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“Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” [com spoilers]

“Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” [com spoilers]

Depois de sete livros publicados e outros spin-offs, os fãs continuam atrás de novas teorias do universo de Harry Potter. Com o lançamento da franquia de Animais Fantásticos, esse desejo só aumentou. Harry e companhia foram deixados de lado e abriram espaço para outros personagens. E aos poucos a autora J.K. Rowling nos tem alimentado.

Em Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald a bola da vez está no colo de Newt e Dumbledore. Afinal, ambos são os pilares, por assim dizer, desse novo filme. Grande parte dos eventos gira em torno deles. Mesmo aqueles que afetam outros personagens e não aos dois de forma direta. O que acaba levantando inúmeras questões que vão ser abordadas de maneira mais profunda aqui.

NEWT SCAMANDER

Newt + Dumbledore

Houve uma mudança significativa na maneira como o Newt se comporta do primeiro filme para cá. Após seis meses dos eventos em Nova York, parece que se tornou ainda mais introspectivo e afrontoso. O Ministério da Magia está na sua cola e agora o magizoologista está proibido de viajar. O que não vai impedi-lo de nada. Principalmente quando Dumbledore for ao seu encontro e numa primeira virada do filme, descobrirmos que a viagem de Newt à Nova York foi obra do próprio professor. [olha ele aí mais uma vez usando os alunos] Queria que Newt encontrasse o Grindelwald porque ele mesmo não pode fazer isso. A razão vamos descobrir mais tarde no longa.

Newt + Teseu

Se tinha algo pelo o qual estava curiosa para descobrir era a relação entre os irmãos Scamander. No primeiro filme dá a entender que Teseu é muito bem quisto no mundo mágico, enquanto Newt é a pária. Ainda mais por ter sido expulso de Hogwarts, o que não aparece nesse filme. É apenas mencionado que ele foi expulso.

Dá a entender que Newt se ressente do irmão por ser comparado a ele de forma constante por terceiros. Não é algo que Teseu fez a ele diretamente. Na verdade, parece que ele se preocupa muito com Newt e quer protegê-lo. Por isso pede ao Ministério que dê mais uma chance ao seu irmão ao lhe oferecer uma vaga como Auror. Mas, o que Newt mais teme no mundo é trabalho burocrático. Além de não enxergar as coisas como preto no branco. Não dá mesmo forma que os aurores enxergam.

Outro ponto dessa relação conturbada é o fato de que em algum momento os dois irmãos estavam apaixonados por Leta Lestrange. E de alguma forma, ela escolheu se relacionar com o Teseu e ser sua noiva. Não dá para saber se houve alguma competição indireta, se Newt se sente traído por eles serem amigos de escola ou por seus sentimentos não terem sido correspondidos. A figura da Leta é soturna e cheia de mistérios. É visível que ela sente apreço por ambos os irmãos Scamander mas de jeitos diferentes. Há uma cena que nos trailers, uma espécie de baile, a qual ficou de fora do filme e poderia dar mais luz a essa relação do trio.

Newt + Tina

Esse era um dos momentos mais aguardados pelos espectadores e quando chegou foi completamente morno. Tina acha que Newt está noivo de Leta, depois de ler uma notícia numa revista de fofoca. Newt se ressente por Tina ter se afastado após a promoção para ser Auror. O clássico disse-me-disse de filmes adolescentes que não encaixa bem aqui.

O romance que todos esperávamos acontecer, vai demorar, pelo visto. Em partes porque Newt tem dificuldades para se expressar e porque Tina espera respostas dele para que ela saiba em que terreno está pisando. Ou seja, final feliz, beijos, provável que só para o penúltimo e último filmes. É certo que eles ficam juntos, se casam e tem filhos gêmeos com nomes estranhos: Lorcan e Lysander. Só que tudo isso deve acontecer nos últimos minutos do último filme, tal qual foi com Harry, Ron e Hermione.

E a Tina coitada, quase não apareceu, suas cenas individuais eram muito rápidas e sem tanto peso para a história.

JACOB + QUEENIE

O encontro entre os dois era um dos momentos mais esperados. Bem, ao menos era para mim e não teve nada disso. Quando damos conta, o casal já estão invadindo a casa do Newt em Londres, sem ao menos terem avisado que iriam. Que rude.

