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O jogo de poder em “Trama Fantasma”

O jogo de poder em “Trama Fantasma”

Antes de surgir o prêt-à-porter (a moda pronta para usar) as pessoas confeccionavam suas próprias roupas. Ou então requisitavam estilistas para fazer isso por elas. E é nesse ponto que conhecemos Reynolds Woodcock, da House of Woodcock.

O renomado estilista possui uma visão única na hora de criar vestidos para suas clientes da alta sociedade e uma metodologia que não deve ser interrompida. Algo que sua parceira e irmã Cyril (Lesley Manville) gosta de seguir a risca. Porém, tudo muda com a chegada de Alma Elson, uma espécie de musa para Reynolds. A garota do interior tenta se adaptar a essa nova vida, enquanto batalha por seu lugar ao sol. Mas as coisas não são tão simples assim e ela vai precisar enfrentar uma longa série de obstáculos a fim de ter Reynolds para si. E não pretende medir esforços para tal.

Bem mais do que uma história de amor, Trama Fantasma do aclamado diretor Paul Thomas Anderson vai além. Brinca com o jogo de poder e manipulação da vaidade que existe entre os três personagens principais.

Reynolds Woodcock vivido pelo oscarizado Daniel Day-Lewis passa uma postura austera à sua equipe. Contudo, esconde uma fachada muito mais frágil e que é vigiada dia e noite por sua irmã Cyril. É ela quem garante que nada interfira no café da manhã do irmão a fim de não estragar o restante do dia. Nesse ponto tem uma posição similar a de uma mãe e é algo que vemos ser mencionado nas entrelinhas da trama. Logo no início Reynolds diz que sente falta da mãe e que costuma sonhar com ela. Quer a sua aprovação e respaldo. O que Cyril faz por ele desde jovens, mas ele quer mais.

Por isso a presença de Alma no ateliê acaba por promover uma briga silenciosa entre os três. A jovem do interior, que ficou fascinada por Reynolds, desdenha a princípio todo o processo de criação. Encara as manias do estilista como infantis e acha que Cyril o mima demais. O que a irmã e gestora do local sente como uma ameaça. Ter essa visão contrária que pode minar tudo o que ela ajudou a construir ao longo de tantos anos. Que pode até mesmo separá-la do irmão. Pautado no mundo da moda, mesmo na aristocracia da década de 50, as atitudes não são diferentes. Elas são apenas mascaradas para se adequar a compostura pedida à época. E isso nos é apresentado de modo sutil através da atuação impecável dos atores. Seja através de um olhar de reprovação ou um sorriso amarelo trocado entre Alma e Cyril.

Sem uma noção exata da passagem de tempo, Trama Fantasma nos conduz pelos dias no ateliê por intermédio de Alma que é a narradora da história. Aliás, tirando a sempre ótima atuação de Day-Lewis temos a grata surpresa de conhecer Vicky Krieps. A atriz natural de Luxemburgo entrega uma performance de tirar o fôlego. A cada cena é notável a evolução da personagem que passa a demarcar seu território e mostrar que não é aconselhável menosprezá-la. Seus diálogos com Reynolds são essenciais para expor o abismo cultural que existe entre eles. Alma é uma moça simples, enquanto Reynolds é pomposo e elegante.

Trama Fantasma pode aparentar não ser tão interessante a princípio. Ainda mais por possuir um enredo modesto e com foco em seus personagens. Entretanto, é o peso dessas atuações que sustentam o longa e prendem a atenção do espectador que pode se surpreender com o desfecho proposto.

Ficha Técnica
Diretor: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson 
Elenco: Daniel Day- Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville, Sue Clark, Joan Brown, Harriet Leitch, Dinah Nicholson, Julie Duck, Maryanne Frost, Elli Banks, Amy Cunningham, Amber Brabant, Gevena Corlett, Juliet Glaves, Camilla Rutherford, Gina McKee, Brian Gleeson, Harriet Samson Harris 
Duração: 2h10min