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“A Forma da Água” é uma fábula sensual

“A Forma da Água” é uma fábula sensual

Desde o anúncio de A Forma da Água no Festival do Rio em 2017 não sabia bem o que esperar. Conheço o trabalho do Guillermo del Toro e toda a sua fascinação pelos monstros. Só não esperava ver o que vi e me surpreender com isso.

Com um trabalho de cenografia e figurino incrível, Guillermo nos transporta para o mundo de Elisa em meados da década de 60. A moça mora em cima de um cinema e tem como amigo seu vizinho, o designer Giles. Todos os dias ela mantém a mesma rotina ao acordar. Toma banho, cozinha ovos, conversa com o vizinho e se dirige ao trabalho. Elisa trabalha com limpeza numa instalação de pesquisas do governo. Lá ela passa boa parte do seu tempo com Zelda (Octavia Spencer), com quem divide o serviço. Toda essa descrição parece muito corriqueira não fosse o fato de Elisa ser muda.

Por conta de um acidente enquanto bebê, ela não consegue falar. Mas possui uma visão única do mundo e é isso que cativa o espectador, em especial quando ela encontra a tal criatura. Mesmo sem proferir uma palavra, conseguimos compreender muito bem seus sentimentos e intenções. Isso graças a atuação singular da atriz Sally Hawkins que com olhares e expressões faciais, além de um recurso de legenda, traduz o que quer a nós. Richard Jenkins também não fica muito atrás. É ele o responsável por parte dessa tradução e a interação entre os dois personagens em cena é espetacular.

Com isso fica fácil entender quais os desejos do diretor. Pois, logo no início, somos avisados que a história contada é sobre um monstro. Só que esse monstro pode não ser o que pensamos. Ou imaginamos. Aquele que habita nossos pesadelos. Mas sim alguém que não parece ser um. Por isso a personagem cativante de Hawkins é tão importante, afinal, quebra o paradigma em filmes com essa proposta. E sua dita deficiência não é um obstáculo. Nesse caso aqui, está mais para um trunfo, pois consegue despistar as pessoas que sentem pena dela. Como o monstro em questão, que é possível identificar desde o início. Não tem escamas. Nem vive na água. Usa terno e gravata e acredita ser superior a outras criaturas. E a escolha de Michael Shannon para o papel foi mais do que acertada. Sua expressão constante de asco leva o espectador a crer que acredita piamente no que fala e na sua posição. Tornando-o deveras limitado, mas não estúpido.

A Forma da Água pode ser descrita como uma fábula sensual e envolvente e que lembra um pouco o proposto em A Rosa Púrpura do Cairo. Só que com a larga diferença que Elisa é mais determinada do que Cecilia de Mia Farrow. Não tem medo das consequências, não hesita e nem tem dúvidas. Está tão certa de suas ações que torna impossível para o espectador não acreditar nela. Toda essa determinação nos faz grudar os olhos na tela.

Os filmes de Guillermo del Toro tem esse poder sobre o público. De nos fazer pensar fora da caixa. Embarcar com ele nessa fábula que mistura elementos dos filmes antigos, mas que tem todas as características de um filme del Toro. Afinal, só ele para nos fazer torcer pelo romance entre uma humana e um ser mítico. Porque no fim, todos temos direito a um final feliz.

Ficha Técnica
Diretor: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro
Elenco: Sally Hawnkins, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Shannon, Michael Stuhlbarg, Doug Jones, David Hewlett, Nick Searcy, Stewart Arnott, Nigel Bennett, Lauren Lee Smith, Martin Roach, Allegra Fulton, John Kapelos, Morgan Kelly 
Duração: 2h03min