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“Corra!” e o ato de objetificar o negro americano

“Corra!” e o ato de objetificar o negro americano

Objetificar é o processo que atribui ao ser humano a natureza de um objeto material ou coisa. Ao trata-lo como tal a pessoa acaba por descaracterizar o indivíduo.

Quando o diretor Jordan Peele escreveu Get Out, que chega aos cinemas brasileiros nesta Quinta-feira traduzido como Corra!, certamente sabia bem as mensagens que estava inserindo, de modo subjetivo ou não, em seu longa.

O espectador acompanha o fotógrafo Chris (Daniel Kaluuya) e sua namorada Rose (Alisson Williams) em uma viagem no final de semana para conhecer os pais da moça. Juntos a quatro meses, a garota crê ser o passo ideal a dar na relação deles. Tudo isso seria incrivelmente casual não fosse o fato de Chris Washington ser negro e Rose Armitage branca.

Logo no início vemos que o rapaz se mostra incomodado por Rose não ter sido franca com os pais sobre a cor da sua pele e teme por uma situação constrangedora chegando lá de surpresa. A namorada tem a reação que todos esperamos de alguém nesse caso, mas nada parece tranquilizar o rapaz, afinal, qual é o grande problema de estar num relacionamento interracial em pleno século XXI? Bem, pela visão do diretor que muito reflete a sociedade atual, há vários.

A começar com a situação estranha a qual se encontram assim que adentram a vasta propriedade secular da família Armitage Há um jardineiro, negro, cuidando da grama que presta muita atenção no caminho que o carro faz até a entrada principal. Dentro da casa, tentando ao máximo ser simpático com os novos sogros (Catherine Keener e Bradley Whitford), Chris mantém um sorriso no rosto enquanto desvia das piadas de cunho racial que são proferidas, mas que se mascaram atrás de um antigo tradicionalismo ao qual é visto como normal brincar com certos assuntos. No jantar precisa passar pela mesma provação ao ouvir do irmão (Caleb Landry Jones) de Rose que com a estrutura corporal que tem, deveria ter escolhido ser um lutador de MMA ao invés de fotógrafo, afinal, precisa usar melhor o corpo que tem. E no dia seguinte, com a chegada de um grupo de amigos dos Armitage, todos brancos, a convivência naquele meio se torna insuportável para Chris, em especial após um incidente com um dos convidados e ele planeja ir embora naquela mesma noite. Todavia, não sai exatamente como o que esperava.

Peele escreve com certa maestria e, óbvio, conhecimento de causa, sobre o racismo institucionalizado do qual temos ouvido muito se falar ultimamente, mas que poucas pessoas sabem exatamente do que se trata. Ao colocar seu personagem principal, um rapaz negro, jovem, inteligente, de origem humilde (ao que parece) dentro de um círculo social apenas com pessoas brancas, consegue ilustrar com diálogos diretos o quanto esse tipo de racismo ainda é presente e surge nas conversas disfarçado de elogio ao transformar os negros em um objeto de desejo a ser alcançado por esse grupo de pessoas brancas. Eles deixam de ser indivíduos pensantes, com vidas próprias, personalidade e direitos para se tornarem meros objetos, marionetes nas mãos de pessoas mais abastadas e com poder.

Entretanto, o diretor vai um pouco além e pinta outro retrato, de como alguns negros lidam com outros negros e essa descrença e suspeita entre eles. Com a figura de Rod (LilRel Howery), o melhor amigo de Chris, Peele introduz o clássico personagem do negro bem humorado e sarcástico que vemos em tantos outros filmes. Aqui, Rod é descreditado num momento crítico da história ao lidar com uma policial negra apenas por usar da sinceridade e seus conhecimentos profissionais ao relatar um fato. A policial não faz nenhuma pergunta a ele sobre o que está reportando, não demonstra qualquer interesse e se limita apenas a contradizer o testemunho de Rod chamando até os colegas para zombar do rapaz.

Bem provável que a única fraqueza de Corra! se encontre na sua construção enquanto filme de suspense. Apesar de existir um certo mistério ao redor da família Armitage e dos demais convidados presentes, além das cenas de hipnose que nos deixam angustiados, a revelação do segredo e o desfecho do mesmo ocorrem de forma rápida demais o que prejudica a evolução consistente do enredo, porém, não é algo que chega a prejudicar o filme em si.

Corra! deixa algumas questões em aberto, mas entrega um final que garante que o espectador sair da sala de cinema com um sentimento de satisfação. Sem contar um pouco de aprendizado também.