Share
“O Diário de Anne Frank” por Ari Folman e David Polonsky

“O Diário de Anne Frank” por Ari Folman e David Polonsky

Anne Frank é um nome bastante conhecido. Sua história, o seu diário, se tornou cânone da segunda guerra mundial. E agora para atingir a um público mais jovem, tem uma bela versão em quadrinhos.

Costumo ler rápido. Ainda mais quadrinhos. Porém, esse título levou quase uma semana para ser concluído. Não por estar ruim, muito pelo contrário. Era necessário ler cada transcrição do diário de Anne com a máxima atenção. Absorvendo com cuidado suas reflexões e o que isso queria dizer dentro daquele momento para ela.

Annelies Marie Frank que ficou mais conhecida como Anne vivia normalmente em Amsterdam com seus pais até a tomada dos alemães e o estouro da segunda guerra. Ela junto com o pai Otto, a mãe Edith e a irmã mais velha Margareth foram morar no anexo que existia em cima da loja de Otto. Não tardou para que outros pessoas também fossem se esconder lá. Logo, eram oito pessoas e um gato vivendo num lugar apertado e sem poder emitir um único som.

O único refúgio de Anne era o diário que havia ganhado do pai de aniversário e que apelidou de Kitty. Era nele que a jovem depositava seus anseios e também narrava um pouco do que acontecia no anexo. Sua entradas não eram diárias e ela conversava com Kitty como quem conversa com uma amiga. Pena que não podia responder.

É através dessa narrativa que conhecemos um pouco da vida dessas oito pessoas num momento de extremo perigo. A forma como elas obtinham comida, informações de fora e o que faziam para passar o tempo. Mais do que isso, sabíamos o que se passava com elas de uma outra forma. Em especial com Anne que com o passar dos meses acaba desenvolvendo depressão e, por isso, começa a escrever cada vez menos no diário.

Sem um estímulo concreto e com o medo pairando sob suas cabeças, ela consegue se desligar por pouco tempo no anexo e vivenciar um mundo só seu. Bastante precoce para sua idade, discursa sobre temas pertinentes como sexualidade, amor, tolerância e narra com certa precisão sobre seus sentimentos. Em certos momentos é difícil acreditar que estamos lendo relatos de uma jovem de apenas 12 anos, tamanha é a riqueza com a qual trata esses assuntos. Tal qual a profundidade com que consegue aborda-los. O que deixa a leitura igualmente intrigante e difícil, pois não queremos chegar ao final.

Tudo isso vem com o auxílio ímpar das ilustrações que fazem o leitor adentrar mais na mente de Anne enquanto escrevia seus relatos. As expressões em particular são o ponto chave para que possamos entender melhor essas pessoas. Polonsky transpõe com maestria as palavras de Anne em figuras para as páginas desse quadrinho. Usando de cores vivas para falar de um período tão escuro na história mundial. Para retratar algo que aconteceu não apenas com Anne, sua família e os demais habitantes do anexo. Mas também com outras pessoas que tiveram a mesma ideia que Otto.

Por se tratar da história de Anne Frank confesso que não queria chegar na última página. Não queria ter que me despedir dessas pessoas. Me despedir de Anne a quem conheci tão profundamente. Que poderia ter sido facilmente uma de minhas amigas. Não queria ter o desfecho que me esperava.

Tanto o diário, quanto os livros e qualquer outra forma de publicação que tenha a história escrita por ela foi autorizada por seu pai Otto Frank. O único sobrevivente dos oito que habitavam o anexo. Ele criou a Anne Frank Fonds e essa edição publicada pela Editora Record é autorizada e oficial. Parte do lucro é revertido para essa fundação criada por Otto e que continua a propagar a história de sua filha pelo mundo. Uma jovem com uma mente brilhante e que teve um fim trágico, tal qual outros milhões de judeus.