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“It: A Coisa” entrega o prometido ao público

“It: A Coisa” entrega o prometido ao público

A primeira tentativa de transferir It: A Coisa – sucesso literário de Stephen King com mais de 800 páginas – para as telas foi a minissérie de dois episódios lançada em 1990 que imortalizou Tim Curry como “Pennywise, o Palhaço Dançarino”, alimentando (e criando) a fobia de muitas crianças na época.

Apesar de servir até hoje como referência de palhaços-assassinos-demoníacos na memória da maioria das pessoas, a transferência de mídia como um todo foi extremamente decepcionante. O roteiro não faz sentido, o desenvolvimento dos personagens deixou muito a desejar e, tirando a atuação excelente de Curry, nenhum outro ator se fez memorável. E isso aconteceu em grande parte porque tentaram seguir demais a obra original com apenas uma fração do tempo para desenvolvimento completo da história. O que aliás é o grande problema da maioria dos filmes baseados em livros do autor.

A nova versão que foi dirigida por Andy Muschietti (Mama) e também é dividida em duas partes, bebe da fonte mas não tenta reproduzir o original por completo.

Pennywise é interpretado magnificamente por Bill Skarsgård, que se distancia bastante da sombra deixada pelo palhaço de Tim Curry. Seus olhos se reviram em ângulos estranhos. Um fio de saliva escorre enquanto ele fala tentando atrair suas vítimas.Seus trejeitos orbitam entre o exagerado e o contido. Tudo incluído no pacote desse novo Pennywise funciona para fugir do esteriótipo psicótico e focar no tema: “criatura que come carne humana, emula outros seres e tem grande influência no comportamento de todos na cidade”.

A atuação do elenco infantil é incrível, com destaque para Nicholas Hamilton (Torre Negra e Capitão Fantástico) que interpreta um sádico Henry Bowers que convence no papel de bully colegial lembrando muito a sua contraparte literária. Finn Wolfhard (Stranger Things) que entrega um Richie Tozier mais interessante que o original, conseguindo soltar todas as piadas e palavrões como uma metralhadora. Jack Dylan Grazer que vive o hipocondríaco e melhor amigo de Richie, Eddie Kaspbrak que forma com Finn o alivio cômico do filme.

(esquerda/direita) – Jack Dylan Grazer, Finn Wolfhard, Jeremy Ray Taylor e Wyatt Oleff

Alias, outro acerto do filme foi conseguir calibrar o tom entre o terror e a comédia. Não foi incomum durante a sessão ver pessoas tensas em suas poltronas para poucos segundos após o susto começarem a gargalhar. Os momentos assustadores foram todos bem pensados, mas nem todos são bem executados. O que acaba sendo o pequeno defeito do filme. Ao optarem por computação gráfica para resolver as aparições monstruosas da Coisa, pecam na qualidade que lembrava muito uma produção do canal SyFy em alguns momentos, onde um close no “leproso” mostrava falha de texturas e a “pintura” quando vista num campo mais iluminado tirava a sensação de que ela existia de verdade.

Entretanto, uma das grandes sacadas dessa adaptação foi não deixar de lado os perigos que a cidade de Derry e seus habitantes proporcionam, tendo eles a influencia ou não de Pennywise. Desde o casal que presenciou uma forte cena de bullying e decidiu continuar seu caminho sem fazer nada até adultos com tendências a abusos infantis. O filme a todo momento mostra que o palhaço dançarino não é a única ameaça a integridade das crianças.

It: A Coisa também aborda muito bem a dinâmica infantil de uma “turma” fazendo com que diálogos corriqueiros e aventuras no esgoto acabem mostrando mais sobre as personalidades e dificuldades de cada personagem, que junto com os medos comuns da puberdade firma uma forte amizade entre os integrantes.

Ao mudar a época da história dos anos 50 para os anos 80, Muschietti consegue embarcar brilhantemente na hype atual pela cultura oitentista ao mesmo tempo em que apela para a nostalgia de boa parte dos adultos de hoje. Se a parte 2 acontecer como o previsto, será situada entre os anos de 2007 a 2010 (já que a Coisa hiberna de 27 a 30 anos a cada onda de mortes e violência). O que significa acrescentar uma boa dose de tecnologia à história e novas possibilidades para o encontro das versões adultas dos “perdedores” com o Pennywise. Como talvez tentar contar um pouco da história da criatura.

Só nos resta esperar e torcer para que a onda de recepções positivas do público e crítica especializada se mantenha estável para que a Parte 2 aconteça. E mesmo que não chegue a acontecer, a historia dessa adaptação de It: A Coisa funciona muito bem com um filme solo e entrega o prometido ao público: Stephen King de raiz.

ADENDO:
Para quem leu o livro algumas referências e momentos chaves acabam ficando de fora ou são muito modificados, causando uma certa estranheza ao analisarmos o que resta da história a ser contada no segundo filme. Algumas decisões criativas foram bem acertadas logo de cara, como a retirada da polêmica cena de sexo no esgoto, porém outras, como dispensarem Henry Bowers (que na transição de passado/futuro leva a culpa por todos os assassinatos ocorridos na época), não fazem tanto sentido a princípio. A troca de alguns monstros e como consequência a resolução, não ficou exatamente explicada. No original, a “Coisa” adquire a fraqueza da forma que ela adota, como por exemplo prata para quando se transforma em lobisomem, e no embate final é esse conhecimento que acaba salvando os “Perdedores”. Toda a trama é fundada em um sistema de crenças e medos. Pennywise usa o medo das crianças contra elas e elas imaginam como vencer esses monstros acreditando uns nos outros e em suas armas. Nessa versão isso não é utilizado, caindo um pouco o nível do desafio das crianças para apenas “não ter medo” resolver o final.