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Na Estante: O encantador “Funny Girl” de Nick Hornby

Na Estante: O encantador “Funny Girl” de Nick Hornby

Difícil explicar as razões, mas ultimamente tenho me identificado mais com autores ingleses do que americanos. Nada contra a safra enorme de boa e até mesmo excelente literatura que sai da terra do Tio Sam e que consumo vorazmente, porém, autores como David Nicholls e Nick Hornby ganharam espaço especial em meu coração. Sem mencionar J.K. Rowling.

Hornby é aquele tipo de autor que consegue criar personagens e narrativas tão críveis que te transporta para dentro do livro logo nas primeiras páginas. Usando de um humor peculiar, tido britânico, arranca risadas fáceis e nos deixa sorrindo por um tempo, mesmo após ter dado uma pausa na leitura.

Em Funny Girl Hornby nos transporta para os tempos dourados da televisão no Reino Unido, em que as comédias familiares faziam bastante sucesso. Seguimos os passos de Barbara, que mais tarde se tornaria Sophie Straw, atriz iniciante que havia saído de uma cidadezinha no interior do país para ganhar Londres. Seu começo não é exatamente o que ela esperava e por pouco não cai nas mãos de um agenciador malandro, não fosse a sorte de ir realizar um teste e conhecer Bill e Tony, os futuros roteiristas de um programa que nem chegou a sair, pois os dois se encantaram tanto com ela que decidiram mudar tudo e reescrever o roteiro para que Sophie fosse a principal. Nascia assim Barbara e (Jim) uma sitcom que duraria mais do que qualquer um poderia imaginar, principalmente aqueles envolvidos nela.

No entanto, apesar de Sophie ser a principal, a narrativa trata todos os personagens com o mesmo peso e distinção. Conforme as páginas vão passando e eles ganhando mais fama e notoriedade, os problemas passam a complicar e Hornby consegue construir essa narrativa de forma tão primorosa, com detalhes tão elaborados e citando pessoas reais que fica a dúvida se é realmente um livro de ficção ou se gostaríamos que fossem todos de verdade, pelo nível de intimidade e empatia criado por nós.

Sophie é uma menina ainda, por mais que seu corpo escultural e a idade diga o contrário. Ao conquistar seu sonho de ser atriz de comédia, tal qual sua inspiração Lucille Ball, parece ficar cada vez mais perdida conforme vai ganhando mais e mais sucesso, tendo pequenas dúvidas sobre qual é de fato seu maior sonho. Diferente de seu colega Clive que sabia exatamente o que sempre quis e se frustra por não corresponder as próprias expectativas. Os roteiristas Bill e Tony são um atípico casal, apesar de Tony ser casado com outra pessoa, e os longos anos nos quais trabalham juntos acaba minando a amizade deles. Bill um homossexual escondido, ressente pela sociedade em que vive e é um tanto amargo. Tony por outro lado, ainda que em dúvida sobre a sua sexualidade, gosta de estar casado com June e faz todo esforço para ser feliz no casamento. Os dissabores entre ambos é a chave para fazer com que a dupla dê certo e produza bons textos, que vão diminuindo ao longo dos anos, assim como a afinidade entre eles. Dennis, o produtor, é um homem de meia-idade tenro e atencioso que preza sua equipe mais do que tudo. Juntos, eles se tornam bons amigos e companheiros na longa jornada que é produzir um programa bem sucedido para a televisão.

Funny Girl é um daqueles livros encantadores que torcemos para que não termine nunca. Infelizmente, há sempre uma última página que irá mudar isso.

Em parceria com a Editora Companhia Das Letras.