Contudo, a teoria de que Queenie ao se apaixonar por Jacob faria de tudo para que ficassem juntos era verdadeira. E falo de tudo mesmo.

Jacob é enfeitiçado por ela, a clássica poção do amor (Oi Romilda!) e carregado para Londres contra a sua vontade. Newt sente que há algo de errado ali e desfaz o feitiço para a irritação de Queenie. Jacob até tenta conversar com ela, colocar algum senso em sua cabeça, mas não consegue. Queenie está cansada de ser menosprezada por outros, de ter que seguir as regras que agora não lhe convêm mais e não poder ficar com Jacob.

Se vocês bem lembram, em 1927 ainda é proibido que bruxos e pessoas não-mágicas mantenham relações amorosas e se casem.

Essa falta de apoio leva Queenie a cair nas mãos da pessoa menos provável, Gellert Grindelwald. Não apenas porque a sua missão de retirar os bruxos do anonimato e colocá-los a frente dos trouxas é algo que apetece a Queenie. Mas também porque ela vai ser livre para usar seus poderes sem reprimendas. Sem pessoas lhe pedindo para controlar algo o qual ela não possui o menor controle.

Quanto ao Jacob, coitado, ele fica de plano de fundo, assim como a Tina. Embora as suas conversas com Newt sejam engraçadas e façam o espectador rir, ele passa o restante do filme correndo atrás da Queenie. E protagoniza um dos maiores furos ao aparecer numa porta do cemitério em Paris, no mesmo local em que outros personagens estão, sendo que só o vemos chegando no local. De repente, ele abre uma porta, sendo que não estava no mesmo recinto.

CREDENCE BAREBONE

Morreu, não morreu. Bem, meio óbvio que nós já sabíamos que Credence não havia morrido, pois estampou vários cartazes promocionais do filme. No entanto, o seu retorno não teve o peso necessário, ou esperado.

Para começar o seu encontro com a Nagini é morno demais. Uma personagem que foi muito comentada quase não apareceu. Na verdade, passa a maior parte do tempo encolhida pelos cantos, seguindo o personagem do Credence. Ele por sua vez continua acuado como se sua mãe adotiva fosse aparecer a qualquer segundo e lhe dar uma surra. O trauma é visível em ambos os personagens, todavia, não pode ser usado como ‘desculpa’ para a não evolução dos mesmos. A gente espera que eles façam algo e nada acontece.

Grande parte da motivação de Credence é saber quem ele é. Sua origem, de onde veio, como foi parar com a Mary Lou Barebone e quando finalmente encontra uma pista, ela chega pela metade. Deixando como opção um único caminho: se aliar ao Grindelwald. Para o garoto, ele continua sendo o meio para encontrar as respostas que tanto busca.

O espectador até chega a pensar que ele é o irmão perdido de Leta Lestrange. Uma outra teoria que estava circulando pela internet, mas não é não. Leta confessa que sem querer acabou causando a morte do irmão Corvus (de onde esse povo tira esses nomes?!) quando estavam viajando de navio para os Estados Unidos. Ela faz uma troca de bebês, dando o irmão para uma família na cabine da frente e pegando o bebê deles para a cabine dela. Esse bebê era o Credence.

Credence + Grindelwald

É aí que chega o Grindelwald com a maior bomba de todas: Credence é na verdade Aurélio Dumbledore, um filho perdido, e convence o rapaz de que seu irmão quer matá-lo. É. O filme termina com a informação de que Credence é irmão de Alvo Dumbledore. Mas a internet já está teorizando que é tudo balela por parte do vilão. Está colocando minhocas na cabeça do Credence porque ele próprio não pode derrotar o Dumbledore e também por conta do pacto de sangue. E ele sabe que não é páreo para o ex-amigo/amante.

ALVO DUMBLEDORE

Desde sempre Alvo se encontra na mira do Ministério por ter inúmeras conexões no mundo bruxo que o favorecem. Os alunos o consideram um dos melhores professores de Hogwarts e não a toa ele acaba virando diretor da escola no futuro. Além de ser considerado um grande bruxo.

