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As diferentes vítimas em “Seven Seconds”

As diferentes vítimas em “Seven Seconds”

*ATENÇÃO! Contém alguns spoilers!*

Seven Seconds traz à tona um tema bastante em voga nos Estados Unidos desde muito tempo: a violência policial para com a comunidade afro-americana. Mas vai um pouco além nesse assunto ao mostrar as diferentes vítimas envolvidas na mesma história.

A série da Netflix que estreou dia 23 de fevereiro foi desenvolvida por Veena Sud a também responsável por The Killing. Nesse ponto as duas tem em comum o mesmo ritmo e a forma de apresentar os personagens. Começamos a série vendo o policial Peter Jablowski (Beau Knap) atropelar alguém num dia de neve intensa enquanto se dirigia ao hospital. Desesperado contacta seu superior e demais colegas da unidade que vão até o local e descobrem que ele atropelou um rapaz negro. De imediato o jovem policial quer se entregar, mas o superior Di Angelo (David Lyons) é contra. Diz que não vai ser bom para ninguém (leia-se nenhum policial) se ele fizer isso e que o ódio entre eles a comunidade afro-americana vai crescer ainda mais. Ele então diz que vai cuidar de tudo e manda Peter seguir em frente.

AS VÍTIMAS PRINCIPAIS

Logo nos primeiros minutos do filme somos apresentados a nossas primeiras vítimas: Brenton Butler (Daykwon Gaines), o rapaz atropelado e Peter Jablonski, o policial recém-chegado. Ainda que um esteja em mais grau do que o outro, ambos podem ser considerados vítimas por diferentes razões.

No caso de Brenton ele foi vítima da falta de atenção de Peter que estava dirigindo em uma estrada cheia de neve e sem prestar atenção a mesma, concentrado no celular. E mais tarde, vítima do descaso dos policiais que deixaram seu corpo estirado na tempestade de neve com poucas chances de ser encontrado. Se importaram bem mais com a carreira deles, com a imagem da corporação do que em salvar uma pessoa. Falharam no sentido pleno do “Proteger e Servir”. E Brenton pagou com a própria vida.

E quanto ao Jablonski? Para ele a situação começa a se delinear com o passar dos episódios. Fato que o primeiro instinto dele foi de se entregar e resolver tudo. Mas o coleguismo para com os seus falou mais alto. Ou o medo de ser enxergado como pária pelos outros. [Algo que outro personagem vai sofrer.] Peter é uma vítima dentro do mundo corporativo da polícia.

Pois, quanto mais tempo passar ao lado de pessoas como Di Angelo, Osorio (Raúl Castillo) e Wilcox (Patrick Murney), mais vai se comportar como eles. Agir da forma que eles entendem por “correta” e aprender o mesmo preconceito que eles tem em relação aos membros da comunidade afro-americana. O que fica nítido em alguns episódios e é um comportamento que Peter está sempre recusando aceitar.

Óbvio que Peter é uma vítima em menos grau do que o garoto o qual atropelou, porém, ainda assim uma vítima. Foi escolhido a dedo para ingressar nessa unidade, é uma promoção e tanto para a sua carreira, sua esposa está prestes a dar a luz, como vai colocar tudo isso a perder agora? E por causa de mais um garoto negro que provavelmente era membro de uma gangue e ninguém vai sentir falta? Utilizando mais ou menos essas palavras que Di Angelo convence o rapaz de que estão agindo da forma certa. Só esqueceu que Brenton Butler tinha uma família. Mais vítimas.

A FAMÍLIA

Isaiah e Latrice Butler podem ser classificados como típicos pais. Finalmente conseguiram sair dos Projects (conglomerados de prédios nos EUA onde vivem a maioria dos afro-americanos e demais famílias de baixa renda) e compraram uma casa onde vão poder criar seu filho longe da marginalidade que estaria sujeito no antigo lar. Assim como muitos, Isaiah e Latrice possuem uma origem humilde e foram ensinados desde cedo a dar valor ao trabalho e a forma como um afro-americano deve se comportar. Muito religiosos, se prendem aos ensinamentos de Deus para guiar suas vidas. Até que o único filho deles é atropelado e encontrado somente 12h depois.

Nesse ponto a vida dos dois muda de forma radical, mas é algo que percebemos apenas com o caminhar dos episódios. Antes muito unidos, suas crenças e a forma como optam em lidar com o luto faz com que eles acabem se separando. Isaiah (Russell Hornsby) tenta encontrar conforto nas palavras de Deus ao se dar conta de que não conhecia o próprio filho. Por passar horas trabalhando, em busca de uma qualidade de vida melhor para a família, não dedicava tempo o suficiente para conhecer Brenton. E fazia pior, exigia dele a mesma excelência que ele tinha com seus objetivos, e não enxergava quem ele era. Esquecia de dar amor, porque, talvez, isso ficasse subentendido em suas incontáveis horas de trabalho.

