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Em “Jessica Jones” – 2ª temporada o vilão é o passado

Em “Jessica Jones” – 2ª temporada o vilão é o passado

Quase 3 anos do lançamento da primeira temporada, Jessica Jones retorna sem um vilão físico, mas com outro adversário bem mais complicado: os fantasmas do passado.

Se tratando de uma personagem pouco conhecida do grande público, a ideia de apresentar um vilão de peso logo na primeira temporada foi uma decisão esperta por parte dos criadores da série. Ainda mais se tratando da escalação de David Tennant que é bem quisto pelo público por ter participado de produções famosas como Doctor Who e Harry Potter.

Com isso, a protagonista vivida por Krysten Ritter teve que “brigar” por seu espaço em cena, enquanto lidava com assuntos pesados como relacionamento abusivo, estupro e TEPT. Algo que permeou a primeira temporada inteira, tendo em vista que era a existência do Killgrave que motivava a personagem a continuar em frente com sua missão. E mesmo com outros personagens como Trish, Jerri, Simpson e Malcolm, a primeira temporada de Jessica Jones girou em torno dela e do Killgrave e as consequências atrelada aos dois.

O sucesso da participação de Tennant foi tanto, sendo colocado como um dos melhores vilões lado a lado com o Kingpin de Vincent D’Onofrio, que os fãs questionaram o que viria a seguir para a vida conturbada de Jessica Jones. E não temos outro vilão físico, mas algo bem mais complicado e perigoso e que afeta não apenas a protagonista, mas sim todos os personagens da série. Dessa forma a temporada ganhou relevância e os seus personagens – todos eles – tiveram cada qual um espaço para evoluir dentro da trama. Em especial Krysten Ritter.

Sem ter outro ator para ofuscar sua atuação ou dividir o carisma com o público, Ritter consegue se destacar e mostrar um lado da Jessica que não tínhamos visto até o momento. Sua pose de durona dá lugar a uma faceta mais vulnerável e que quer muito ser aceita. Ser amada. Mas devido a alguns acontecimentos, prefere manter certa distância das pessoas. O que contribui para a construção do passado da personagem e como ela se tornou o que é agora. Incluindo a famosa jaqueta de couro preta, os coturnos e o nome da sua firma. Conforme os episódios vão passando e o espectador descobre mais sobre os experimentos feitos com ela, o retrato que se pinta é de alguém perdida dentro do próprio corpo. Sabemos que ela nunca quis os superpoderes, pois os conecta ao que aconteceu à sua família – nos apresentando assim seu principal fantasma.

Embora pareça ter lidado bem com a situação, na verdade, ela apenas a enterrou. Pensou que ao deixar para lá, tudo iria melhorar, mas não foi o que aconteceu. E é Trish (Rachael Taylor) quem desenterra essa história e obriga Jessica a enfrentar o passado. Não por uma questão altruísta, e sim porque esse é o novo vício da locutora: desmascarar todos os envolvidos com a IGH e alavancar seu índice de audiência. O que acaba transformando-a numa pessoa bem diferente daquela que vimos na primeira temporada e que estava ali ao lado da Jessica para qualquer coisa. Agora, ela está mais preocupada com a própria carreira e não vai medir esforços para atingir os seus objetivos.

Chega a ser engraçado a virada no relacionamento entre as duas irmãs. A forma como suas personalidades mudam a partir de um acontecimento em comum. Enquanto Jessica começa a ter uma visão mais ampla da situação, quem vai atingir, quais as consequências gerais e afins, Trish está pensando apenas nela. Tem lá suas razões, é compreensível, porém, foi uma virada tão drástica que pode pegar os espectadores desprevenidos. Causar até um pouco de raiva.

Não foi apenas Trish que teve seu lugar ao Sol. Sem um vilão fixo, outros personagens como Jerri (Carrie-Anne Moss) e Malcolm (Eka Darville) ganharam sua própria linha narrativa o que só acrescentou nessa temporada. Ambos evoluíram bastante onde Jerri possui um arco mais humano, fazendo-nos importar com ela e sua vida. O mesmo para Malcolm que demonstra toda a sua gratidão para com a Jessica e aguenta as bordoadas até quando possível. Mas ninguém nasce para saco de pancadas, certo? Uma hora a pessoa cansa.

A segunda temporada de Jessica Jones flui de modo linear, sem apresentar desgaste na trama ou barriga. O ritmo é mais lento do que as demais séries desse universo, mas é preciso levar em consideração que há um foco maior em cima dos personagens e de seus passados. Em apresentá-los propriamente. Desenhando como isso os afeta e a forma que escolhem lidar com questões diversas. Por isso é visível a evolução de todos eles, mas principalmente da Jessica enquanto protagonista. Ela se destaca como deveria ser. Deixando de lado essa postura tão taciturna e fechada, se abrindo aos poucos para o mundo e indo além das paredes do seu apartamento/escritório.

E tudo isso deve-se ao fato dessa temporada não ter um vilão. De fugir do lugar comum em séries do gênero. Pois isso tornou os personagens mais humanos, mesmo aqueles com habilidades, os trouxe para mais perto de nós. Afinal, estamos todos passíveis ao erro, sem respostas rápidas e nem sempre com um final feliz. Por que com eles seria diferente?

Ficha Técnica
Criadora: Melissa Rosenberg 
Elenco: Krysten Ritter, Rachael Taylor, Eka Darville, Carrie-Anne Moss, Janet McTeer, David Tennant, J.R. Ramirez, Will Traval, Leah Gibson, Rebecca De Mornay, Terry Chen, Callum Keith Rennie, Hal Ozsan, John Ventimiglia, Kevin Chacon, Lisa Tharps 
Duração: 13 episódios de aprox. 56 minutos cada.