Share
Em “The Boys” o heroísmo custa caro

Em “The Boys” o heroísmo custa caro

The Boys é a nova série da Amazon Prime oriunda da controversa HQ de Garth Ennis. A série mergulha no mundo dos heróis de uma maneira bem diferente. Ao invés de vermos o clássico caso do bem contra o mal, somos apresentados a outros contextos. Quem paga pelo traje do herói? O que acontece se ele derrubar um prédio? Machucar um inocente? Falhar numa missão? Essas e tantas outras perguntas são respondidas de forma inusitada na primeira temporada de The Boys.

Quando criou sua controversa HQ lá em 2006, Garth Ennis tinha um projeto claro em mente. Deturpar por completo o gênero super herói ao propor um viés corporativista, extremamente violenta e sexual. O leitor acompanha os membros da equipe The Boys formada por Butcher, M.M (Mother’s Milk ou Leite Materno), Frenchie, Female e Hughie que caçam supes (abreviação para super heróis) a fim de revelar ao mundo a verdade por trás desses seres cultuados. A questão é que cada um deles tem sua motivação própria para estar no grupo, em especial Butcher. Ele quer saber o que aconteceu a sua esposa e para isso reúne essa equipe. Hughie é o último a se juntar a eles depois que sua namorada é morta acidentalmente por um supe. Na série essa configuração ocorre de uma outra maneira e diria que até mais dinâmica.

The Boys

De cara o espectador conhece Hughie um jovem vendedor que está fazendo planos de ir morar com a namorada Robin. Esses planos são interrompidos quando ela é pulverizada pelo A-Train, famoso velocista dos Sete. Bastante atordoado vai aceitar a ajuda de Billy Butcher para fazer com que A-Train pague pelo crime. E isso é apenas o começo da história.

HERÓIS COMO MERCADORIA

The Boys mostra o que acontece por detrás da cortina do grande show. Num mundo em que não existem vilões, o capitalismo é o grande culpado. Mesmo tendo centenas de milhares de super heróis ao redor do mundo, apenas aqueles que fazem parte do ‘catálogo’ da Vought são os que importam. Se você não for um dos Sete, está fadado a ingressar equipes menores, desconhecidas e, logo, sem muito prestígio.

Basicamente a imagem do herói é muito mais importante do que ele pode fazer pela humanidade. Os episódios discutem termos técnicos, comumente utilizados por equipes de marketing, para avaliar o desempenho dos heróis. Quanto maior seus pontos de share, mais cotado você está para fazer aparições públicas e/ou fechar acordos comerciais. Mas, só isso não é o suficiente para Madelyn Stillwell, a vice-presidente da empresa, uma mulher movida pela fome de poder.

The Boys - Madelyn

Madelyn faz questão de que todos estejam cientes da sua posição e do que ela é capaz de fazer para conseguir o que quer. Dessa forma, os membros dos Sete sabem exatamente quais seus papéis. Cada qual preenche um rótulo e cabe a novata Starlight o mesmo. Só que com a vice-presidente não tem muito diálogo: faça o que ela manda ou está fora da equipe. E estar fora dos Sete significa perder tudo aquilo mencionado anteriormente.

Nesse quesito o heroísmo fica em segundo plano sendo mais importante discursos e aparições públicas do que impedir crimes do dia a dia. Se não tem câmera, se não for arquitetado com a equipe, não vale.

REPUTAÇÃO É MOEDA DE TROCA

Logo, com a imagem do herói valendo mais do que suas habilidades, a reputação se torna moeda de troca. O que é bastante utilizado por Butcher e os membros do The Boys. Já que os supe não querem ter suas reputações manchadas, aceitam a chantagem imposta. Assim eles vão reunindo as informações necessárias para derrubar a corporação Vought. Só que a teoria é mais simples do que a prática.

Um quer se dar bem por cima do outro, o que acaba gerando mais e mais situações complicadas e problemas que não tinham como serem previstos de antemão.

The Boys - Deep Homelander

Por se tratar de uma grande corporação, com inúmeros contatos, nenhum órgão federal quer se envolver. Mesmo que isso signifique impedir a entrada dos super nas forças armadas. Resta a Butcher, Hughie, M.M e Frenchie lidarem com eles sozinhos.

