OnBox: “Alias Grace” tem foco na jornada do narrador

Quando The Handmaid’s Tale estreou no começo do ano, ninguém poderia imaginar o sucesso. Agora, em Alias Grace, a Netflix aposta em outro conto da autora só com uma viés mais intimista.

Alias Grace é baseado num conto da Margaret Atwood publicado em 1996. Nele acompanhamos a jornada de Grace Marks (Sarah Gadon) condenada por assassinato e que aguarda julgamento na cadeia. Um grupo de pessoas, amigas do Governador local, se compadece da situação e decide chamar um médico, o Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft), para avaliar a moça e decidir a favor ou contra ela.

Aos poucos, o Dr. Jordan vai extraindo de Grace fatos da sua vida que ajudam a ilustrar como a jovem chegou naquele ponto da vida. E ela não mede as palavras. Com riqueza de detalhes, vai contando sobre sua vinda da Irlanda para o Canadá, o pai abusivo, a morte da mãe durante a viagem, seu primeiro emprego onde conhece a amiga Mary Whitney (Rebecca Liddiard) e o início de sua derrocada.

Alias Grace é dividido em 6 episódios e tem foco principal na jornada de Grace, a narradora. Cabe a ela conduzir o espectador pelas escolhas e pessoas que passaram por sua vida de modo que fica a dúvida se ela é inocente ou não. É um trabalho árduo de narração e que muito se assemelha ao que vemos em The Handmaid’s Tale. Provando que tal característica é marca da escrita de Margaret Atwood. Só que aqui, não existem tantos mistérios a serem revelados a não ser a própria Grace. É ela a responsável por prender a atenção do espectador do primeiro ao último episódio. A cada peça nova da história introduzida, ficamos sem saber se tudo isso é uma mentira contada por ela ou apenas a mais pura verdade.

Outro ponto muito forte na série é a amizade feminina. É através da amiga Mary que Grace tem pela primeira vez na vida a proteção de outra pessoa. Quando entende o que é confiar em alguém e que aquela pessoa vai estar sempre do seu lado. Por isso que o destino de Mary acaba por afetar bastante o futuro da personagem principal. Não que isso seja algo ruim, pelo contrário. Acrescenta mais e mais a essência de quem viria a ser Grace Marks. Pois é através dos ensinamentos de Mary que Grace baseia todo o seu relato para o Dr. Jordan que se perde diante a tarefa que lhe incumbiram.

Ele quer ajudar a salvar a moça da condenação, ao mesmo tempo que não consegue saber se acredita na sua inocência ou não. Se ela o está manipulando, medindo as palavras certas, falando o que ele quer ouvir. Nem nós temos como saber, pois a montagem da série mistura pontos diferentes do passado (narrados por Grace) como também o ponto de vista de outras pessoas em relação aos assassinatos (cúmplice e o testemunhas). O que faz com que Alias Grace passe a ser um grande livro narrado.

Para alguns, pode ser que esse tipo de linguagem venha a incomodar. Nem todos estão dispostos a ficar horas prestando atenção a uma história que parece não sair do lugar. Mas ela sai. Viaja por inúmeros espaços diferentes, só que todos eles são feitos através da visão de Grace Marks.

Melissa Andrade

Jornalista, Crítica de Cinema há mais de 10 anos, Podcaster, extremamente curiosa, com incontáveis pequenos conhecimentos em diversas áreas e Marvete com orgulho!