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“Alien: Covenant” não é uma coisa nem outra

“Alien: Covenant” não é uma coisa nem outra

Quando Neill Blomkamp – diretor de Distrito 9anunciou sua ideia para um novo filme do Alien com direito a esboços, ficamos empolgados. E então vem Ridley Scott e promete entregar um filme ainda melhor. E fica só na promessa.

Alien: Covenant narra a história de uma tripulação que está a caminho de um planeta distante para iniciar uma nova colônia por lá. Durante a viagem são atingidos e como a nave sofre avarias, são despertados pelo androide Walter (Michael Fassbender) antes do prazo. Enquanto lidam com os reparos externos da nave, são surpreendidos por uma transmissão pirata e acabam descobrindo um novo planeta com condições de habitação melhores do que aquele para o qual deveriam se dirigir. É então que o Capitão (Billy Crudup) decide investigar a origem dessa transmissão e desce com parte da tripulação. Mal aterrizam e os problemas começam a aparecer. Alguns deles mortais.

Não há nada de novo nessa premissa que é muito similar ao que foi visto em Alien, O Oitavo Passageiro e Aliens, O Resgate, incluindo até a caracterização de alguns personagens. Contudo, o grande erro foi ter mascarado o longa a ponto de vendê-lo como um filme da franquia Alien quando na verdade está mais para uma continuação direta de Prometheus. E a partir daí, quando o espectador percebe o erro, o filme inteiro desanda.

Para começar não há qualquer explicação quanto as funções dos membros da tripulação e as relações que existem entre eles. Ridley Scott não quis perder nem um segundo a mais para apresentar esses personagens, optando por focar no desenvolvimento da história e deixando a cargo do espectador identifica-los, o que compromete a conexão direta tornando-os descartáveis. A única que possui uma construção melhor que os demais é a Daniels, papel da atriz Katherine Waterson. Porém, tendo em vista que ela deveria representar o “papel” da Tenente Ripley, acaba não sendo tão marcante quanto ainda que possua a resiliência da mesma. Depois de um tempo fora da tela o espectador acaba esquecendo de Daniels o que não deveria acontecer. E o mesmo sentimento é repassado aos outros tripulantes, suas mortes não tem qualquer impacto.

Logo, tendo ‘descartado’ a importância dos personagens dentro de Alien: Covenant, nos resta prestar atenção na trama que mais se assemelha a um enorme quebra cabeça cujas peças foram encaixadas misturando o lado do retrato com o fundo, elas se conectam, todavia, não fazem o menor sentido.

Sabemos que se trata de uma nave colonizadora cuja tripulação é responsável em proteger os mais de dois mil colonos a bordo e também os embriões que vão nascer. E tudo isso é jogado para o espaço devido a curiosidade em descobrir mais sobre a mensagem pirata. Até aí não haveria problema, pois o Capitão Dallas (Tom Skerritt) no filme de 1979 tem a mesma decisão. A diferença se encontra na maneira como as equipes foram divididas, escolhendo descer com quase toda a tripulação para um território desconhecido, sem qualquer pesquisa prévia do terreno e toxinas, mostra um claro despreparo tanto do Capitão Oram quanto dos demais membros que acataram a ordem. Isso porque supostamente eles deveriam ser mais instruídos, alguns até com treinamento militar e os mineradores da Nostromos se mostraram bem mais preparados do que eles. E é nessa parte que se encontram as maiores falhas do longa.

Há problemas nos diálogos rasos entre os personagens, devido a um roteiro picotado e que aponta mais dúvidas e questionamentos do que os responde, o contrário do que havia sido prometido, que era esclarecer o que surgiu em Prometheus acerca dos criadores e dos aliens. Na verdade, criou-se mais perguntas, além de um looping confuso que envolve o androide David (Michael Fassbender), os criadores, a Dra. Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e os Aliens. Sem mencionar as referências externas a música clássica e literatura clássica que parecem explicar a execução de algumas cenas envolvendo esses personagens, mas é exigir muito do espectador possuir conhecimento vasto nestas áreas.

Uma outra falha, talvez a mais evidente, foi que o diretor optou por introduzir a maioria das cenas de ação em solo, transformando o bom e esperado suspense da franquia em um terror execrável e sanguinolento como visto em filmes do gênero slasher. Que não são ruins, mas, de certo não é, nem nunca foi, a proposta da franquia Alien. Tal escolha prejudicou a fotografia do filme ou o tratamento final de imagem, que deveria ser mais escuro e subjetivo, não deixando tão visível os ataques do xenomorfo e criando assim um suspense em cima das novas criaturas, como o alien híbrido, por exemplo, que foi uma grata adição e possivelmente o único fator interessante em todo o filme.

Alien: Covenant não cumpre aquilo a que se propôs, já que não se encaixa no que é esperado de um filme da franquia Alien e nem tem o que precisa para ser encarado como Prometheus 2, ainda que tenha sido esse o título original escolhido por Ridley Scott a princípio. No final, a sensação que fica é que fomos enganados.