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Na Estante: “Inferno no Ártico” de Cláudia Lemes

Na Estante: “Inferno no Ártico” de Cláudia Lemes

Minha avó sempre foi uma mulher muito religiosa. Desde pequeno aprendi que do mesmo jeito que existe o bem, também existe o mal. Porém, nunca consegui compreender direito o que significava o “mal”. Ainda hoje confesso não conseguir entender algumas cosias que o ser humano é capaz de fazer. Claro que não sou nenhum santo, não serei beatificado após deixar esse mundo, por exemplo. Mas existem pessoas que em sua essência carregam um ódio pelo mundo que jamais serei capaz de explicar.

Inferno no Ártico trata sobre esse mal. O qual pessoas comuns são incapazes de compreender as razões e por isso nos gera tanto medo e também curiosidade ao mesmo tempo.

A protagonista Bárbara sofre de Nictofobia (medo de escuro) e tem de enfrentar esse medo para prender um serial killer (que representa o mal incompreensível que citei acima) antes que ele consiga cumprir sua terrível e macabra missão.

Bárbara é um personagem com o qual me identifiquei profundamente devido ao seu problema. Sofro de Aicmofobia (medo de agulhas). Não sei exatamente quando adquiri esse problema. Mas sei o quanto isso me faz mal e por isso sabia exatamente o que ela estava sentindo quando confrontada pelo seu medo estando em um lugar onde o sol não nasceria por três dias.

Muitas pessoas não entendem o que é ter fobia de alguma coisa. Acham se tratar de frescura, exagero, necessidade de chamar a atenção ou até mesmo fingimento. É um sentimento que te consome por dentro. Por mais que você tente dizer a si que vai superar, quando vem, te domina de tal maneira que é impossível manter o controle. É uma sensação terrível que não desejo nem ao meu pior inimigo.

Sinto um calor demasiado, o corpo sua, as mãos ficam geladas, a cabeça gira, o coração dispara, parece que você vai ter uma parada cardíaca. É difícil respirar. Quase como se meu nariz estivesse fechado. Só consigo puxar o ar pela boca, sinto tontura, fico paralisado. Por muitas vezes achei que morreria de tanto que meu coração disparava.  Acho que deve ser como uma crise de ansiedade. Tudo começa a acontecer antes mesmo da agulha perfurar meu corpo. Imaginem o tamanho do desespero que passo. Então quando ela tinha que lidar com o escuro, sabendo de sua fobia, podia ver o quanto estava sofrendo. Dava para sentir o seu sofrimento e torcia para que ela conseguisse superar. Mesmo sabendo o quão difícil é… Até porque, ainda não superei a minha fobia.

O final da história, como não poderia deixar de ser, sendo um livro da Cláudia, é surpreendente. Cláudia Lemes está entre os melhores autores nacionais da atualidade. Sua escrita é impecável, corajosa e implacável. Ela enfrenta os temas que propõe sem negligencia-los. Mergulha dentro da narrativa e nos leva junto com ela. Ficamos submersos e encantados com seus personagens. Despertando sentimentos em nós que vão da empatia ao desprezo, do ódio ao amor, de acordo com o que a personagem precisa nos entregar.

Inferno no Ártico se assemelha muito a uma ida na montanha russa. No começo você sente medo. Quando o carrinho começa a subir devagar, a ansiedade toma conta do seu corpo e de repente você relaxa. É bem nesse momento que você atinge o ponto mais alto e aí, vocês sabem, vem a queda vertiginosa, acompanhada de um grito lá do fundo da garganta misturado a emoção e adrenalina. Foi essa exata sensação que tive lendo esse livro. No momento em que achava que já havia superado a surpresa e que tudo iria se resolver, a autora deu um outro looping e mostrou que ainda havia outros segredos a descobrir. É um prato cheio para quem gosta de um bom plot twist.

E aí quando a viagem tá chegando ao final, o carrinho vai parar, sua adrenalina baixa, você sai do brinquedo e a sensação é maravilhosa. A única coisa que você pensa é “quero ir de novo”. Esse é o “efeito” que Cláudia Lemes causa em seus leitores.

P.S: Cláudia Lemes é uma autora independente e Inferno no Ártico foi lançado através da plataforma de crowdfunding Kickante.