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Na Estante: “As Garotas” de Emma Cline

Na Estante: “As Garotas” de Emma Cline

Alguns livros, por mais curioso que a gente fique para terminar, precisam ser lidos com calma. E com certeza As Garotas da autora Emma Cline é um exemplo.

O livro transita por duas épocas diferentes na vida de Evie Boyd indo do passado conturbado no final da década de 70 para um presente solitário e angustiante.

Aos 14 anos em meio a dois pais ausentes e uma necessidade enorme de ser notada, Evie conhece Susane. Uma garota alguns anos mais velha e despida das costumeiras preocupações da vida que apresenta à protagonista um novo mundo. Um rancho o qual as pessoas são livres para ser quem quiserem e fazer o que quiserem. Sem obrigações, deveres ou conduta a seguir. Tudo sob o olhar vigilante de Russell, um homem que busca alavancar sua carreira musical.

Bem, ao menos foi isso o que Evie pensou.

Algumas pessoas acham que não, mas a vida de um adolescente não é nada fácil. É uma fase transitória complicada e que acaba por moldar em definitivo o caráter do jovem e ditar quem vai ser enquanto adulto. O que dificulta mais quando não se tem figuras responsáveis por perto. Dessa forma, procuram preencher essa falha de uma outra maneira e nem sempre com os melhores exemplos. Foi o que aconteceu a Evie que caiu na rede sedutora do culto criado por Russell o qual a autora usou de base aquele liderado por Charles Manson, famoso serial killer americano.

Embora a garota não soubesse que estava dentro de um culto, pois diferente das demais pessoas, ela tinha a liberdade de ir e vir quando quisesse, se viu presa a esse lugar mais pela sensação de pertencimento do que pela ideologia proposta. Evie estava apaixonada por Susane, porém não de um jeito inteiramente convencional. Estava apaixonada por toda a atenção que lhe davam, por ser reconhecida ao contribuir com a comunidade, de ser mais nova e tratada como adulta, e acima de tudo, por a enxergarem como pessoa. Algo que seus pais não faziam, devido ao fato de estarem mais preocupados cada um com sua vida amorosa do que com a própria filha.

Quando tudo isso lhe é tirado, ora pelo começo da falta de interesse de Susane, ora pelos acontecimentos que transformaram o rancho e a todos que lá viviam, ora pela própria percepção de Evie em entender que tudo aquilo funciona de uma maneira estranha, ela então sente-se perdida. E esse sentimento caminha com ela até o tempo presente. Principalmente a culpa que ela não sabe apontar bem porque sente, mas carrega como se tivesse que pagar por ter feito parte daquele rancho mesmo que por pouco tempo. O que acaba desestruturando a personagem como um todo e a partir daí passa a vagar pelo mundo, apenas sobrevivendo, sem uma identidade, a espera de que outra pessoa venha salva-la de si mesma.

Emma Cline constrói uma narrativa lenta, bastante descritiva para situar o leitor nas diferentes passagens de tempo e ainda assim bem intensa. Descreve com propriedade sobre sentir-se deslocado e não saber quem você deve ser e quando ser essa pessoa. Sobre o despertar precoce da sexualidade e essa necessidade de ser aceita por todos sem medir os que realmente valem a pena. A autora levanta uma série de questionamentos que permeiam a cabeça de adolescentes em uma fase tão crítica, em especial as meninas. Essa atmosfera competitiva que insiste em aparecer quando há mais de duas garotas em um mesmo grupo. O jogo que existe nas entrelinhas para continuar se destacando dentre tantas por achar-se inferior demais. Tantos apontamentos em meio a um Verão turbulento onde Evie Boyd descobriu quem queria ser para logo em seguida perde-se para sempre.

As Garotas é o primeiro livro de Emma Cline e figurou entre as listas dos mais vendidos do The New York Times nas semanas após o seu lançamento em 2016 e chega por aqui pela Editora Intrínseca.