Share
HQ: “Mulher-Maravilha Terra Um” de Grant Morrison

HQ: “Mulher-Maravilha Terra Um” de Grant Morrison

Quem é que não gosta de uma boa história de origem? Ainda mais se tratando da amazona mais famosa dos quadrinhos? Pensando que iria encontrar algo na mesma linha editorial apresentada atualmente pela DC Comics em Rebirth me senti enganada ao abrir o encadernado e me deparar com outra coisa.

>>>>>>>>>>>>>>>>>>INÍCIO DOS SPOILERS<<<<<<<<<<<<<<<<

A história criada por Grant Morrison é deveras interessante e muito bem construída, datando do momento em que Hipólita, futura mãe da Diana, decidiu se libertar das garras opressoras de Hércules e sua demais corja de homens e assim retirar as mulheres que eram subjugadas por eles, expulsando-os da ilha Paraíso. Milênios se passaram até que por fim vemos Diana adulta e bastante contestadora das inúmeras regras imposta por sua mãe, a então Rainha Hipólita em meio a um julgamento. A ela cabe um monte de deveres e direitos os quais não pediu e assim cria-se uma confusão na cabeça da Amazona que não sabe bem o papel que deve cumprir que não seja aquele imposto por sua mãe. E quando encontra destroços de uma aeronave na praia e o piloto Steve Trevor desorientado e ferido, vê a chance perfeita de provar que talvez o mundo dos homens não seja de todo ruim. O que obviamente vai contra as regras impostas da ilha Paraíso a qual nenhum homem deve pisar.

A partir daí vemos a empreitada de Diana no mundo dos homens e o que ela encontra por aqui é muita resistência e o oposto do que via na ilha. Seguindo os ensinamentos de sua mãe, ela age e fala como se fosse superior a todos os homens e tenta, em vão, abrir os olhos de algumas mulheres para tudo o que estão sofrendo. Porém, não fica muito tempo sozinha e acaba fazendo amizade com universitárias e membros de uma fraternidade depois de salvar o ônibus em que estavam de cair num penhasco. De volta ao julgamento temos Diana contando o que aconteceu desde que saiu da ilha levando o planador de Mahla e Steve Trevor de volta ao mundo dos homens e como tudo aquilo que sua mãe prega foi jogado no lixo quando ela mesma denunciou a existência de todas as amazonas e, consequentemente da ilha ao utilizar um espelho para vigiar o mundo que ela tanto condena.

O julgamento transita entre Diana ter quebrado uma regra para tentar descobrir o seu propósito de vida, tentar se libertar da sina que é ter sido criada a partir do nada para então colocar sua mãe para “depor” e descobrir que nunca veio do barro como sempre a fizeram acreditar, mas que veio de uma das sementes de Hércules extraídas dele pela própria Hipólita em uma espécie torpe de vingança. Logo, os papéis meio que se invertem e por fim Diana consegue obter das moiras uma nova profecia que lhe garante um novo caminho a seguir, como a Mulher-Maravilha.

>>>>>>>>>>>>>>>>>>FIM DOS SPOILERS<<<<<<<<<<<<<<<<<

Decidi escrever a história quase inteira, com alguns spoilers, para poder explicar a minha frustração na discrepância entre o conteúdo de qualidade apresentado por Morrison e os traços hipersexualizados de Yanick Paquete.

Duas páginas que não são sequenciais retiradas do Terra Um e que mostram claramente a hipersexualização da Mulher-Maravilha.

O artista é mais conhecido por seus trabalhos em Swamp Thing e visualizou não apenas a personagem principal, mas todas as habitantes daquela ilha como mulheres extremamente sexuais, pois vejam bem há um abismo entre ser sensual, sexual e vulgar e no caso desse quadrinho, Paquete abusou demais desses dois últimos adjetivos. Começando pela própria capa na qual a proporção do tamanho dos seios e da cabeça de Diana é simplesmente absurda. Basta abrir o encadernado e começar a ler para encontrar mais poses e mais cenas onde a Mulher-Maravilha, um símbolo de liderança, força e resiliência para muitas mulheres e meninas foi reduzida quase que ao papel de uma boneca inflável, estando o tempo inteiro em posições sexuais e com expressão de desejo no rosto, ainda que os diálogos sejam totalmente o contrário da sua postura. Se a origem criada por Morrison fala de mulheres que eram oprimidas e feitas de escravas sexuais pelo semi Deus Hércules e seus discípulos, parece que Paquete falhou em compreender a história. Lamentável que o artista veja a personagem como alguém que deve ser hipersexualizada a fim de provar um ponto que não existe. Ainda que ela seja uma amazona, guerreira, forte e dotada de alguns poderes, tudo isso é algo interno e inerente a personagem e que não tem a necessidade de ser transposto externamente, como vemos na arte de Yanick Paquete.

Duas capas de Rebirth e que retratam bem a personagem ainda que possuam traços e estilos de desenho diferentes.

O desapontamento e frustração se deve ao fato de que o conteúdo atual das revistas Rebirth é muito superior ao que é visto neste encadernado. Nas páginas da revista quinzenal temos uma Diana e demais Amazonas em formas de mulheres sensuais e bem torneadas, mas sem apelações ou atributos exagerados como seios ou coxas, por exemplo. Os traços de Liam Sharp e Paulo Siqueira conseguem representar bem a dualidade da personagem sem que seja necessário hipersexualiza-la para atrair o público. Não. O conteúdo é bom o suficiente para tal, pois lidamos revista a revista com a descoberta dela como pessoa, seu papel no mundo, sua identidade e propósito ao adentrar o tão temido mundo dos homens. Não é submissa a ninguém a não ser as suas próprias vontades, é justa com todos, quer que haja paz entre seu povo e os homens e tampouco precisa fazer demonstrações pífias de força física e assim amedrontar os homens utilizando de suas táticas de guerra. Um outro ponto fora da curva é que na origem de Morrison ela seria filha de Hércules, quando na atual linha editorial da DC Comics ela é filha de Zeus e Deusa da Guerra após ter derrotado Ares lá em Os Novos 52. Dificultando ainda mais para conseguir aceitar tudo o que foi apresentado nesse encadernado.

Uma cena retirada de uma HQ das Bombshells onde é possível ver a força e sensualidade da personagem sem ser necessariamente com apelo sexual.

Se o intuito era entregar uma arte sensual, melhor ficar com as DC Bombshells criadas pela Ant Lucia que mistura poder, elegância, sofisticação e sensualidade em todas as personagens, sejam elas heroínas ou vilãs. Dizer que faltou sutileza ao retratar a Amazona mais famosa dos quadrinhos é pouco. Faltou foi bom senso e tato.