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“Disque Amiga Para Matar” vai além de uma ‘dramédia’

“Disque Amiga Para Matar” vai além de uma ‘dramédia’

Apresentada inicialmente como uma dramédiaDisque Amiga Para Matar vai muito além disso. A série assinada por Liz Feldman, também conhecida por seu trabalho em 2 Broke Girls, nos brinda com tensão e suspense na medida certa e ganha ares de um verdadeiro thriller sem se perder em sua proposta inicial.

O enredo apresenta duas mulheres com personalidades contrastantes que no desenrolar da trama se tornam melhores amigas. De um lado temos Jean (Christina Applegate), uma viúva, que acaba de perder o marido de forma trágica, mãe de dois garotos e que lida com o luto através da raiva. Do outro temos Judy (Linda Cardellini), uma otimista convicta com tendências excêntricas que guarda um chocante segredo que tem o potencial de mudar a vida das duas. Com um humor ácido e subversivo que definitivamente não é para qualquer um, a série se distancia da jocosidade escancarada típica de sitcoms americanos. O caminho escolhido por Disque Amiga Para Matar é mais sutil e ainda assim rende bons momentos.

A trama se inicia com o encontro das personagens em um grupo de apoio. E a partir daí o que temos são situações que mostram as mais variadas maneiras de se suportar a dor. Algo que o roteiro mescla humor e drama pertinentes ao momento. São em transições como essas que somos brindados com as atuações de Applegate e Cardellini.

A dupla que encabeça o elenco, apresenta performances inspiradas ao percorrerem todas as nuances da comédia ao drama. Contando com perfis bem construídos, o desenvolvimento das protagonistas é envolvente a ponto de cativar o público facilmente e mesmo quando o roteiro as insere em situações que poderiam afastar tal simpatia, as resoluções apresentadas são críveis. O que termina redimindo de maneira orgânica tanto Jean com seus acessos de raiva, quanto Judy com sua moral dúbia.

Outro ponto alto que vale ser destacado é a evolução da amizade entre as personagens centrais. Aqui temos uma retratação de amizade entre mulheres como poucas vista na atualidade, em que o desenvolvimento ocorre genuinamente. Logo no dois episódios iniciais temos exemplos claros disso, com a desconfiança natural de Jean ao deixar mais alguém entrar em sua vida e com a disponibilidade de Judy para ultrapassar isso. Elas têm um embate necessário e determinante para sua relação que graças a empatia gerada, torna impossível a escolha de um lado.

Tendo episódios com duração de 30 minutos, o ritmo inicial de Disque Amiga Para Matar parece ser lento. Mas isso é intencional. Além de poder ser facilmente justificado para que haja um estabelecimento de suas protagonistas e o envolvimento do público com os dramas de cada uma. Assim, posteriormente, quando o enredo avança, trazendo personagens secundários, deixando a síntese de dramédia à parte, as reviravoltas proporcionadas deixam toda atmosfera mais tensa, passando a ideia de que a qualquer instante ocorrerá uma grande revelação.

O roteiro se mostra bem estruturado ao realizar tais viradas. Em nenhum momento se tem a impressão de algo apressado, tudo isso se deve ao ritmo estabelecido inicialmente. E mesmo com o uso de certos tipos de recursos que poderiam quebrar o andamento da trama, sua estruturação não permite que isso ocorra.

A busca de Jean por respostas acerca do acidente que lhe tirou o marido ainda abre espaço para reflexão sobre os tipos de perdas que sofremos ao longo da vida. E das reações desencadeadas pelas mesmas. Inclusive, sua raiva que é sinalizada como descabida muita das vezes, se torna totalmente pertinente a medida que vamos nos familiarizando com a história. Até mesmo sua obsessão na busca pelo culpado se torna justificável. Outros sentimentos como culpa e arrependimento e os limites que eles nos levam, também são levantados. Tudo isso é abordado de maneira honesta e crua. Expondo toques de um humor obscuro, mas sem soar apelativo.

A temporada de Disque Amiga Para Matar termina respondendo suas questões principais. Porém, ainda ainda possui fôlego para o caso de uma possível renovação sem a pretensão de ser uma nova Big Little Lies.

Ficha Técnica
Criador: Liz Feldman
Roteiro: Liz Feldman,Kelly Hutchinson, Abe Sylvia, Rebecca Addelman, Njeri Brown, Anthony King, Emma Rathbone, Kate Robin
Elenco: Christina Applegate, Linda Cardellini, James Marsden, Max Jenkins, Sam McCarthy, Luke Roessler, Brandon Scott, Diana Maria Riva, Keong Sim, Edward Asner,Valerie Mahaffey, Telma Hopkins, Haley Sims, Edward Fordham Jr, Suzy  Nakamura, Chelsea Spack, Blair Beeken, Marcus Brown, Lily Knight, Rick Holmes, Beth Littleford, Owen Robinson, Ericka Kreutz, Gloria Calderon Kellett, David Douglas, Tara Karsian, Lynn Andrews, June Carryl, Amir M. Korangy, Louisa Abernathy, Adora Soleil Bricher, Soledad St. Hilaire, Eve Sigall, Pamela Drake Wilson
Duração: 10 episódios
Serviço: Netflix