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O nome do momento: Alfonso Cuarón

O nome do momento: Alfonso Cuarón

O nome do cineasta, produtor e roteirista Alfonso Cuarón é um dos grandes destaques desta temporada de premiações. Seu novo longa Roma tornou-se um dos filmes mais comentados do ano de 2018. Foi banido em Cannes até ter a sua primeira exibição no festival de Veneza, saindo com o Leão de Ouro de melhor filme. O mexicano atraiu a atenção positiva da crítica e teve êxito no Globo de Ouro deste ano. Logo, já era dada como certa a presença de Roma na lista de indicações para o Oscar. O que representa a permeação de uma carreira brilhante e principalmente de uma vida inteira voltada para sétima arte.

O COMEÇO

Nascido na Cidade do México, Alfonso cresceu perto dos estúdios Churubusco, um dos mais antigos estúdios de cinema da América Latina. E desde o instante que ganhou sua primeira câmera, no início da adolescência, iniciou as primeiras experiências com a filmagem. Suas pretensões sempre envolveram a carreira como diretor ou como astronauta. Mas por sua convicção de não servir ao exército, a primeira opção tornou-se uma escolha natural.

Com a primeira câmera surgiu a vontade de registrar tudo o que seus olhos viam e ainda na adolescência a paixão pelos filmes desabrochou. Ansiava por conhecer todos os cinemas de sua cidade e assim que terminou a escola, decidiu que estudaria cinema. Porém, a recusa do Centro de Capacitação Cinematográfica (CCC) e a falta de apoio da mãe o levaram a se dividir entre o curso de filosofia e o de cinema.

PARCERIAS

Foi neste período que conheceu seus futuros colaboradores e amigos como o premiado diretor Luis Estrada, o fotógrafo Emmanuel Lubezki e o também diretor Carlos Marcovich. A primeira colaboração foi com o curta Vengeance is Mine, dirigido por Estrada e que além de Cuarón, contou também com a colaboração de Emmanuel. A produção foi feita em inglês e muito de seus professores do CUEC, desaprovam tal atitude, o que desencadeou discussões e culminou na expulsão de Alfonso da universidade no ano de 1985.

A expulsão levantou o temor sobre o futuro de sua carreira como diretor e com uma família recém formada, Cuarón se viu obrigado a trabalhar em museu para sustentá-los. Porém, um convite do diretor José Luis García Agraz para trabalhar como assistente de direção, fez sua carreira voltar aos eixos. Juntos trabalharam no longa Nocaut e em outras produções. Sua carreira como assistente de direção contou também com o longa Gaby: A True Story (1987) e neste mesmo período co-escreveu e dirigiu alguns episódios da série La Hora Marcada, do canal Televisa.

Emmanuel Lubezki um amigo de longa data

Quando finalmente decidiu criar suas próprias obras, trabalhou com seu irmão Carlos Cuarón e juntos idealizaram Sólo con tu Pareja, que enfrentou alguns problemas com o IMCINE (Instituto Mexicano de Cinematografia), responsável pelo financiamento dos filmes. Inicialmente devido a todo seu orçamento anual já ter sido comprometido e depois com o surgimento de uma vaga, a tensão entre Alfonso e os executivos do Instituto, quase comprometeu o lançamento do filme. Apesar de todos os percalços o longa foi lançado obtendo um estrondoso sucesso, o que despertou o interesse de Hollywood.

HOLLYWOOD

Cuarón chamou a atenção de produtores hollywoodianos como Sydney Pollack (1934-2008). O primeiro a convidá-lo para direção de um projeto. E mesmo com essa tentativa inicial de parceria tendo se mostrado frustrada, Alfonso decidiu se mudar para Los Angeles e mais tarde o próprio Pollack lhe faria outra oferta. Essa parceria lhe rendeu primeiro trabalho em solo americano ao dirigir um dos episódios da série Fallen Angels (1993). O que representou o primeiro encontro da parceria de sucesso que firmaria posteriormente com Alan Rickman (1946- 2016).

O divisor de águas em sua carreira foi a assinatura do contrato com a Warner Bros. Pictures. A ideia inicial do estúdio era que Cuarón trabalhasse em Addicted to Love (1997), com o elenco encabeçado pelos badalados Meg Ryan e Matthew Broderick. Porém bastou o roteiro de  A Princesinha (1995) chegar em suas mãos para ele saber que precisava fazer esse filme. E embora o longa não tenha sido um sucesso de bilheteira, recebeu muitos prêmios e até indicações ao Oscar. O que prova que os instintos de Alfonso estavam certos.

NOVO ESTÚDIO

Também firmou parceria com o estúdio 20th Century Fox, para dirigir a adaptação moderna do clássico de Charles Dickens, Great Expectations. Uma experiência tortuosa dada as indefinições com o roteiro. Em seu retorno ao México, Alfonso já era um diretor renomado marcado por suas experiências hollywoodianas. Trabalhou em obras como Y Tu Mamá También (2001), resultado da parceria com o Jorge Vergara que se tornou um dos maiores sucesso do cinema mexicano. Em termos de bilheteria, o maior êxito de sua carreira foi a adaptação do terceiro volume da saga de J.K Rowling, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004). Cuarón foi o responsável por implementar mudanças importantes na saga e que seriam mantida pelos diretores seguintes.

Seu currículo ainda conta com obras como Paris, Je t’aime (2005) e Filhos da Esperança (2006). Todavia, foi com o thriller espacial Gravidade (2013), que Alfonso enfim ganhou seu primeiro Oscar. O longa arrematou ao todo sete estatuetas, incluindo a de Melhor Diretor e de Melhor Montagem. Tornando-o o primeiro diretor latino americano a ganhar o prêmio. Seu nome ainda aparece em The Assassination of Richard Nixon (2004) e O Labirinto do Fauno de Guillermo del Toro, de quem é muito amigo.

HOJE EM DIA

No âmbito pessoal foi casado com a crítica de cinema, Annalisa Bugliani com quem tem dois filhos Tess Bu Cuarón e Olmo Teodoro Cuarón. De seu relacionamento anterior foi pai do também diretor Jonas Cuarón. Após seu filho caçula ser diagnosticado com autismo, decidiu parar de dirigir por algum tempo. Migrou para Londres, onde reside atualmente, e de lá tem idealizado seus novos projetos.

Com o semi-autobiográfico Roma, Alfonso tornou-se um dos cineastas latinos de maior prestígio na atualidade. Roma é uma das grandes apostas do Oscar este ano com um total de 10 indicações que inclui Melhor Filme Estrangeiro e também Melhor Filme. Uma proeza e tanto e que foi bem calculada por Alfonso ao optar vender a produção para a Netflix. Em entrevista no Globo de Ouro ele ressalta que era a única forma de um filme em preto e branco e num idioma que não fosse inglês alcançar muito espectadores. Já que é fato que raramente o público se interesse em ver um filme que não seja no seu idioma nativo.

Agora, com esse estrondoso sucesso, já é possível conferir Roma nas telas de alguns cinemas selecionados. A obra aborda sua infância e adolescência no México dos anos 1970 e conquistou a crítica que consolidou a obra como magistral e uma forte concorrente ao prêmio mais cobiçado do cinema mundial. Alfonso Cuarón ainda tem alguns projetos a serem lançados, mas não resta dúvidas de que seu nome está gravado para sempre nos anais da sétima arte.