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“Dia de Trabalho Mortal” e o absurdo como forma de reflexão

“Dia de Trabalho Mortal” e o absurdo como forma de reflexão

Se tem um nome que popularizou nos últimos anos é o do diretor James Gunn. Desde sua estreia global com Guardiões da Galáxia, os fãs passaram a prestar atenção em seus trabalhos e The Belko Experiment (Dia de Trabalho Mortal) finalmente chega aos serviços de televisão a cabo.

O longa tem roteiro assinado por Gunn mas foi dirigido por Greg McLean. A premissa é simples: os funcionários da empresa Belko são trancados no prédio até que atendam algumas demandas. Caso não cumpram com o que foi pedido, um determinado número de pessoas vai morrer.

A princípio tudo não passa de um teste de segurança com enormes portas de metal cobrindo todas as saídas. Mas, ao passo que a cabeça das pessoas começa a explodir, o caos reina. Grupos são feitos, alianças formadas e cada qual se preocupa com a própria sobrevivência ao invés de se questionar quem estaria por trás de tudo.

Dia de Trabalho Mortal aposta no absurdo para levantar algumas questões pertinentes. A primeira delas seria o custo da sobrevivência de cada indivíduo. Algo que nos é familiar de outros filmes e séries e até mesmo reality shows. Onde o confinamento, seja num local físico ou devido a uma situação ímpar, expõe as pessoas ao ser melhor e pior lado. Grupos são feitos, alianças formadas e vira cada um por si. E nem sempre a lei do mais forte é a que prevalece. Em alguns casos, sobrevive quem é mais esperto ou que possui mais habilidades.

Tais divisões são nítidas neste filme onde as pessoas se dividem de duas maneiras: ocasional ou hierárquica. Seja porque estavam todas presas numa mesma sala durante o caos, por trabalharem no mesmo setor, por interesses em comum ou apenas seguindo a linha de comando. Sendo que em situações como essa, algumas convenções sociais são atiradas pela janela mais próxima.

O personagem principal Mike (John Gallagher Jr.) é o questionador, aquele que não se conforma com a situação e acima de tudo quer entender o que está acontecendo e as razões. Enquanto seus colegas querem apenas que tudo acabe e rápido. Não importa a maneira que isso aconteça. E aí entra a segunda questão que Dia de Trabalho Mortal levanta: o mundo corporativo.

Para entrar na empresa – como é visto logo no começo do filme com a personagem da Daniele (Melonie Diaz) – os funcionários são submetidos a um rigoroso processo que consiste até na aplicação de um chip na base do crânio (estilo Esquadrão Suicida). Só que em momento algum os funcionários parecem se preocupar com essa demanda. Para eles é normal que uma empresa desse porte esteja preocupada com a segurança deles. Contanto que eles possuam um emprego, tal exigência parece aceitável. Será mesmo?

E é Mike quem começa a fazer as perguntas que os outros não querem. É ele quem questiona o propósito daquilo tudo e tenta encontrar uma maneira de que a grande maioria sobreviva. Só que outros não querem saber e estão mais do que satisfeitos em acatar as demandas. Principalmente Barry que é o personagem de Tony Godwyn que pretende se manter no posto de chefe. Ele e Mike começam a discutir estratégias o que acaba separando os funcionários em grupos.

Os do lado de Barry não se importam de matar os colegas para seguir com o jogo. Já os do lado do Mike procuram outras alternativas a fim de acabar com a loucura. Só que não há garantias para ambos os lados. Tampouco podem saber se acatando as ordens ou não tudo vai encerrar ou mesmo piorar. Na verdade, cria-se uma zona de guerra entre os funcionários e a situação piora a cada nova exigência onde o número de corpos só aumenta.

Assim levanta-se a terceira questão do longa: ir pelo caminho mais fácil ou pelo mais difícil? Mas, até que ponto o que parece mais fácil de fato é? E até que ponto alguém iria para sobreviver?

Traduzir o título do filme para outro completamente diferente do original atrapalha entender do que se trata. Mesmo com cenas bem violentas e sangue jorrando para todos os lados, o intuito aqui é de mostrar até onde as pessoas estão dispostas a ir para provar um experimento e conseguir respostas. O que deixa claro que esses funcionários foram selecionados a dedo para estar neste experimento. Cada qual com a sua personalidade é o que contribui para delinear a proposta do longa.

The Belko Experiment é mais sobre relações humanas, experimentos sociais e aprender a lidar com adversidade do que um outro Jogos Mortais sangrento, como o título nacional quer induzir.

Ficha Técnica
Diretor: Greg McLean
Roteiro: James Gunn
Elenco: John Gallagher Jr., Tony Goldwyn, Adria Arjona, John C. McGuinley, Melonie Diaz, Owain Yeoman, Sean Gunn, Brent Sexton, Josh Brener, Michael Rooker, David Dastmalchian, Gregg Henry, David Del Rio
Duração: 1h29