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Coletiva com Darren Aronofsky – “Mãe!”

Coletiva com Darren Aronofsky – “Mãe!”

Alguns filmes nascem para serem polêmicos. Mãe! é considerado um deles.

Dividindo os fãs entre “amei ou odiei” o filme deixa uma janela escancarada de possíveis interpretações do que pode ou não pode ter sobre a trama. E foi com essa premissa que nos encontramos com o diretor do filme para esclarecer ( ou não) algumas das nossas dúvidas.

Darren Aronofsky veio ao Brasil nessa terça-feira (19 de setembro) em São Paulo, para uma coletiva de imprensa, a fim de divulgar seu mais novo trabalho em que assina a direção e o roteiro da obra: Mãe!. O diretor tem outros filmes consagrados como Cisne Negro, Requiem por um Sonho e O Lutador.

A história do filme se passa dentro de uma casa isolada onde mora o casal de protagonistas interpretados por Jennifer Lawrence e Javier Barden. Porém, toda a tranquilidade e rotina deles, é altamente afetada quando recebem uma visita inesperada, colocando marido e mulher em lados opostos sobre como lidar com a situação. É possível ler a crítica do filme aqui, não tem spoilers, e depois voltem para a coletiva.

Uma das principais questões levantadas na coletiva foi sobre como Aronofsky consegue ser tão autoral. Mesmo trabalhando dentro da grande indústria do cinema. E como é trabalhar dessa forma e qual dos projetos tinha sido mais difícil de ser realizado. Darren diz que cada filme é um filme, assim, toda produção tem a sua dificuldade e característica. Com um orçamento reduzido, se tem mais liberdade de trabalhar e menos cobranças. Como aconteceu com Noé, que teve uma superprodução, deixou os executivos mais temerosos, resultando em um pouco mais de trabalho.

Mãe! seguiu um caminho diferente, o que tornou-a uma produção aceitável e barata para o estúdio. Ao passo que completa dizendo que as proporções de um orçamento correto tem tudo a ver com o elenco correto.

Ainda sobre a produção de seus filmes, Darren Aronofsky afirma que seu maior prazer em uma obra é quando a mesma é autoral. Ele sempre se divide e coloca suas próprias motivações em certos personagens. Nunca por inteiro, apenas fragmentos de si mesmo. Sendo o Mago Matemático em Pi, a bailarina em Cisne Negro, o lutador em O Lutador ou o conquistador em A Fonte da Vida. Pega uma parte de si, trabalha, modifica, até que esse pedacinho seu, vire um personagem apto para contar uma história.

Assim, o diretor diz se sentir mais conectado ao personagem de Jennifer Lawrence pois foi lá que ele colocou a maior parte de si. Ainda assim, diz ter elementos de si inseridos no personagem de Javier Bardem.

Questionado sobre a escalação de Michelle Pfeiffer para o elenco, Darren diz ter sido uma excelente escolha. A atriz estava afastada das telonas há algum tempo, antes de trabalhar em Mãe! Aqui o diretor tece a comparação da personagem da atriz com a Eva. Que ela simboliza na Bíblia as mudanças crescentes que a personagem também tem em sua personalidade. Fazendo o contra ponto da personagem de Jennifer que tornar-se acuada. Seria quase como se Pfeiffer fosse o gato e a Lawrence o rato nesta equação.

Mãe! desde o começo de sua divulgação foi tido como um filme claramente de terror. E não é exatamente isso que a produção propõe. O acabou por afetar o julgamento de muitas pessoas, que foram dispostas a assistir um gênero e acabaram se deparando com um filme completamente distinto. Mais ou menos o que ocorreu na época do lançamento de Ilha do Medo de Steven Scorsese.

Darren Aronofsky foi questionado do porquê essa distância tão clara entre o que é mostrado no filme e o seu produto publicitário. E ele responde sem muita enrolação. Afirma que Mãe! é um filme difícil de se vender. De trazer o público até ele. Mas que em nenhum momento o público é enganado. O que tem nas imagens de divulgação, estão lá, mas de forma mais brutal.

“O trailer deveria dizer: Não é um filme de terror, não é um filme de suspense, mas vai ferrar a sua mente. Afirma.” 

Também falou sobre o trabalho que teve com o pôster de divulgação. Onde temos uma imagem de Jennifer segurando um coração e muito sangue. “Eu gostei, mas algumas pessoas se incomodaram”. Então ele criou um segundo pôster, com Javier, para poder equilibrar as coisas.

Os jornalistas presentes foram aos poucos mostrando cada uma das interpretações que tiveram da obra, desde religiosa, visão politica e até sobre o meio ambiente.

Uma dessas visões aponta a obra como uma mensagem forte sobre o Feminismo, e com isso, questionam se Jennifer Lawrence -que também é namorada do diretor – teve influência sobre a personagem e a trama. Darren diz que ele se empolgou desde as primeiras lidas sobre o roteiro e personagem, e foi crucial ela acreditar e entender que o papel dela tinha uma mensagem importante, não só dentro do filme.

Mas das poucas pistas que o diretor deixou sobre a sua visão da obra é que podemos imaginar que sim, tem um cunho religioso. E também a responsabilidade que deveríamos ter com o meio ambiente. Ainda cita um versículo da Bíblia que fala que precisamos cuidar do nosso planeta. Não a toa estava vestindo uma camiseta com os dizeres #todospelaamazônia.

Por último, um dos maiores mistérios sem resolução no filme, é uma substância que o personagem da esposa, dona da casa, mistura a água quando está tendo algum tipo de dificuldade respiratória. Ao ser perguntado sobre o que seria tal substância o diretor responde: “Essa é a única pergunta que não respondo, é um segredo que levarei ao túmulo”.

fotos: Mauricio Santana/Paramount Picture