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Na Estante: “Tartarugas Até Lá Embaixo” de John Green

Na Estante: “Tartarugas Até Lá Embaixo” de John Green

Depois de seis anos sem lançar um livro novo, o autor John Green está de volta. Em Tartarugas Até Lá Embaixo ele trilha um caminho mais complexo e atual que são as doenças mentais.

Não que os outros livros do autor não tratassem de temas pertinentes. Porém, como as doenças mentais (depressão, ansiedade, transtorno obsessivo compulsivo, etc) foram eleitas o mau do século 21, creio que o autor decidiu por esse tema por dialogar bem com os jovens. Público massivo que acompanha o seu trabalho desde o início.

Em Tartarugas Até Lá Embaixo o leitor percorre a jornada de Aza Holmes. Ela é uma típica adolescente americana, morando em Indiana e que tira notas boas na escola. O que diferencia Aza das outras pessoas, como sua melhor amiga Daisy, é o que passa dentro da sua cabeça. De modo frequente ela se desliga do muito e mergulha em problemas e questões inexistentes. Se os organismos e bactérias que vivem dentro do seu corpo a controlam demais. Ou de menos. Se ela é uma pessoa real ou alguém que vive uma ficção. E para comprovar que é real, provoca uma ferida no próprio dedo o qual fica cuidando com afinco a ponto de não infeccionar. Porque se infeccionar ela pode contrair uma doença chamada C.Diff (em decorrência de uma bactéria) e morrer. Pensamentos constantes que passam pela sua cabeça e os quais ela não tem controle.

Aza tem o que os médicos chamam de TOC ou Transtorno Obsessivo Compulsivo que vai além de checar 3 vezes a fechadura da porta. Só que a doença para ela funciona de uma outra forma. E interfere diretamente na sua vida, já que ela deixa de aproveitar muitos momentos por estar presa dentro da própria mente. A situação atinge outro patamar quando Daisy propõe que as duas descubram o paradeiro de um bilionário fugitivo. Cujo filho foi um dia amigo de Aza.

Mais uma vez a nossa parceira, a editora Intrínseca, fez a gentileza de nos enviar um exemplar do livro recheado de alguns brindes (a bolsa é ótima para carregar trabalhos da faculdade). O design gráfico da capa é um dos mais legais que já vi entre os livros do autor. Porém, preciso confessar que essa foi a primeira vez que consegui me prender ao diálogo proposto por John Green.

Li todos os outros livros dele que foram publicados pela editora com exceção de Quem é Você Alasca?. E na minha concepção, não existe um meio termo. Hora eles são bons demais ou apenas medianos. Estou a par do apelo e a quantidade de fãs que o autor possui, todavia, ele não fala comigo. Não estou dentro da faixa demográfica a qual ele direciona seus livros da mesma forma que faz a escritora brasileira Talita Rebouças. Ainda que adultos gostem do trabalho do autor, o que não tem o menor problema, não somos o público alvo de Green e suas histórias e tudo bem.

Só que dessa vez ele tocou em um ponto que me é familiar: doenças mentais. Por anos lidei com uma pessoa que não estava interessada em buscar ajuda. Diferente de Aza que ia as consultas com a Dra. Singh. Na verdade, ela queria ajuda, só não sabia como pedir e nem por onde começar. Assim como Aza, colocava uma série de obstáculos a fim de não reconhecer o problema. O que me deixou irritada em algumas passagens da história, porque era um tanto impossível não criar uma associação.

Não me ver como a mãe da Aza ou Daisy que estão ali, orbitando em volta daquela pessoa, tentando ajudar de todo custo, mas sem saber como. Ou mesmo se existe uma maneira correta de intervir. Criando assim duas personagens completamente opostas. A pacífica mãe da Aza que quer ajudar a filha e impor sua autoridade maternal ao mesmo tempo. E Daisy que só pode ser encarada como uma amiga de fato nos capítulos finais. Ao meu ver, John Green tem um problema com o conceito de amizade e não apenas em Tartarugas Até Lá Embaixo, mas os amigos de seus outros livros são estranhos. Distorcem o que é ser amigo de alguém e acabam uns tirando proveito dos outros.

O que faltava para Daisy e Aza era comunicação. Colocar os pensamentos e sentimentos em palavras e esclarecer tudo. Tal qual para a mãe da protagonista que precisava ter o pulso um pouco mais forte, mas admito que isso sou eu me projetando na personagem.

A trama principal meio que já foi explorada pelo autor antes em Cidades de Papel, mas lá ficou disfarçada de road trip. Onde um grupo de amigos decidem bancar o detetive para encontrar Margo, a garota que quer sumir. Rodando de carro até encontrá-la. Nesse novo livro a ideia é ganhar uma recompensa gorda por encontrar esse tal bilionário foragido. Mas isso é deixado de lado para desenvolver os problemas interpessoais de Aza, o que foi uma sábia escolha.

John Green pode ter levado seis anos para lançar e escrever um livro novo, mas o tempo lhe foi útil. Amadureceu como autor e também a sua narrativa. O que era natural acontecer. Tartarugas Até Lá Embaixo é sem dúvida o seu trabalho mais maduro e o melhor até agora.