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HQ: “Perpetuum Mobile” por Diego Sanchez

HQ: “Perpetuum Mobile” por Diego Sanchez

Fui pego completamente de surpresa. Ao ler Perpetuum Mobile uma inquietação me tomou conta. Por um momento, pensei que tinha deixado passar algo ou pulado alguma página. Só então percebi que a confusão faz parte da trama.

Já acompanhava em meia distância o trabalho do autor Diego Sanchez. Seguia seu trabalho como tatuador e só depois descobri que esse Diego Sanchez é o mesmo cara que produz tirinhas na internet há um bom tempo.

Quando esse esclarecimento se formou na minha mente, me surpreendi com a falta de atenção, pois, seu traço anda em uno em toda a produção que realiza, sendo no papel ou na pele.

Me permiti então conhecer mais sobre o seu trabalho. Adquiri alguns de seus livros e logo de cara mais um tapa, pois, cada um de seus trabalhos apresenta um tratamento na produção completamente distinto do outro, tornando tudo mais intrigante e admirável. Escolhi para começar o menor em tamanho, porém, o mais parrudo em número de páginas. A capa preta com um desenho rosa traz um contraste que atrai o olhar instantaneamente. Foi assim que Perpetuum Mobile não saiu da minha cabeça desde então.

“Vou ler algumas páginas antes do almoço”. Foi o que falei para mim mesmo, quando peguei a HQ nas mãos. Mas, enquanto não virei a última página, não me dei por satisfeito. Minha ânsia por saber mais sobre aqueles personagens, sobre aquela história, aquela cidade, era muito mais voraz que a fome que se instalou em mim. Mesmo após terminar de ler, aquelas linhas e palavras ficaram dançando em minha mente por horas e horas, até que decidi pegar novamente o livro e reler, ainda no mesmo dia.

Antes de qualquer coisa, a arte de Diego Sanchez é peculiar. Tem um charme pela simplicidade e ao mesmo tempo surpreende pelas experimentações e pela ousadia de utilizar a área em branco como um ambiente de expansão da imagem. Seus quadros e requadros irregulares ao invés de causar a sensação de mal feito, ou mal utilizado, reforça a marca de seu traço, que em primeira vista aparenta ser bem simplório, na verdade, é complexo e cheio de camadas a se explorar.

Perpetuum Mobile, conta a história singular de Martin, um jovem conturbado e mutável que está sempre insatisfeito com ele mesmo e com a forma como sua vida segue. Mas ele continua tentando sempre seguir para um novo rumo, dar um novo valor, mesmo não fazendo as escolhas mais certas para isso. O que deixa claro que seus erros são os grandes motivadores para continuar buscando uma mudança em sua trajetória.

Não é preciso qualquer localização temporal da história. A trama é apresentada de forma não linear, mas, ainda assim, se limita a uma época específica de sua vida. A vaga noção do tempo deixa dúvida não só da ordem dos acontecimentos, como da relação dos personagens em si. Pois, não sabemos se seu namoro com Dolores é ao mesmo tempo em que Martin conhece e fica obcecado pela garota ruiva Amparo. Deixando a incerteza de que aquilo é um amor novo e individual. Ou uma amante que dialoga com a vida de outra mulher.

A turbulência mental de Martin leva-o a deixar tudo para trás, decide tomar outro rumo em sua vida. Pretende seguir pelo deserto, como quem parte em direção ao desconhecido, mas não para chegar em algum lugar, e sim, para ter conhecimento e entender o mais importante: o caminho.

Perpetuum Mobile é um daqueles quadrinhos sensíveis — não confunda com fofo, pois, o erotismo e o vulgar também são explorados pelas mãos de Sanchez. não como deslumbre visual ou sexualização sem motivo, mas para entendermos a faceta de alguns personagens sem uma descrição mais profunda e analítica.

O livro foi inicialmente produzido de forma independente e foi relançado pela Editora Mino.

Ficou curioso? Quer sentir o peso melancólico dos trabalhos de Diego Sanchez, antes de apostar em comprar um de seus quadrinhos?

De uma olhada nos seus Quadrinhos Insones, página que reúne suas tirinhas e histórias curtas, alem de outros quadrinistas. E tire suas próprias conclusões.

Se você for abduzido por toda aquela substância que pende entre o real e o surreal da condição humana, assim como aconteceu comigo, Perpetuum Mobile será uma parada obrigatória, que a sua consciência exigirá, daqui a frente para continuar pelos caminhos da sua existência.