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OnBox: “Star Trek” – 1ª Temporada é melhor do que o esperado!

OnBox: “Star Trek” – 1ª Temporada é melhor do que o esperado!

gradeaO universo de Star Trek nunca foi algo que me chamou a atenção, porém, esteve mais presente dentro do meu espectro nerd do que Star Wars. Sempre achei a premissa de um mais interessante do que do outro e talvez por isso os filmes tenham um impacto maior para mim. Porém, nunca me passou pela cabeça assistir a série clássica tendo todos os pré-conceitos do mundo para tal. Realmente pensava que não iria conseguir desligar o botão de modernidade dentro de mim para consumir aquilo. E felizmente estava errada.

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Graças a Netflix decidi conferir a primeira temporada e foi uma surpresa atrás da outra. A começar pelo que todos temem, os cenários. Primeiro precisamos ter noção de que estamos falando de um seriado do final da década de 60 e que não possuía todos os recursos que temos hoje. Justamente por isso, tudo aquilo criado por Gene Roddenberry torna-se completamente plausível e aceitável para nós. É claro que há uma diferença gritante entre os cenários criados em estúdio, vide a superfície de alguns planetas, para aqueles utilizando locações reais. Dá para ver que as pedras, os arcos, as colunas, cavernas inteiras são feitas de isopor ou de qualquer outro material que fosse usado na época, mas nada disso tira o mérito da construção dos episódios e suas histórias. O que aliás é o ponto alto da série.

Quando conseguimos entender e aceitar toda a ambientação, fica fácil embarcar nesse universo e simpatizar com os personagens já conhecidos, mas não tão familiares para alguns.

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O episódio piloto da série pode ser considerado o teste final para saber se a pessoa vai conseguir assistir a série ou não. Lembrando que os personagens eram todos diferentes, com exceção do Spock que sempre foi interpretado por Leonard Nimoy. Com duração de um filme, o episódio gira em torno de uma missão quase mal sucedida da USS Enterprise liderada pelo Capitão Christopher Pike (que chega a aparecer no filme dirigido por J.J. Abrams). A nave recebe uma mensagem de socorro vinda do planeta Talos IV e acabam sendo pegos em uma armadilha, onde o Capitão Pike (Jeffrey Hunter) é capturado. A medida que os tripulantes da Enterprise tentam resgatar o Capitão, o mesmo precisa desvendar os mistérios envolvendo o inimigo e suas ilusões.

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Aqui é possível identificar o teor do que a série queria apresentar. Fala sobre manipulação da mente, desejos ocultos e se estamos aptos a encarar a realidade ou iríamos preferir viver num mundo de sonhos. E tudo muda no segundo episódio que resetou o elenco, mas não o conceito do seriado. Não há qualquer explicação de como James T. Kirk (William Shatner) chegou ao comando da nave ou como todos eles foram escolhidos para estar ali e não tem a menor importância. O que merece atenção são as histórias, as caracterizações dos personagens, elaboração do cenário e das engenhocas utilizadas por eles. Ora, o conceito do celular partiu do comunicador que usam na série!

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A cada episódio, com quase 1 hora de duração, vemos as aventuras da USS Enterprise pelos confins da galáxia, enfrentando os mais diversos dilemas e dificuldades em sua jornada. Não vá assistir esperando grandes cenas de ação porque são quase inexistentes. O ponto principal do seriado é estar a frente do seu tempo e abordar assuntos com a maior naturalidade possível e levantar debates sobre guerras, feminismo, existência humana, revolução industrial, preconceito, diferentes culturas, viagens no tempo, acordos de paz e por aí vai. A cadeia de comando criada é bem diversificada e tirando os postos do Kirk, Spock e McCoy (DeForest Kelley), os demais são bem rotativos e temos mulheres em posição de destaque e até mesmo homens de outras etnias como o próprio Sulu (George Takei) que é asiático e apresentado na série inicialmente como especialista em botânica, e não piloto. Aos poucos, conforme o seriado ganha forma, esses postos vão sendo estabelecidos e temos os nomes que conhecemos hoje como a Tenente Uhura (Nichelle Nichols) em Comunicação e Montgomery Scott (James Doohan) como chefe da Engenharia.

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E os personagens? Que são conhecidos, mas não tão conhecidos. Hã? Como assim?

Bem, sabemos quem são por causa dos novos filmes, mas pouco ou nada sabemos da sua história e sua essência, mesmo porque o universo dos filmes reside em uma linha alternativa do tempo e não é a mesma da série.

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Logo, poder acompanhar a interação entre Kirk e Spock e ver o nascer dessa amizade se torna algo incrível. O fato do Vulcano ter não apenas uma constituição física diferente dos humanos, mas principalmente se portar de outra maneira, ser ressaltado de modo positivo e descontraído e não pejorativo. Em alguns momentos Kirk e Bones tiram sarro de toda a lógica implícita nos diálogos de Spock, hora porque estão de saco cheio, hora porque estão ansiosos, nervosos, estressados ou mesmo para tentar extrair uma reação mais humana do Cientista. Todavia, em momento algum diminuem a capacidade intelectual do Primeiro Oficial e até recorrem a ele na maioria das missões. Spock é bem menos mecânico que outros shows e referências nos fazem imaginar que ele é. Já Kirk é o típico caubói do espaço, que manteve as botas sem as esporas. Uma pessoa extremamente fiel ao regulamento e mandamentos da Federação e que prega pela paz e boa convivência dos tripulantes da sua nave. Se encaixa no estereótipo de homem da época, bonitão e que sabe de suas qualidades, mas nem por isso fica se vangloriando de quem é, deixando que seu posto de Capitão fale por si. É uma pessoa emotiva e que esconde sua fragilidade atrás da cadeira de Capitão, como apontado no episódio “The Enemy Within” onde é dividido em dois após um problema no transporte da nave, tendo o Kirk mau e o bom circulando dentro da Enterprise. E o que falar do McCoy? O elo terrestre entre Spock e Kirk. É o Doutor o responsável por algumas das melhores falas da série e por situar os personagens em alguns episódios. Mesmo sendo médico, Bones faz questão de apontar outros problemas fora da medicina e faz as vezes de Psicólogo e confidente para o Kirk, que ignora a maioria das recomendações.

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A primeira temporada conta com 30 episódios que transitam entre mais leves até mais tensos, apresentando personagens importantes desse universo como Khan, Klingons e Romulanos. Além de abordar diversos assuntos relevantes e que acabam prendendo a atenção do espectador, fazendo-nos relevar homens vestidos de jacaré, cachorros fantasiados como outros animais, cenas de luta coreografadas que ameaçam derrubar parte do cenário, erros de continuidade e figurinos duvidosos. Nenhum desses erros conseguem estragar a experiência de acompanhar Star Trek em pleno século XXI. Palmas para Roddenberry.

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