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A explicação do destino de Audrey na terceira temporada de “Twin Peaks”!

A explicação do destino de Audrey na terceira temporada de “Twin Peaks”!

Twin Peaks, série criada e produzida por David Lynch e Mark Frost, estreou em abril de 1990 e parecia ter chegado ao final no seu segundo ano em junho de 1991. Após, veio o filme Fire Walk With Me em 1992 que funciona como um prequel da série e, em 2017, uma terceira temporada foi ao ar, com produção da Netflix, prometendo continuar do bizarro final da segunda temporada há 26 anos. O seriado é, na verdade, uma grande sátira ao formato dos seriados americanos de “mistério/assassinato na cidade pequena” com um humor sutil.

David Lynch tem um estilo próprio em seus trabalhos, muitas vezes flertando com o fantástico e o bizarro, e isso inclui os cenários, o enredo e os personagens. Inserida neste universo, uma das personagens mais interessantes no começo da primeira temporada é a Audrey Horne, (interpretada pela atriz Sherilyn Fenn) uma menina de família rica, entediada e estranha. Em suas primeiras cenas, ela derruba café de propósito na mesa de uma secretária do hotel apenas por achar aquilo engraçado, e logo depois, interrompe uma conferência de estrangeiros para dizer que encontraram sua amiga morta na praia e se divertir com o espanto dos presentes. Seu momento mais marcante é a famosa dança no RR Diner, ao som da trilha noir composta por Angelo Badalamenti, em que ela interrompe uma conversa trivial e se deixa levar pela música, quase que como num transe hipnótico. Esse comportamento estranho, que tem tudo a ver com a série, infelizmente, já se perde na primeira temporada em prol de uma sexualização da personagem e a redução de sua complexidade a apenas uma menina apaixonada pelo protagonista.

A dança da Audrey

Há que se contextualizar o seriado que foi ao ar no início da década de 90, pouco mais de 20 anos distante da retomada das discussões feministas atuais, quando era bem mais comum a exposição do corpo feminino sem nenhum viés artístico, apenas apelativo mesmo. Não é difícil concluir que essa “estratégia” de explorar a beleza das atrizes para alavancar a audiência tenha vindo dos produtores (David Lynch era um deles) e do canal ABC.

A citada “estratégia” pode ser identificada em momentos da segunda temporada, como o arco da Audrey no bordel, que simplesmente não fez muito sentido a não ser mostrar a atriz em roupas mínimas, bem como o arco do concurso Miss Twin Peaks envolvendo a exibição de todas as jovens atrizes do seriado, o que também não colabora em nada com a trama.

Miss Twin Peaks

Por falar em Miss Twin Peaks, esta parte do seriado resultou em um desentendimento da atriz com os produtores por conta de uma cena em que ela faria a famosa “dança da Audrey” no palco do concurso de beleza. A atriz descreveu que a cena em questão era sexista e se recusou a fazê-la, dando a entender que não seria uma simples dança, mas envolvia a exposição apelativa do seu corpo. Ela gravou apenas uma breve participação na cena do concurso em que a personagem lê um discurso ambientalista, necessário ao desenvolvimento da trama. Uma solução simples, portanto, que não trouxe prejuízos ao enredo já confuso àquela altura.

Gordon Cole (David Lynch) e Shelly Johnson (Madchen Amick)

Assim como toda denúncia, revolta e queixa que uma mulher faz em relação às atitudes consideradas machistas, provavelmente muitos vão entender a atitude da atriz como “uma bobagem”, “uma frescura”, ou “estrelismo”, mas é preciso analisar que, antes disso, foi ao ar um dos momentos mais despropositados de todo o seriado, ocorrido num dos últimos episódios da segunda temporada (temporada ruim mesmo!), que ajuda a entender melhor o tratamento dado ao elenco feminino. O momento em questão ocorre no episódio 19 da referida temporada em que o personagem Agente Gordon Cole. (interpretado pelo próprio David Lynch) beija a personagem Shelly Johnson (interpretada pela atriz Mädchen Amick) por um motivo besta, mal escrito e sem o menor sentido de ser. A cena, sem relevância alguma para a trama, deixa claro que David Lynch usou sua influência e seu personagem apenas para beijar a atriz.

