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Não há nada de novo em “Baseado em Fatos Reais”

Não há nada de novo em “Baseado em Fatos Reais”

Baseado em Fatos Reais é o novo longa dirigido por Roman Polanski, que também assina o roteiro em parceria com Olivier Assayas.

Os primeiros minutos do filme apresentam uma sessão de autógrafos na qual Delphine (Emmanuelle Seigner), uma escritora de sucesso, recebe admiradores da sua publicação mais recente que aborda dilemas maternais vividas pela autora. Em meio aos fãs, Delphine simpatiza com Elle (Eva Green), outra escritora que ganha a vida como ghost-writter. Justamente no momento em que Delphine vive um bloqueio criativo atravessado por problemas psicológicos. Sem esquecer da relação familiar conturbada. Elle surge então como uma confidente que compreende as dificuldades da escritora. Assim, as duas mulheres, desconhecidas uma da outra, iniciam uma amizade que se transforma ao longo da narrativa em uma relação abusiva e violenta.

Polanski é conhecido pelos ótimos Chinatown (1974), O Inquilino (1976) e o irretocável O Bebê de Rosemary (1968) –  além de também colecionar uma série de acusações de assédio sexual e pedofilia. Aqui ele resgata elementos já trabalhados por ele e outros cineastas. Além de reciclar marcas da filmografia do diretor, Baseado em Fatos Reais requenta recursos utilizados em Psicose (1960), Louca Obsessão (1990) e até mesmo em Mulher Solteira Procura (1992). Compor um filme fazendo referências a outros não é um erro. Vemos isso o tempo todo em produções bem-sucedidas ou não. O problema é tentar inventar a roda em pleno século 21. E mais, fazer uso dessas referências presumindo que o público não as conheça.

O roteiro do filme se perde num mar de referências. Como também a oportunidade de aprofundar os temas relevantes que busca abordar: os limites entre a realidade e ficção e a disputa de poder nas relações humanas. No entanto, apesar de ter desenvolvimento arrastado, o longa garante um bom entretenimento durante o primeiro e o terceiro ato.

É impossível detalhar o desenvolvimento do enredo sem dar spoilers. Mas é engraçado notar que a resolução da trama pode ser percebida logo no primeiro ato. Já que Polanski faz pouco caso da inteligência e conhcecimento do seu público. O trabalho do diretor é tão autorreferente que acaba comprometendo a potência das duas protagonistas. Emmanuelle Seigner dá conta do recado. Entrega uma interpretação convincente na medida do possível, mas Eva Green é o oposto. Sua personagem carecia de muito mais camadas, ao entregar uma Elle unidimensional, cheia de pantomima e vícios melodramáticos.

Baseado em Fatos Reais pode entreter os desavisados que não esperam uma obra assinada pelo Polanski. Porém, vale mais a pena assistir aos filmes os quais ele faz referência. Se Annie Wilkes estivesse na sala de cinema, estaria rindo disso tudo.

Ficha Técnica
Diretor: Roman Polanski 
Roteiro: Olivier Assayas, Roman Polanski 
Elenco: Emmanuelle Seigner, Eva Green, Vincent Perez, Dominique Pinon, Camille Chamoux, Brigitte Roüan, Josée Dayan, Noémie Lvovsky, Leonello Brandolini, Elisabeth Quin, Damien Bonnard, Saadia Bentaïeb, Véronique Vasseur, Stanislas Moreau, Valérie Schiatti de Monza 
Duração: 1h40min 
Estreia: 12 de abril