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“Pantera Negra” [com spoilers]

“Pantera Negra” [com spoilers]

É o momento de analisar as minúcias de Pantera Negra. Caso tenha clicado aqui por engano, esse post vai conter spoilers. Tem uma outra crítica sem spoilers bem aqui.

Diferente do que todos pensaram, o filme não começa no mesmo ponto deixado em Guerra Civil. Logo, não esperem aparição do Capitão América (Chris Evans) porque não tem. Bom tirar o elefante da sala e avisar que também não tem qualquer menção a uma joia do infinito. O filme tem como foco principal a construção desse novo universo e a apresentação melhor desse personagem. Portanto, é exatamente isso o que entrega ao público.

Antes de vermos Wakanda, somos levados para os Estados Unidos quando o Rei T’Chaka (John Kani) ainda era o Pantera. Ele foi ao encontro de seu irmão (Sterling K. Brown) que está infiltrado pelos Cães de Guerra [serviço de inteligência de Wakanda] a fim de coletar informações sobre o roubo de vibranium que aconteceu recentemente. Para a surpresa do Rei, seu irmão é o grande culpado, pois acabou se envolvendo demais com os problemas locais. Acaba tendo que tomar uma atitude drástica a fim de prevenir que ninguém descubra sobre Wakanda.

Anos na frente temos o incidente nas Nações Unidas que causou a morte de T’Chaka, toda a guerra civil entre os heróis e T’Challa (Chadwick Boseman) sendo obrigado a assumir o lugar do pai. Só que antes disso é preciso atender as solenidades e ritos e ele precisa encontrar uma pessoa: Nakia (Lupita Nyong’o). Amparado por Okoye (Danai Gurira) a general do Dora Milaje [segurança real] interpelam comboios de tráfico humano e é a primeira vez que vemos o Pantera em ação no seu próprio território. Furtivo, ele se esgueira entre as árvores e caminha nas sombras sem alertar os bandidos. Só que estraga o disfarce de Nakia que estava infiltrada nessa operação. Ele então a informa que seu pai havia falecido e que ela precisa voltar para casa.

Porque Nakia não é apenas a ex-namorada de T’Challa como descobrimos mais a frente. Ela é também filha de um dos chefes tribais de Wakanda e que poderia disputar o trono caso quisesse. Como é o esperado, T’Challa precisa provar ser digno de se unir a Bast. E na frente de todos, despido de seus poderes, espera ser desafiado. Todos os demais chefes tribais o aceitam como Rei. Menos a tribo Jabari que vive nos arredores de Wakanda. Ele então é desafiado pelo líder M’Baku (Winston Duke) e quase perde a luta. Porém, numa reviravolta, consegue render o oponente e lhe poupa a vida. O que viria a calhar bem mais a frente no longa.

Agora no posto de soberano de Wakanda, precisa se conectar aos reis e rainhas do passado e é impossível não lembrar de Rei Leão nesse momento. Ao ingerir a erva e ser levado para outro mundo, T’Challa caminha por uma planície que muito se assemelha a da animação da Disney quando Rafiki lembra a Simba quem ele é. Aqui, T’Challa apesar de ver os outros panteras nesta árvore, só se conecta com o próprio Pai e tenta retirar dele algum caminho claro a seguir. Pede desculpas por não ter conseguido protegê-lo naquele momento, mas o Pai lhe acalma e assegura que o filho vai saber o que fazer. Assim como Simba que precisou seguir os passos de Mufasa.

Longe dali, em Londres, um rapaz (Michael B. Jordan) olha artefatos históricos na vitrine de um museu. Vigiado de perto por alguns seguranças ele espera pela curadora do museu como requisitado. A jovem chega e ele prontamente lhe faz uma série de perguntas sobre o que estão vendo, as quais ela responde. Ele então a corrige dizendo que na verdade todos os artefatos ali foram roubados e são de Wakanda. A moça nada entende ao passo que as palavras dele se tornam mais ríspidas. Os seguranças forma um círculo ao redor deles e ele diz que desde que entrou ali eles o estavam seguindo como se ele fosse fazer algo ruim. Isso é só o começo para a sagacidade de alguns diálogos que vão ilustrar comportamentos enraizados da sociedade.

