Share
“Hebe – A Estrela do Brasil” é uma ‘gracinha’ de filme

“Hebe – A Estrela do Brasil” é uma ‘gracinha’ de filme

Nunca tive grande paixão pela figura de Hebe Camargo. Apesar disso, não nego o fato de que ela teve uma carreira extraordinária na televisão brasileira. Algo que todo fã da apresentadora diria é que Hebe era honesta e falava o que pensava. Nesse ponto, a cinebiografia Hebe – A Estrela do Brasil, procura mostrar que sua imagem vai além da “cafonice”, que muitos interpretavam. Por trás daquela estrela, havia uma mulher com inúmeras crises pessoais, mas que nunca abandonou seus princípios.

Aqui, a equipe do filme preferiu utilizar-se apenas de um recorte da trajetória de Hebe. Optam por priorizar o momento em que ela sai da TV Bandeirantes, nos anos 80 e vai para o SBT, contratada por Sílvio Santos (Daniel Boaventura). Lá ela tem a função de apresentar um programa comandado por ela mesmo. Os primórdios do formato talk show no Brasil. Tudo isso ao mesmo tempo em que surge inúmeros problemas na sua vida pessoal.

A atriz Andrea Beltrão interpreta Hebe. Aqui uma atriz famosa e bem humorada. Beltrão brilha, conseguindo incorporar a personagem de uma forma sobre-humana. Trabalha bem as expressões corporais, fala e a entonação. Sem contar na personalidade da apresentadora, que apesar de considerada forte, era simpática, inclusive atrás das câmeras. E esse seu lado “verdadeiro com o povo”, acabou gerando problemas com a censura federal, sendo bem retratado durante o longa.

Hebe – A Estrela do Brasil é corajoso ao mostrar um lado mais fraco de sua protagonista, visando também seus erros e desapontamentos. Vide a cena em que seu filho Marcello (Caio Horowicz), a questiona sobre apoiar Paulo Maluf, político ligado à Ditadura Militar, logo após defender o fim da corrupção e da censura. Outro ponto de fragilidade para a personagem é no seu casamento com Décio Capuano (Marco Ricca, impecável no papel). Ele possuía um ciúme exacerbado da esposa, perdendo até o respeito perante a ela e ao seu filho, em alguns momentos.

Um aspecto bastante martelado é a defesa que Hebe fazia com relação as classes menos favorecidas. Principalmente, nos momentos em que a apresentadora convidava a seu programa figuras evitadas em outros shows da televisão brasileira da época, como Roberta Close e Dercy Gonçalves. Nessa questão de defesa das minorias, rende-se um dos arcos mais emotivos da trama, envolvendo a protagonista e o seu cabeleireiro Carluxo (Ivo Müller).

Apesar desses acertos, a balança pesa quando falamos dos erros que prejudicam o filme. O terceiro ato, por exemplo, é resolvido de uma forma muito rápida. Em mais ou menos 15 minutos, mesmo com tantos arcos em aberto.  Sabíamos que a carreira de Hebe era gigantesca e de difícil condensação, entretanto, a falta de uma grande catarse, gera no público uma sensação de que poderia ser melhor. Outro detalhe técnico, que chama a atenção de forma negativa, é o uso do “tremor da câmera na mão”. Certos momentos, como quando a protagonista está alcoolizado, o efeito é bem aplicado. Por outro lado, é utilizado em demasia em pontos que não tem sentido, como nos bastidores de um programa de televisão.

Porém, nada disso, consegue estragar por completo o que Hebe – A Estrela do Brasil quis mostrar: uma bonita homenagem a uma das maiores apresentadoras da televisão brasileira. Apesar de conter erros, o filme é mais do que uma simples cinebiografia de Hebe Camargo, é uma celebração a liberdade e ao amor, duas marcas registradas da sua carreira.

FICHA TÉCNICA
Direção: Maurício Farias 
Roteiro: Carolina Kotscho
Elenco: Andrea Beltrão, Marco Rica, Rodrigo Arijon, Otávio Augusto, Renata Bastos, Daniel Boaventura, Gabriel Braga Nunes, Fernando Eiras, Valentina Herszage, Caio Horowicz, Danton Mello, Stella Miranda, Claudia Missura, Ivo Müller
Duração: 1h52min 
Estreia: 26 de setembro