O fato é que a retaliação contra a atriz Sherilyn Fenn e, consequentemente, à sua personagem ficou evidente em seu último arco na segunda temporada, envolvendo uma cena de “desobediência civil” da Audrey e uma explosão que supostamente mata ela. Sim, “explodiram” a atriz pra fora do seriado. Talvez tentando garantir que ela não retornasse para uma possível próxima temporada, ou apenas para satisfazer a raiva de homens produtores de TV que não conseguiram obrigá-la a dançar sensualmente para alavancar a audiência.

Mais de 25 anos depois, a terceira temporada estreia na Netflix, e o nome da Sherilyn Fenn está lá no elenco, apesar dos desentendimentos dela com os produtores terem se tornado público, inclusive no Twitter.

Em um breve resumo de sua participação, durante a terceira temporada, ficamos sabendo que a Audrey sobreviveu à explosão, permanecendo um tempo em estado de coma. Quando ela finalmente surge na trama, está em meio a uma cena de discussão, no mínimo curiosa, com seu marido (Charlie, interpretado pelo ator Clark Middleton). A conversa é a respeito de outro homem que ela diz estar apaixonada, mas está desaparecido. Ela pede ajuda ao próprio marido para encontrar seu amante. No meio da discussão, ele menciona o acordo de casamento que eles tem entre si, e joga na cara dela o quanto a ajudou financeiramente, dentre outros tipos de humilhações. Finalmente, eles resolvem que devem ir ao Roadhouse, o bar da cidade (o mesmo lugar onde aconteceu o Miss Twin Peaks). Lá, após um show, o mestre de cerimônias anuncia “a música da Audrey”, a música-tema da sua famosa dança. Ela se deixa levar e dança sozinha no meio da pista observada pelos demais frequentadores. De repente, tudo some e ela surge em um ambiente branco em frente a um pequeno espelho e grita de horror diante do seu próprio reflexo. Até o fim da temporada, não é dada nenhuma conclusão ou continuação ao arco da Audrey e ele fica solto na bizarra realidade de Twin Peaks.

A dança em 2017

Quem acompanha o seriado até aí, já não se surpreende mais com os arcos esquisitos, e até mais bizarros que os dos anos anteriores. Porém, o que surpreende de verdade não tem a ver com a história contada em si, mas a que ponto pode chegar a opressão de um diretor. Não fica difícil perceber, nas entrelinhas da fictícia discussão que a citação a “acordo”, “ajuda financeira” e traição, pretendiam atingir pessoalmente a atriz. Após, surge a cena no Roadhouse, com objetivo de fazê-la pagar a dança que ficou devendo na segunda temporada e, por fim, sugerir que ela devesse se assustar com a própria velhice no espelho.

Em tempos de denúncias contra diretores e produtores sobre abusos nos bastidores e dúvidas sobre o que é arte, há de se debater, talvez não tanto as obras de arte em si, mas a toxicidade que as rodeiam, representada tanto pelos seus próprios criadores, quanto pelo seu público. Infelizmente, Twin Peaks nasce sendo uma sátira aos antigos seriados e termina como um grande exemplo de mais um típico show de TV dos anos 90, com direito a sexismo para manter a audiência, tramas perdidas, e arrogância nos bastidores. Apesar de tudo, continua sendo uma das minhas séries preferidas, mas que poderia ter acabado no episódio 9 da segunda temporada, onde fecha um ciclo importante. A sensação que fica, é que a partir dali tudo desandou, com exceção do episódio 8 da temporada de 2017, que é uma obra-prima.

Quanto ao diretor/produtor, David Lynch é um excelente contador de histórias quando não está ocupado sendo machista. Já a Sherilyn Fenn tem 52 anos com o mesmo charme de 26 anos atrás, e sua indignação continua relevante.

Fontes:

https://www.davidlynch.es/en/noticias/julee-cruise-estalla-contra-lynch-nunca-volvere-a-trabajar-para-el-emperador/

http://www.washingtontimes.com/news/2016/dec/8/twin-peaks-actress-sherilyn-fenn-says-david-lynch-/

http://www.digitalspy.com/tv/twin-peaks/news/a811080/twin-peaks-sherilyn-fenn-hits-out-at-show-makers/

http://nerdist.com/twin-peaks-revisited-episode-29-miss-twin-peaks/

https://tv.avclub.com/sherilyn-fenn-talks-david-lynch-and-how-twin-peaks-shou-1798266317