Latrice (Regina King) é a mãe leoa. Como boa parte das mães, sejam elas de qual raça forem. Parte dela algumas das melhores cenas do seriado e é a personagem com maior evolução durante toda a temporada. Não se conforma ou contenta com meias verdades e quer justiça pelo o que fizeram com seu filho. E quando ela não consegue isso pelos meios legais, vai procurar ela própria outra saída. Não podemos culpá-la por isso, tendo em vista que a promotora não transmite muita confiança. E sem Latrice muitas pistas teriam sido ignoradas.

Caminhando por fora temos Seth (Zackary Momoh), irmão de Isaiah, membro do exército e que acabou de retornar de sua primeira missão em solo internacional. Aqui a narrativa é bem comum e próxima do real, o pobre rapaz do gueto, que consegue sair para uma vida melhor se alistando ao exército, apenas para voltar para casa e ser arrastado para a criminalidade de novo. O triste fim de muitos veteranos que sem apoio ou aconselhamento, acabam perdendo o rumo. Outra vítima.

A PROMOTORIA

Finalmente chegamos no ponto fraco de Seven Seconds, a ‘personagem principal’ KJ Harper, vivida pela novata Clare-Hope Ashitey. E o problema não é pelo fato dela ser uma novata, não, até porque sua atuação é deveras sólida. O grande problema da personagem reside no que a torna uma vítima também: a bebida.

Diferente dos outros personagens os quais se tornaram vítimas por consequências externas, KJ é uma vítima dela própria e de suas escolhas. Algo com o qual se martiriza constantemente ao afundar-se em um copo de destilado. Com isso ela mal consegue equilibrar sua vida profissional e a pessoal, que dirá liderar um caso desse tamanho e que está em todos os noticiários. Chega a ser decepcionante torcer pela sua recuperação, para que ela finalmente encontre o prumo, só para vê-la falhar em algo e se embebedar minutos depois. E tudo isso não é demérito, pois o alcoolismo é uma doença e deve ser tratado como tal. Mas o sentimento que fica, infelizmente, é o de frustração. O ponto fora da curva aqui é que desde o início, mesmo sem saber de seus problemas com a bebida, não é possível ter empatia para com KJ. Não há qualquer carisma na personagem, nem nada que nos prenda à sua história.

Ela está tão focada no próprio mundo e em tudo de ruim que está acontecendo em sua vida, que fica a dúvida se ela está apta a batalhar por esse caso no tribunal. Até porque quem melhor que uma promotora negra para entender toda a questão racial envolvida no caso? Ledo engano. Harper gosta de deixar bem claro que esse estereótipo não funciona com ela. Não cresceu nos bairros pobres de New Jersey, mas sim na área abastada, onde poucos afro-americanos residem. Então além da cor da pele, não possui muito em comum com seus clientes. O que fica estampado no rosto de Latrice em diversos momentos quando ela espera algo a mais de KJ que não recebe.

Para contrabalancear com a personagem da KJ temos o detetive Fish (Michael Mosly). Aquele que mencionei lá em cima que se tornaria um pária, lembram? Então, ele é mais um ponto na curva. Um detetive certinho, nos moldes do que foi Comissário Gordon e que se coloca na linha de tiro para ver esse caso e seus companheiros de trabalho investigados e condenados. Ainda que isso custe seu prestígios dentro da delegacia e o olhar atravessado dos colegas. É ele quem levanta KJ todas as vezes que ela cai e juntos formam uma dupla um tanto bizarra. Ressaltam o que o outro tem de pior e melhor durante todo o processo de investigação.

E olha… a gente torce muito para KJ triunfar. Para que tudo dê certo, mas, não acontece.

CONCLUSÃO

Seven Seconds possui uma trama um tanto arrastada que propõe um certo distanciamento entre os personagens e o espectador. Tal escolha é feita para que haja um foco maior no que está sendo narrado ali e qual a importância dentro do que vivemos agora. A intenção é mostrar que há mais vítimas envolvidas além daquelas que figuram na cobertura da mídia como Brenton e Jablonski. E a maneira com a qual cada uma lida com as consequências do acidente. Coisas que não costumamos ver em páginas de jornais e nem nos noticiários. O tal aprofundamento da história, cobrindo todas as pontas soltas.

A proposta de Veena Sud é válida e funciona no momento que o espectador entender que mesmo se tratando de uma obra de ficção, é algo muito próximo do real. O que quer dizer que nem tudo vai dar certo. Nem todos os personagens são heróis. A bem da verdade? Todos eles são falhos. Seja em termos de conduta profissional, ética, caráter, moral entre outros. Incomoda bastante e se essa foi a intenção final, ela é alcançada.

Ficha Técnica
Criadora: Veena Sud
Elenco: Clare-Hope Ashitey, Michael Mosley, David Lyons, Russell Hornsby, Raúl Castillo, Patrick Murney, Zackary Momoh, Michelle Veintimilla, Beau Knap, Regina King, Nadia Alexander, Jeremy Davidson, Coley Speaks, Adriana DeMeo, Corey Champagne, Londi Brooks, Lesli Margherita, Corey Marshall, Rachel Navarro, Alex Perez 
Duração: 1ª Temporada - 10 Episódios (aprox. 1h cada)