AS MOTIVAÇÕES DOS PERSONAGENS

The Boys possui muitos personagens relevantes e procura dividir o tempo de tela de cada um de maneira que evoluam ao longo da temporada. Entretanto, alguns tem mais destaque como Hughie, Butcher e Homelander.

Hughie tem uma evolução bem clara indo do jovem medroso, que duvida da própria capacidade, para aquele que não tem mais tanto medo de se arriscar. Nesse ponto tanto o seu relacionamento com Butcher quanto Annie ajudam nessa evolução. Ele tem um tutor mas continua tendo pensamento crítico e avaliando a situação de forma a ajudar a todos e não somente que mais lhe beneficia. O que o difere bastante dos outros dois.

The Boys - Hughie e Annie

A equipe só existe por conta da tenacidade de Butcher em descobrir o que de fato aconteceu com sua esposa oito anos atrás. Ele sabe que Homelander está envolvido e que provável a Vought também esteja. O que significa que não vai medir esforços ou obstáculos para ter a sua vingança, mesmo que os amigos de equipe fiquem no caminho. Tais atitudes marcam uma certa polaridade do personagem que é muito inerente a sua contraparte nos quadrinhos. Ele tem um objetivo e não vai parar até concretizá-lo. Muito parecido com o Homelander.

O líder dos Sete é um personagem enigmático e que vai mostrando sua verdadeira personalidade a cada episódio. Aos poucos vemos como a sua conturbada e controversa relação com Madelyn interfere nas suas atitudes. Vai de líder carismático a paranoico num piscar de olhos. Lhe dando assim um desenvolvimento significativo e que surpreende até o último segundo.

UMA SÁTIRA DO GÊNERO

The Boys é uma sátira ao universo padronizado dos super heróis que segue uma cartilha de herói, vilão, salvar o mundo, repete. Os criadores extraíram o melhor do quadrinho e transpuseram para o show. Tem todas as referências a vida útil do herói, encontros nas convenções, revistas em quadrinhos, aceitação do público, brinquedos, roupas, mas nada disso reflete de fato quem eles são.

The Boys - Black Void

O conceito da série é justamente quebrar esse paradigma e expor outras questões pertinentes ao gênero. Em especial quando fala de rótulos e da indústria capitalista. Afinal, se dizem que é o dinheiro que move o mundo, porque não iria movimentar também o mundo dos super heróis? A grande sacada está na forma como os heróis respondem a isso e como as corporações os utilizam em benefício próprio. E nessa equipe que vai tentar de tudo para desmascarar esses “heróis”.

CONCLUSÃO

The Boys entrega em 8 episódios uma síntese do que é a história criada por Garth Ennis. Diminuíram as cenas gratuitas de sexo, que em nada agregaria à trama, e focaram mais na história e nas motivações dos personagens. A violência e o gore continuam intactos o que deve agradar ao público e também os conhecedores da história.

Houve mudanças pertinentes em certos personagens que só contribuiu para a trama como Frenchie, por exemplo. No quadrinho ele é um poeta louco bilíngue que não faz muito sentido. Em The Boys continua com suas habilidades, mas de forma inteligente e coesa e sem a sandice do quadrinho.

No mais, o show chega como um sopro para aliviar quem curte o gênero mas está cansado da massificação e quer algo diferente.

A 2ª temporada de The Boys já está em desenvolvimento, mas ainda não possui previsão de estreia.

FICHA TÉCNICA
Criadores: Eric Kripke, Evan Goldberg, Seth Rogen
Roteiro: Erik Kripke, Garth Ennis 
Elenco: Karl Urban, Jack Quaid, Antony Starr, Erin Moriarty, Dominique McElligott, Jessie T. Usher, Chace Crawford, Tomer Capon, Karen Fukuhara, Nathan Mitchell, Elisabeth Shue, Laz Alonso, Colby Minifie, Jennifer Esposito, Simon Pegg, Shaun Benson, Christian Keyes, Nneka Elliott, Ann Cusak, Jess Salgueiro
Duração: 8 episódios