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“Brittania” – O que é preciso para começar uma guerra?

“Brittania” – O que é preciso para começar uma guerra?

Brittania é a nova série da Sky Atlantic para o serviço de streaming da Amazon. Teve recentemente os direitos de exibição vendidos para a HBO e está levantando as mais diferentes críticas.

A série trata da invasão dos Romanos à Brittania, buscando subjulgar povos celtas aos caprichos e taxas de seu imperador. Mas por trás dessa trama, nos primeiros episódios, já começamos a entender que nem tudo eram flores antes mesmo da ameaça aportar.

Além do núcleo Romano, somos apresentados à duas tribos celtas, que se encontram em guerra por si só. Além do grupo de druidas e as tramas pessoais de alguns personagens que instigam a curiosidade do espectador.

Divis (Nikolaj Lie Kaas), um pária dos druidas e porquê sua missão é tão importante na trama. Cait (Eleanor Worthington-Cox) a garota que se vê sem um nome ao ter seu ritual de passagem interrompido. Fica perdida entre a infância, a idade adulta, e o que aconteceu com sua família. A princesa guerreira Kerra (Kelly Reilly) de gênio forte e que foi responsável pelo início da guerra entre duas tribos. E por último, o general Romano Aulus (David Morrissey) que demonstra muita atração pelo inexplicável.

A serie tinha tudo para dar certo: personagens envolventes, trama que deveria ser histórica, cenários de tirar o fôlego. Mas, infelizmente, pecaram no ponto que mais deveriam ter atenção: Os Celtas. Dando início a uma guerra fora do seriado.

A abertura não tem nada em comum com o cenário da série. Faz uso abusivo de cores fortes, uma música cujo ritmo destoa do enredo e o uso de simbologias de outras religiões pagãs que não tem qualquer relação com celtas, como o pentagrama, que é Wicca, e as runas nórdicas. Seguidores da espiritualidade celta não conseguem se ver representados pelo seriado, muito pelo contrário. Certamente se tivesse visto apenas a abertura da serie sem assistir o capitulo em si, não teria me chamado a atenção também.

Outra questão incômoda, é a forma como demonstram momentos de pouca lucidez de personagens com uso excessivo de desfoque. É possível entender a intenção, mas na prática não funciona tão bem.

Longe de ser grande conhecedora do assunto, pude notar que havia algo estranho com a caracterização dos druidas. Apesar da maquiagem estar muito boa, parece haver mais influencia voodoo do que celta. Num dado momento, um dos personagens diz que “ser insano é um pré-requisito para ser druida” e isso é ofensivo.

O seriado peca muito em tudo que envolve os druidas, que são uma classe dentro de uma tribo celta. São seguidores da espiritualidade celta que tem profunda sintonia com a terra e com os ciclos da natureza. Eram juízes, professores, mantenedores da paz e vez ou outra, presidiam alguns rituais. Cada tribo possuía um, e não havia uma ‘tribo de druidas’ como mostrado no seriado. Da forma como o seriado exibe a cultura celta, poderiam ter criado um povo fictício. No fim, Brittania mostra uma grande falha de pesquisa e execução de seu tema.

Não satisfeita com meu incomodo inicial, busquei me informar com a comunidade celta. Descobrindo que até os deuses citados no seriado não existem. Temem que Brittania acabe formando ‘druidas graduados’ só por ver a série.Tal qual foi com a comunidade da fé nórdica, que precisa lidar com os ‘falsos Vikings’.

Para aqueles que esperam ao longo da série aprender mais sobre celtas e druidas, a produção possui uma visão  distorcida sobre o povo e suas classes sacerdotais.

Se só desejam assistir uma história instigante sem preocupações, vale a pena dar uma conferida. O seriado está bonito e com bons personagens, o que promete uma trama que pode prender a atenção de algumas pessoas.

Já aqueles que se interessam pela espiritualidade celta e desejam entender mais sobre druidismo, ao invés de acreditar na versão oferecida em Brittania, recomendo que procurem em suas cidades as Rodas de Druidismo. Ou ainda, entrem em contato com o Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta, ambos acessíveis via Facebook.