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“Ao Cair da Noite” foge do padrão terror

“Ao Cair da Noite” foge do padrão terror

Desde o primeiro filme de terror que assisti quando criança sabia o que esperar dos próximos. Porém, conforme o tempo foi passando, surgiu a necessidade de se fazer diferente, de inovar como em Ao Cair da Noite.

O que antes era sanado com o clássico terror jump scare – aquele cheio de gatilhos e sustos prontos, como um gato pulando no personagem – passou a precisar de outros elementos que captassem a atenção de um espectador cansado do mesmo estilo sempre. Assim começou a popularizar estilos como slasher (Halloween e Sexta-Feira 13), found footage (A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal) e o terror psicológico (O Sexto Sentido e Fragmentado). Esse último é um dos mais populares, pois mistura outros fatores que são atraentes ao público. Entretanto, é preciso saber construir bem a trama de forma que o longa faça sentido ao apresentar seu plot twist e, infelizmente, não é o que ocorre em Ao Cair da Noite.

O filme de Trey Edward Shults – que dirige e assina o roteiro – se passa em uma espécie de mundo pós-apocalíptico onde uma doença dizimou grande parte da população e é transmitida através do ar ou por contato com alguém infectado. Mas como ela surgiu é um mistério. Com isso a família de Paul (Joel Edgerton) vive isolada em sua propriedade no meio de uma floresta seguindo uma rotina rigorosa a fim de conseguirem ter outro dia para viver. Temos um falecimento logo no início do longa que retrata parte do ritual que é sobreviver nesse mundo, mas nada sabemos como essa pessoa contraiu a doença. Horas depois a casa é invadida por um homem (Christopher Abbott), sem traços da contaminação, que procura por suprimentos para ajudar a sua família. Muito a contra gosto (depois de uma certa dose de tortura) Paul decide que uma troca é mais do que justa e então Will (o invasor) e sua esposa e filho chegam à propriedade. Acontece que abrir as portas para estranhos não é algo simples, ainda mais em meio a um caos psicológico que assola essas pessoas. Então, como confiar em quem você não conhece?

Ao Cair da Noite tem uma direção de fotografia singular que situa o espectador naquele cenário e é um dos trunfos do título. Todavia, o filme enfrenta problemas ao tentar desenvolver sua trama de modo que continue fazendo sentido dentro do gênero proposto. E é aqui que surgem algumas questões.

Dentro do que esperamos de um filme de terror existem algumas diretrizes as quais achamos que devem ser seguidas a fim de proporcionar melhor entretenimento para o público, mas, será que toda regra deve mesmo ser obedecida? Neste filme em particular não temos conhecimento de uma série de informações que fazem falta, porém, não atrapalham por completo a evolução da trama que acontece num viés mais subjetivo e aberto a interpretações. Ao mesmo tempo, cria-se um certo incômodo no espectador que sente falta desses elementos os quais está acostumado. Mas, de novo, tem a ver com o que esperamos assistir de um filme e muitas vezes deixamos de lado a sua proposta enquanto longa metragem, o que é o caso de Ao Cair da Noite.

Mesmo que o trabalho de Trey Edward Shults seja louvável, é preciso considerar as implicações que vai ter no cinema comercial e como o grande público vai encarar este “novo gênero” de fazer terror, com poucos sustos, muita subjetividade e amplas interpretações. Estariam eles preparados para uma experiência mais individual enquanto acostumados a vivenciar filmes do gênero dentro do coletivo? Dentro do que é o esperado nesses casos?