Com o auxílio de Ulysses Klaue (Andy Serkis) eles detonam o lugar, derrubam os seguranças e fogem carregando alguns dos artefatos que são de vibranium. De volta a Wakanda, T’Challa descobre através de Okoye que Klaue pretende vender o vibranium para o mercado negro e por em risco a origem do metal. Eles então decidem capturar o mercenário de uma vez por todas, mas não sem antes passar por um upgrade pelas mãos de Shuri (Letitia Wright).

A garota é a responsável por modernizar grande parte da nação de Wakanda incluindo até o traje do Pantera Negra que agora absorve a energia dos golpes e pode dispersá-la no inimigo. Shuri apresenta duas versões do traje ao irmão que prefere ficar com a versão em prata. Ela é a típica princesa moderna que não quer atender as necessidades do trono, mas sabe bem qual é o seu papel nessa monarquia. Ver sua interação com T’Challa é assistir a dois irmãos conversando. Eles implicam um com o outro, pregam peças, contam piadas e possuem aquela conexão singular como família. É tão natural que parece mesmo que eles são irmãos. Como deveria ser. Fora que Shuri é mais uma construção de mulher independente a qual sempre precisamos. Não é porque ela é a irmã do Rei que fica confinada a certos deveres. Não. Aqui ela é a chefe de engenharia, que supervisiona e desenvolve diversos projetos de melhorias de Wakanda. Não é uma posição pequena e ela só responde a ela mesma. Quando não precisa responder a sua mãe e irmão, claro. Ela é uma das muitas representações de mulheres negras fortes que vamos ter em Pantera Negra.

T’Challa, Okoye e Nakia partem para a Coréia do Sul. Graças aos contatos de Nakia que é quase uma espécie de espiã internacional, descobrem o local da venda. No casino clandestino T’Challa avista um rosto conhecido: agente Ross (Martin Freeman). O americano está lá pela mesma razão. Na verdade, é ele o contato de Klaue para a compra do vibranium. Enquanto os dois conversam e tentam chegar a um acordo, o mercenário chega escoltado. Okoye e Nakia tentam passar despercebidas, mas não funciona. Não demora para uma pequena guerra estourar no local e que se move para as ruas da cidade. A perseguição se arrasta por alguns minutos, com a introdução do novo traje e também das habilidades de outros personagens e Klaue é enfim capturado.

O agente Ross continua no escuro em relação ao que está acontecendo. Quem é de fato T’Challa e esse mercenário? Algo que Klaue está muito feliz em responder e começa a contar tudo sobre a nação de Wakanda. Ao passo que o agente não acredita em uma vírgula, mas não tem tempo de coletar mais informações, pois são atacados. Klaue é liberto e o agente Ross fica gravemente ferido ao tentar proteger Nakia. A única solução é levá-lo para Wakanda, só a tecnologia de lá vai poder ajudá-lo. Os três e o agente Ross voltam para Wakanda e T’Challa entrega o agente para sua irmã que vai saber o que fazer. Nesse meio tempo Klaue e Erik chegam até os limites de Wakanda, nação a qual Klaue foi expulso e deseja muito retornar. Só que Erik possui outros planos. Ele persegue e mata o mercenário a fim de conseguir um salvo conduto. E ele consegue.

É nesse ponto que Pantera Negra começa a se misturar com Game of Thrones, pois todos os acontecimentos foram friamente calculados por Erik Killmonger, que é reconhecido por Ross. O agente informa que ele efetuou vários trabalhos para a CIA e que a especialidade dele é desestabilizar países e nações. Na sala do trono, de frente para os chefes tribais e o próprio T’Challa o preso é interrogado sobre suas intenções e é direto: ele quer o lugar de T’Challa. Todos os presentes acham o pedido um absurdo, mas T’Challa sabe que tem fundamento. Erik não é um qualquer, ele é seu primo. Anos atrás quando seu pai visitou o irmão, deixou para trás alguém que iria buscar vingança. E esse alguém é Erik, por isso, ele é impelido a acatar o pedido. Não há o que fazer. Durante a luta, sem os poderes de pantera e bastante confuso, T’Challa é subjugado por Erik e gravemente machucado. O usurpador ganha a luta e atira o corpo do primo na cachoeira, restando a Ramonda e Shuri fugir. Nakia as escolta até os arredores de Wakanda deixando Okoye e a Dora Milaje para trás que são obrigadas a cumprir seu papel e servir ao novo Rei.

