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“Fahrenheit 451” falha como adaptação

“Fahrenheit 451” falha como adaptação

Adaptação de livros para filmes não é uma tarefa fácil. São poucos aqueles que conseguem obter êxito. Porém, a situação complica ainda mais quando muda-se a essência da história a fim de que encaixe melhor em determinada temática. E esse é um dos pontos falhos de Fahrenheit 451.

O longa que estreou na HBO é baseado no livro homônimo de Ray Bradbury publicado em 1953. Alguns anos depois da Segunda Guerra Mundial. De onde o autor retirou a ideia de queima de livros como base para contar a história de uma sociedade distópica que temia o livre pensamento. Aqui, tudo é ensinado pelo governo, o qual chamam de Ministério e é isso que é considerado como verdade. É do interesse deles que a sociedade se comporte de uma certa maneira e que possam controlá-la.

Porém, Guy Montag, que faz parte do corpo de bombeiros responsável por incinerar os livros, começa a discordar desse posicionamento. Na verdade, passa a desenvolver um senso crítico e inquisitivo sobre suas ações e a sociedade em que vive. Tudo o que o governo não quer. Isso acontece no livro.

A ADAPTAÇÃO

Já no filme Fahrenheit 451 a abordagem é bem diferente. Em especial a forma como uma história publicada em 1953 foi transportada para um futuro ultra tecnológico, deixando clara a crítica feita à internet e redes sociais.

No filme todas as ‘batidas’ feita pela unidade Salamandra é televisionada e o público avalia com emojis. Mestre Montag (Michael B. Jordan) e Capitão Beatty (Michael Shannon) tem status de celebridade. São vigiados constantemente e amam o que fazem. Sentem prazer em descobrir esconderijos de rebeldes, apagar suas identidades e queimar livros e qualquer hard drive. É só o que eles sabem fazer e a rotina não muda. Até Montag encontrar Clarisse (Sofia Boutella).

A garota serve como informante para Beatty a fim de ter sua ficha limpa e a identidade restaurada. E o capitão avisa ao pupilo que se aproximar dela só vai trazer-lhe problemas. Bem, acontece que Montag anda tendo sonhos com o pai e quer muito se recordar do que houve no passado. Mas graças ao colírio que pinga todos os dias, por imposição, não consegue. E é Clarisse que faz o alerta.

É aqui o ponto de virada do personagem. Onde vai tentar investigar até que ponto aquilo que lhe ensinaram é real ou fabricado em prol de uma agenda do Ministério.

A FALHA

A essência do livro escrito por Bradbury é a manipulação da informação e do livre pensamento. Ao queimar livros, de todos os gêneros, o governo passa a controlar a forma como a população consome informação. Provendo apenas o que consideram necessário e que após uma certa massificação torna-se real.

Como por exemplo, o fato de que bombeiros costumavam apagar fogo e não causá-los. Algo que em ambas as mídias é tida como falácia por parte dos rebeldes. Bombeiros sempre atearam fogo, desde que foram criados por Benjamin Franklin.

Embora visualmente Fahrenheit 451 seja um deleite para os olhos, por outro lado, há uma falha enorme por parte da construção dos personagens e como boa parte da trama está atrelada a eles. O filme possui uma quebra entre o primeiro e terceiro arco que prejudica a evolução do roteiro. Não há qualquer desenvolvimento do personagem de Beatty, deixando vago como ele sabe tantos trechos de livros e demais conhecimento que são considerados proibidos. A falta de diálogos entre Montag e Beatty também é um problema. Certas ações são ditas nas entrelinhas ou expressões e não parece o suficiente. E a parte essencial, que fala sobre liberdade de pensamento, a importância do conhecimento através da leitura, desenvolver um senso crítico e o controle por parte do governo nem entre em debate.

Por fim, parece que Ramin Bahrani deixou de lado a real essência de Fahrenheit 451 para focar nas mazelas das redes sociais e da internet. Algo que poderia fazer sem precisar usar o livro como fonte de adaptação. Mesmo com atuações impecáveis de Michael B. Jordan e Michael Shannon, o livro sai na frente.

Ficha Técnica
Diretor: Ramin Bahrani
Roteiro: Ramin Bahrani 
Elenco: Michael B. Jordan, Michael Shannon, Sofia Boutella, Cindy Katz, Mayko Nguyen, Dylan Taylor, Saad Siddiqui, Lilly Singh
Duração: 1h40min