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Existe filme ruim?

Existe filme ruim?

De início a resposta para essa questão é simples e direta: sim. Todavia, o contexto da resposta pode não ser exatamente aquela que você leitor espera.

Um filme pode ser considerado ruim, ainda que raramente tal palavra seja de fato utilizada em Hollywood, mais por razões técnicas do que por pontos emocionais, que são particulares de cada indivíduo. Mas, calma que a sua emoção também influencia na hora de determinar se um filme é ruim ou não. E pode até mudar o status de um.

TECNICALIDADES

Para começar uma produção cinematográfica é imbuída de conceitos técnicos para que se transforme no produto final. Assim como um time de futebol. Mesmo que vários torcedores clamem que o seu time do coração seja o melhor, de novo por razões pessoais, há uma forma de pontuar isso que é comparando as estatísticas deles.

Vou usar como exemplo o filme Moneyball. Aqui o gerente de uma equipe menor de baseball utilizou de conceitos matemáticos para montar a equipe perfeita. Mais do que a reputação de um jogador, foi atrás dos números de rebatidas, conquistas de base e outros. Não importava se aquele jogador não seria o primeiro escolhido no draft da temporada, se ele tivesse uma boa estatística de rebatidas, era um bom candidato.

No início acharam a ideia uma loucura. Como assim retirar a paixão do baseball e diminuí-lo a número e frações? Bem, a ideia funcionou, não para a equipe de Moneyball, mas sim para o Boston Red Sox. Na temporada seguinte fizeram uso dessa mesma equação e ganharam o campeonato depois de anos em jejum. Foi-se a Maldição do Bambino. Dá para conferir isso em Amor em Jogo.

Um filme de Hollywood também faz uso dessas matemáticas e equações, ainda que em menor escala. Por isso, para que uma produção seja considerada ruim deve apresentar um roteiro fraco, atuações risíveis, problemas na edição e montagem, sonoplastia ruim, trilha sonora que não combina, diretor inexperiente, etc. Todos esses pontos, estejam juntos ou separados, podem fazer com que um filme seja considerado ruim. E é a partir de um desses elementos que entra a emoção do espectador na hora de classificar o que acabou de ver.

Seja porque não gostou da atuação ou porque não se interessou pela história, no final, surge o famoso “não era o que esperava.” Quando na real, lá no fundo, um desses elementos incomodou o suficiente para que não tenha gostado do que viu, mas que por qualquer motivo não consegue por em palavras.

MARKETING

A equipe por trás de um filme também pode ser responsável por derrubá-lo. Muitas vezes um estúdio não acredita tanto numa produção e acaba liberando um orçamento menor para que seja divulgado. O que torna a logística muito simples: quanto menos pessoas souberem do lançamento, menos vão se interessar em ver e menos ainda vão comentar com outras pessoas para assistir.

Óbvio que o contrário também ocorre, quando um filme surpreende. Mas aí é provável que já tenha passado o tempo do mesmo em cartaz e resta a pessoa esperar uma oportunidade para assistir.

Um outro ponto também é o marketing desfavorável. Quando o material divulgado e até mesmo os trailers enganam o espectador. Ou o fazem acreditar que ele vai ver uma coisa e quando chega na hora é outro filme. Bem diferente do esperado, que pode ter nada a ver com o trailer ou pior, todas as cenas importantes já foram vistas. Não deixando nada para o espectador no quesito novidade.

Isso aconteceu recentemente com Esquadrão Suicida. Nos trailers divulgados havia várias cenas com o Coringa e no corte final ele aparece só uns poucos minutos. Os fãs se sentiram desrespeitados e quase obrigados a adquirir o bluray e dvd do longa para poder conferir as cenas extras que ficaram de fora.

Nesse caso a frustração e o status de filme ruim acaba sendo culpa interna do estúdio, que transforma a produção numa ‘propaganda enganosa’.

BILHETERIA

Aqui o espectador tem mais poder. Ultimamente é a quantidade de ingressos vendidos (o famoso box office) que tem servido como fator para determinar o sucesso ou fracasso de um filme, e consequentemente se é bom ou ruim.

