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Review: O incômodo “Ele Está de Volta” e a manipulação midiática

Review: O incômodo “Ele Está de Volta” e a manipulação midiática

gradebEm meio a política brasileira atual temos figuras que podemos apontar como sendo detestáveis. Seja pela postura enquanto político, pelas asneiras que profere ou por todas as falcatruas cometidas. Todavia, alguns concordam que não há figura pior do que a de Adolf Hitler, comumente utilizado em comparações com tais políticos. Será mesmo?

No satírico filme alemão Ele Está de Volta (Er Ist Wieder Da), em cartaz na Netflix, Hitler volta à vida no ano de 2014 e decide retomar seus planos iniciais de dominação da Alemanha e para tal encontra a facilidade de algo que não existia lá em 1940: a internet. Óbvio que ninguém acredita que ele é realmente O Hitler, apesar do pseudo ator manter-se constantemente no papel. Com a ajuda de um documentarista eles viajam pelo interior da Alemanha quase que numa pré-campanha eleitoral, a fim de conquistar votos e, claro, a confiança de um novo público. Não tarda para que Hitler encontre simpatizantes da causa e com sua incontestável lábia, convence-os de seus planos.

O longa mistura cenas de ficção com documentário e as pessoas ali opinando abertamente sobre a situação atual na Alemanha são elas mesmas e não atores contratados. Tanto que alguns transeuntes ao fundo tem seus rostos cobertos por tarjas pois não autorizaram a utilização de sua imagem.

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Entretanto, não é a figura emblemática de um uniformizado Adolf Hitler andando pelas ruas que incomoda. E sim a postura das pessoas em relação a isso. Quase como se elas tivessem esquecido todas as atrocidades que foram cometidas sob as ordens dele e compraram a ideia desse comediante que se comporta e fala igual ao Führer, ainda que não acreditem que seja ele mesmo. Alguns dizem que são a favor de campos de concentração (??) e que inclusive trabalhariam em um, outros reclamam da crescente entrada de imigrantes no país e como isso de certa forma tem influenciado no QI do povo alemão. Sem mencionar a disputa no mercado de trabalho e a miscigenação de etnias. Um festival de absurdos e impropérios que torna difícil a tarefa de continuar acompanhando o filme até o final.

Como não deixaria de ser, Hitler aproveita de sua nova posição para reclamar do conteúdo produzido pela televisão alemã, algo que acaba tendo impacto enorme para com o público, principalmente os jovens, e faz com que sua popularidade cresça substancialmente. Ao dizer coisas que os alemães querem ouvir, abre precedente para que as pessoas não o contestem, já que acreditam na figura dele, o que acaba reacendendo uma chama que muitos acreditavam estar extinta. Dessa forma ele consegue manipular o público da maneira que bem entender, jogando a culpa dos problemas do país nas costas de outras pessoas.

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Mesmo que o filme faça sátira do cotidiano alemão, tal performance também pode ser transportada para o Brasil atual, onde inúmeros governantes que possuem a ficha suja tentam distrair o povo apontando problemas em outros cantos ou mesmo criando tais problemas. Tudo a fim de que o foco saia de cima dele e passe para outros políticos, organizações, bancos e etc. Exatamente a atitude de Hitler, pois ninguém questionou como ele foi parar ali e porque continua insistindo ser o verdadeiro Führer. Enquanto estiver trazendo a atenção necessária e gerando lucros, tudo bem. Todavia, ele sendo quem é, tem outros planos em mente e nunca Alemanha e Brasil tiveram cenários tão semelhantes. Com a diferença de que o longa é ficção e aqui, infelizmente, é a vida real com alguns Adolf espalhados em Brasilia.

Ele Está de Volta é baseado no livro de Timur Vermes (Editoria Intrínseca) que aborda a questão sociopolítica alemã utilizando de exemplos da época do Terceiro Reich com outros atuais.

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