Okoye está com os pés e mãos atados, mas tenta fazer o seu melhor, só que Erik não quer ouvir ninguém. Ele quer que todos os membros dos Cães de Guerra recebam armamentos de Wakanda e comecem uma guerra interna nos países os quais estão infiltrados. Ele quer que os recursos sejam melhores utilizados a fim de prover segurança e poder aos seus irmãos pelo mundo. Algo que vai contra a crença em Wakanda que por anos sempre se manteve isolada e aquém dos problemas do mundo. Temem que sua nação seja alvo de outras pessoas e não mais possam viver em paz. Mas, para Erik, se isolar sentados em cima de uma fortuna em armamento é o mesmo que ficar do lado dos opressores.

Felizmente T’Challa ainda está vivo. Bem… quase. Seu corpo foi recuperado por pescadores da tribo Jabari e conservado em gelo. Nakia consegue roubar uma última erva antes de Erik queimar tudo e lhe devolve os poderes de pantera. Mas, antes disso, ele tem a oportunidade de conversar com o espírito do pai mais uma vez e questionar sobre seu tio e o primo. Aprendendo assim que ele não pode ser como o pai e que todos possuem falhas. Diferente de Erik que ao tomar a erva e encontrar o Pai, sente que ainda está no caminho certo, já que para ele não há outro.

Nesse ponto é possível ver que ambos os personagens são o reflexo um do outro. E tal qual o reflexo eles são invertidos. T’Challa estava preocupado em ter que seguir os passos do pai, sem saber se era o correto, enquanto Erik nunca cogitou fazer outra coisa. Sua ideia de expor Wakanda para o mundo é radical, mas tem fundamento. Por que ficar isolado sem fazer nada enquanto milhares sofrem? Só que há maneiras e maneiras de fazer as coisas. E T’Challa tenta a todo custo estabelecer um diálogo, mas é em vão. E assim a guerra interna explode em Wakanda, tal qual ocorre em alguns momentos na série da HBO.

É chegada a hora de vermos a Dora Milaje em ação e elas não decepcionam. Se movem quase que como um elemento só, um núcleo e se defendem da mesma forma. As habilidades de Nakia e Shuri também não ficam atrás. Transformando essa cena num espetáculo a parte onde vemos uma luta entre guerreiros tribais, o que difere dos demais filmes desse universo. Fora os elementos tecnológicos os quais não esperamos como os mantos que se tornam escudos. Uma roupa em Wakanda não é só uma roupa, tem sempre outra função. Mas o Killmonger é bem forte e só quem é páreo para ele é o Pantera Negra.

O embate entre os dois não é dos melhores, mas o ponto aqui sempre foi outro. É mais uma questão política e filosófica do que força bruta. Quando Killmonger derrotou T’Challa ele conseguiu espaço para impor seus ideais dentro de Wakanda, já que T’Challa estava tentando preencher o papel do Pai e não dele próprio. Logo, Erik tinha mais convicção e dessa forma foi superior ao primo na primeira luta que ainda estava tentando lidar internamente com a decepção ao descobrir o que seu pai fez. Depois que reencontrou T’Chaka e descobriu que todos possuem falhas e que ele deve ser o próprio Rei, sua força mudou. Ele agora luta por um ideal próprio, além de querer proteger sua família e também Wakanda. Passou a ser uma questão de direitos e sim de ideologia. Por fim, Killmonger é derrotado, a tribo da fronteira se rende e Wakanda está pronta para uma nova era.

Essa nova era é introduzida na primeira cena pós-créditos com T’Challa, Okoye e Nakia numa reunião da ONU, a qual o Rei avisa que a partir de agora eles vão ajudar outros países em crise com seus recursos. O que espanta a todos os presentes que acreditam que Wakanda é uma nação de fazendeiros. De volta ao local do início do filme, na quadra de basquete, T’Challa anuncia a Shuri que vão construir diversos centros a fim de ajudar os jovens da comunidade local a terem uma oportunidade de vida melhor.

Já a segunda cena pós-crédito vemos um vilarejo remoto, creio que em Wakanda, onde crianças zombam de uma pessoa. Shuri pede que elas não o perturbem e então Bucky sai de uma das tendas, sem o braço e com um penteado similar ao do Thor. A jovem o chama de Sargento Barnes e pergunta como ele está, e ele pede para ser chamado de Bucky. Ao que tudo indica, tal qual consertou a coluna do agente Ross, Shuri deve estar trabalhando para limpar a mente do Bucky do projeto do Soldado Invernal. E, talvez por isso, seja para lá que o Capitão e demais fugitivos vão a fim de lutar contra o Thanos em Guerra Infinita.