O que é claro como água são as segundas intenções do Professor. Ainda que ele seja gentil, educado, dê conselhos valorosos aos seus alunos, continua maquinando por trás como eles podem lhe ser úteis. Por isso mesmo que decide mandar Newt para Nova York a fim de caçar Grindelwald para ele. Agora, a razão dele mesmo não poder ir é uma muito familiar para nós: um pacto de sangue.

Dumbledore + Grindelwald

Assim como o voto perpétuo que Snape fez a Narcisa, o pacto de sangue consiste em algo poderoso e que nenhuma das duas partes pode romper. O vilão ostenta esse item desde o começo do filme e faz questão de que todos o vejam com esse item. Mesmo que não saibam do que se trata vendo de longe.

É essa a razão pela qual Dumbledore não pode ele mesmo ir caçar o antigo amigo. Pois eles prometeram que nunca lutariam um contra o outro. O que levanta uma série de questões, sendo a principal delas a seguinte:
Saberia Dumbledore desde o começo das reais intenções de Gellert e nada fez para impedi-lo ou alertar outros do que ele estava planejando fazer?

Porque mesmo que não pudesse duelar, outros poderiam em seu lugar. Será que o amor não permitiu que ele o denunciasse ao Ministério? E porque de repente ele precisa impedi-lo? Por que as coisas saíram do seu controle ou porque ele nunca imaginou que Gellert seria capaz de tantas atrocidades?

Entretanto, graças a astúcia do Pelúcio, agora Alvo tem novamente em mãos o símbolo do seu pacto com Grindelwald e vai desfazer para enfim lutra contra ele. O que sabemos que acontece, pois o desfecho disso é ele se tornar dono da varinha das varinha e Gellert ficar preso em Nuremberg.

FALHAS

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald possui algumas falhas que precisam ser apontadas. Embora o longa tenha aquela atmosfera mágica que nos é familiar, também tem erros e furos que não passam tão desapercebidos assim.

Duração

Não havia a mínima necessidade de ter mais de 120 minutos. Algumas cenas servem apenas para enaltecer o trabalho de produção com relação ao cenário e não acrescentam em nada na trama em si. O que acaba deixando o longa com um clima morno e ritmo quebrado, tendo hora uma interação relevante, hora uma paisagem em plano aberto de Paris.

Roteiro

J.K. Rowling pode ser ótima autora de livros, mas está lhe faltando experiência para escrever um roteiro bem amarrado. Talvez a culpa nem seja dela, mas sim daqueles que estão a sua volta e falham em apontar que existem buracos que precisam ser preenchidos. Ou ainda o roteiro como um todo esteja correto e no final pecam na hora de editar. Assim a montagem acaba prejudicando o filme como um todo. Como por exemplo a cena em que Jacob, do nada, aparece abrindo uma porta no mesmo mausoléu em que estavam Newt, Tina, Leta, Yusuf e Teseu.

Direção

Os personagens não se desenvolvem por si. Para tal é preciso trabalho em conjunto tanto do roteiro quanto da direção e isso fica em falta aqui. Apenas alguns personagens como Newt e Dumbledore possuem um desenvolvimento e evolução mais claro em cena, enquanto os outros entregam performances satisfatórias apenas.

Magia

Como assim magia? Pois é. Mesmo com alguns feitiços incríveis como aquele Finite protagonizado por tantas varinhas no final, senti que esse elemento ficou de lado e a questão da política bruxa de Grindelwald e o mistério de Credence ganharam mais força. Em outras palavras, o foco esteve mais na relações interpessoais do que na magia em si. O que não seria de todo ruim, se houvesse um equilíbrio entre ambos. Não foi o que aconteceu.

Animais

Cadê os animais fantásticos do filme? Nós só vemos o porão da casa do Newt, com as espécies as quais ele toma conta e a captura do dragão chinês que não consta na lista oficial de animais mágicos. E claro, o Pelúcio e seus filhotes aprontando em menos de 40 segundos de cena. De resto, mais um elemento que é colocado de lado.

CONCLUSÃO

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald não é um filme ruim. Contudo, é falho enquanto sequência. Para os fãs e amantes desse universo, tais erros vão passar batidos e a experiência no cinema certamente vai ser prazerosa. Só que não é possível ignorar os problemas na condução da franquia e nos questionar se os próximos três filmes vão ser mais similares ao primeiro ou a esse.