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Com roteiro clichê “Sem Fôlego” deixa a desejar

Com roteiro clichê “Sem Fôlego” deixa a desejar

Um menino, um museu e histórias do passado que se encontram com a atualidade. O roteiro tem tudo para ser legal, mas também pode cair muito no clichê. E é justamente nesse caminho que Sem Fôlego – Wonderstruck, no original – se perde.

O filme tem direção do ousado Todd Haynes, que ganhou destaque por trabalhos como Não Estou Lá (2007) e o belíssimo Carol (2015). Como característica principal, Haynes atribui a seus filmes uma fotografia quase fantasiosa, e histórias de pouquíssimo diálogo, mas grande impacto visual. Em Sem Fôlego, a técnica se repete, e combina muito com o aspecto da película, que traz um “quê” de fábula infantil. De novo o diretor trabalha com Juliane Moore, que esteve em seu longa Longe do Paraíso (2002) – muito aclamado – e dessa vez também conta com o reforço de Michelle Williams.

A história acompanha o menino Ben (Oakes Fegley) que vive a infância durante a década de 70, quando sofre um acidente que o leva a surdez. Paralelamente, é contada a história de Rose (Millicent Simmonds). Uma garota também surda que foge de casa para procurar pela mãe, em 1927.

A fotografia passeia entre as cores e o preto e branco, deixando claro para o espectador que o filme tem a intenção de brincar com os dois tempos. Enquanto isso, cada uma das crianças vive a sua epopeia particular.

As atuações infantis não surpreendem, em tempos em que vemos crianças apresentando trabalhos cada vez mais impressionantes na TV e no cinema – como em It – A Coisa (2017). Michelle Williams tem um papel pequeno no filme, que nos faz questionar por que contratar uma atriz de tal potencial para tão pouco. Enquanto Juliane Moore ganha mais destaque e tem real significância na trama.

Sem Fôlego traz inúmeras referências cinematográficas, e com certeza é um grande flerte com o cinema mudo. Mas falha miseravelmente ao tentar amarrar as duas tramas e combinar os dois estilos: aquele da década de 20 e da década de 70.

Uma terceira criança é colocada em cena, o jovem Jamie (Jaden Michael), que deveria trazer algum agito a trama, mas também não acrescenta muito. Tudo no personagem soa extremamente artificial – desde a caracterização da época até a sua atuação sem emoção.

A história é baseada no livro homônimo de Brian Selznick, que já teve outra obra adaptada para o cinema – A Invenção de Hugo Cabret (2011) realizada pelas mãos de Martin Scorsese. Do mesmo jeito que o primeiro, o filme caminha na corda bamba entre ser um grande conto de fadas para crianças ou uma história cabeça para encantar cinéfilos. Sem pender para nenhum dos dois lados, Sem Fôlego perde em ambos.

O destaque positivo vai para a trilha sonora. Para ambientar as décadas as músicas foram escolhidas a dedo e David Bowie encerra a trama com a linda “Space Oddity”, talvez a melhor surpresa do longa-metragem.

Ficha Técnica 
Diretor: Todd Haynes
Roteiro: Brian Selznick
Elenco: Oakes Fegley, Julianne Moore, Michelle Williams, Millicent Simmonds, Cory Michael Smith, Tom Noonan, Amy Hargreaves
Duração: 1h56min