Em um caso mais recente, o boicote ao filme Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald prejudicou a bilheteria ao ponto do estúdio optar por atrasar o início da produção do filme seguinte. É óbvio que o motivo não foi confirmado oficialmente, afinal, a Warner Bros. Pictures jamais admitiria isso. Contudo, quem tem acompanhado o caso sabe que é bem possível e provável que seja verdade. Muitos fãs promoveram campanhas contra o filme por conta da escalação do ator Johnny Depp.

A bilheteria não atingiu o esperado pelo estúdio e não alcançou nem o orçamento gasto com o filme. O que em termos mercadológicos é considerado um fracasso, quando a bilheteria é inferior ao valor gasto no total da produção. Em termos leigos, o filme não conseguiu ‘se pagar’ como era o esperado. Outro ponto significativo que pode levar um filme a ser considerado ruim. Porque se não dá lucro ao estúdio, o passo seguinte é cancelar. O que aconteceu com a saga Divergente que foi tendo um desempenho cada vez pior de bilheteria, além dos erros de produção, fazendo com que o espectador nunca assista ao final da jornada de Tris, Quatro e companhia.

Por outro lado, é também o público o responsável por levantar um filme. Se não fosse assim, nem Pantera Negra e nem Aquaman teriam conseguido o marco de 1 bilhão de dólares em bilheteria. O mérito desse feito é inteiramente do público.

TEMPO

O senhor de toda razão. Aqui a situação funciona para os dois lados. Muitos filmes que foram apontados como ruins, acabaram ganhando status de cult com o passar dos anos. E muitos filmes que foram elogiados, acabaram envelhecendo mal e caindo no esquecimento.

Um caso bem clássico é o do cultuado Blade Runner de 1982. Na época do seu lançamento tanto as críticas do filme, quanto a opinião do público eram negativas. Foi mal na bilheteria e só começou a ser tido como cult após o lançamento em fita e posteriormente do dvd com versão do diretor e similares. Logo, algo que foi considerado ruim acabou sendo visto como bom com o passar do tempo e assim ganhou o público e seu status.

Agora, a razão a qual os críticos e público da época não souberam apreciar a obra, fica a dúvida.

CRÍTICOS

Chegamos ao último ponto desse texto e um bastante comentado: a opinião dos especialistas. A bem da verdade, nem todos são de fato especialistas, mas isso já foi abordado em outro texto.

Alguns críticos parecem deixar de lado a visão profissional para utilizar da pessoal na hora de avaliar um filme. Ao invés de mostrar os erros e o que deveria ser feito para melhorar a película, se contentam em usar frases rebuscadas e pomposas para analisar um título. Pegam exemplos de outras produções e fazem comparações e mais comparações sem chegar a lugar nenhum. E mais, caçoam do público, seus leitores, caso os comentários sejam contrários à opinião do mesmo.

Tem memória curta e esquecem que o filme, por mais que seja o nosso meio de trabalho, foi criado para a grande massa. Afinal, cinema é entretenimento e esse deve ser o principal argumento em um filme. Dentro dessa premissa, aí sim existem outras morais, ensinamentos, mensagens e afins que devem ser captados tanto pelo crítico quanto pelo espectador.

Mas há também quem siga a opinião dos críticos cegamente ao invés de desenvolver a própria. O que acaba transformando um filme potencialmente bom em ruim através de um boca a boca sem embasamento. O contrário pode ocorrer também e os críticos falarem tão mal de um título que desperta a curiosidade do público para saber se é mesmo esse fracasso todo.

No final, aqui está uma relação conturbada desde sempre.

CONCLUSÃO

Então, o que tirar de tudo isso? Existe mesmo filme ruim? Ou isso vai muito de pessoa para pessoa?

Como vimos acima a resposta continua sendo sim, mas não dentro do contexto esperado. O ‘ruim’ acaba sendo algo muito mais subjetivo e menos qualificado na hora de descrever um filme. Um longa pode ter falhas, erros, deslizes, até porque desconheço filmes completamente perfeitos. Existem obras-primas, isso não dá para negar. Todavia, filmes perfeitos são difíceis de existir.

Portanto, bom ou ruim é algo inteiramente pessoal como dias quentes ou frios, cada qual com a sua preferência. Agora, quando estamos falando de um filme, uma produção que levou meses e meses para ser feita, que emprega centenas de pessoas, é necessário levar em consideração uma série de fatores antes de pensar em classificar como bom ou ruim. Devemos mais ao cinema e ao que nos proporciona diariamente e por tantos anos.