

Outra resposta simples. Porque diferente de medicina – e tantas outras profissões – que é distante para a maioria, cinema é algo familiar. Tal qual Fotografia, Design, Web designer e afins. Está ali no alcance das nossas mãos. Seja pela televisão, Netflix ou idas rotineiras a um cinema. Qualquer um pode consumir, pode optar o que assistir, quando, de que forma, por quanto tempo… Logo, passa a existir essa falsa sensação de domínio. Assisto muitos filmes, então sou um expert. Sei tudo de cinema. E, não é bem assim que a banda toca.

Quando você consome muito alguma coisa porque curte aquilo (não sendo nada ilegal) não se torna um expert e sim um fã ou aficionado. O conceito de expert parte do princípio que a pessoa tem profundo conhecimento sobre aquele tema em específico. E só é considerado um expert aqueles que possuem estudo na área, de preferência mestrado e/ou doutorado. Mas calma que explico porque estou insistindo tanto no campo educacional por aqui.

A partir do momento que você passa a estudar determinado assunto a sério, neste caso cinema que mexe com paixões mundo afora, aprende a distanciar o seu olhar enquanto pessoa do seu olhar de profissional. Ganha a habilidade de desconstruir uma obra a ponto de entender todos os aspectos da mesma, sejam bons ou ruins e, somente após esse exercício, escrever a crítica. Todavia, sei que não é isso o que ocorre na maioria dos sites e aí esbarramos de novo na questão apontada lá em cima, de aprender a separar e identificar essas pessoas.

Outro dia assisti dois reboots que fizeram parte da minha infância e adolescência: Power Rangers e Baywatch. Me diverti em ambos os filmes. O primeiro evoca aquela atmosfera saudosista da década de 90 e foi feito e pensado para quem conhece Power Rangers. Apesar de ter curtido, entendo as razões que levaram a crítica especializada a detonar o filme. Não foi feito para o grande público e possui erros técnicos gritantes. Já Baywatch é uma sátira dele mesmo. Faz piada com todo o universo do seriado e transpôs isso para o filme. Era para ser escrachado. Porém, não se encaixa tão bem no ano em que estamos, onde certamente esse tipo de seriado não mais seria consumido pelo público. E assim o filme sofreu com as críticas. Entendem o que quero dizer? Mesmo tendo gostado dos dois filmes, consigo separar meu olhar pessoal do profissional.

Vou pegar um outro exemplo real com os colegas da página Cabana do Leitor. Não, não vou lavar roupa suja. Na verdade, o pessoal do CDL é um excelente estudo de caso aqui. Eles possuem uma página bem movimentada, ótima participação dos leitores, estão sempre subindo notícias e também críticas, com a grande diferença que deixam claro que eles são fãs escrevendo para fãs. Não tentam passar por mega conhecedores dos assuntos. Muito menos se intitulam críticos de cinema. Não. Fazem suas críticas expressando seus pontos de vista como fãs de cinema. Ponto. E é isso. São transparentes e é assim que deve ser, por isso fazem sucesso.

Ok, então, o que você está querendo dizer com isso?

Meu intuito aqui é apontar como é necessário aprender a separar quem são: os críticos, os pseudo-críticos ou fãs, dos que abusam da internet sem terra de ninguém.

O personagem Anton Ego não está na capa à toa. Na animação do Ratatouille ele abomina o lema do Chef Gusteau de que “qualquer um pode cozinhar”. Pois, para ele, somente um Chef bem experiente consegue entregar uma comida de verdade. Estaria Anton errado? Não. O Gusteau estava errado então? Também não. (Oi Masterchef!) De fato qualquer um pode cozinhar, mas, isso significa de forma direta que a pessoa cozinha bem? Não né? É preciso muita prática para poder preparar um bom prato. Entender da química dos temperos, que molho vai bem com qual tipo de carne e assim por diante. Portanto, porque presumir que toda crítica especializada é um problema, quando a real é se você concorda ou não com o que escrevem?

Isso é uma outra questão. Saber entender que a sua opinião como fã e/ou cinéfilo e a visão do crítico são distintas. Você ter gostado muito de um filme e a crítica estar detonando não quer dizer nada. Ou o contrário, filmes elogiados pela crítica, mas que as vezes não são tão bem aceitos pelo grande público. Uma visão não anula a outra e vice e versa. Afinal, o profissional está ali avaliando a obra num momento de trabalho (presume-se). Já você, optou por assistir determinado filme por gosto pessoal mesmo. As opiniões vão divergir? Óbvio. Vai ter muito crítico escrevendo besteira e misturando as coisas? É claro. Vai ter muito fã metido a entendido do assunto? É o que mais tem. Por outro lado, vai ter também muito crítico propondo uma análise profunda e com detalhes da obra? Com toda certeza.

Justamente por isso é preciso aprender a separar o que é um Crítico de Cinema, daquele que só está usando a internet para se expressar, emitir uma opinião. A pessoa está errada em fazer isso? Bem, desde que ela não mascare sua opinião como discurso de ódio, não. Agora, isso faz com que ela possa ser encarada como um profissional do meio? Podendo ser reconhecido como expert? Mas nem de longe.

Bem, a conclusão é que não existe problema com a crítica especializada em si. Temos sim problemas com alguns críticos e fãs que tentam se passar por críticos pelos motivos descritos no texto. Não esqueçam que existem maus profissionais em qualquer área. Charlatões também. Ah! E os haters! Temos que aprender a identificá-los e não dar ibope.

  • waccana

    Levei block do face por tres dias kkkk, nem posso responder a menção lá rs, mas adorei o texto, acho que o critico é o cara isento de desejos e gostos, ele precisa analisar o filme, o projeto como o todo sem se deixar levar, a gente no CDL não vem a este caso pois queremos apenas de fato expor nossa opinião, por isso o slogan do site como sempre digo. O problema são certos criticos que infelizmente trazem os gostos consigo, e coisas pessoais ao desenvolver sua critica, por exemplo, “O cara não gosta do Nolan e todo o filme do Nolan que sair ele ja entra com vontade de sair do cinema…” tipico, e por ai, isso traz hater a critica, pois em alguns casos fica muito evidente estes gostos pessoais em apontamentos que fazem. EXCELENTE ARTIGO.