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“Pantera Negra” [sem spoilers]

“Pantera Negra” [sem spoilers]

Nós conhecemos o Pantera Negra lá em Guerra Civil. O vimos perder o pai de forma violenta e lutar lado a lado com alguns Vingadores. Todavia, nada sabemos sobre seu lugar de origem e o que reserva o futuro para o Rei. E é isso que seu filme solo apresenta ao público.

Pantera Negra pode ser visto como um filme de origem, pois explica de onde vem o poder de T’Challa (Chadwick Boseman) e como funciona exatamente. Ainda que tenha vestido o manto para lutar, não havia ainda passado pelos ritos de seu povo que são necessários devido a tradição. Depois da provação da luta, quando é despido dos poderes e enfrenta duelos, chega o momento de ser reconhecido oficialmente como Rei e soberano de Wakanda. Porém, não faz ideia de quais são seus próximos passos.

Ao ter um pai (John Kani) muito presente e até então, um Rei muito respeitado, T’Challa teme não chegar aos pés dele como soberano e se vê numa encruzilhada entre modernizar (ainda mais) a situação política em Wakanda ou seguir o mesmo caminho que T’Chaka. É quase impossível não comparar a relação de T’Challa e o pai com a de Simba e Mufasa. O cenário do encontro é deveras similar ao da animação da Disney, como também o dilema que ambos os personagens enfrentam. Qual é o melhor caminho a seguir quando se está preenchendo uma posição importante dentro de um reino? Onde milhares de pessoas contam que você vá fazer as escolhas certas e não desapontá-las. Além de ser inevitável a comparação ao Rei anterior.

Sem esquecer de mencionar que Wakanda, que é vista pelo mundo como uma nação de fazendeiros, possui uma grande fonte de riqueza: o vibranium. Por que não partilhar isso com o mundo e ajudar aqueles em necessidade? É nesse ponto que começa o embate filosófico e político de Pantera Negra, como não podia deixar de ser.

Preso nesse dilema moral, T’Challa acaba se colocando numa posição vulnerável ao não tomar decisões sólidas. Sorte a sua por ter por perto pessoas tão dedicadas à ele como Okoye (Danai Gurira) a general do Dora Milaje, Nakia (Lupita Nyong’o), Shuri (Letitia Wright) que é sua irmã e a rainha-mãe Ramonda (Angela Bassett). Esse grupo de mulheres determinadas auxilia bastante a construir o personagem do Pantera Negra que diferente dos demais heróis do MCU, não funciona tão bem fora desse rico universo. Sem contar a história de Wakanda, seria quase impossível contar a história do Pantera Negra quando um está ligado ao outro.

A começar pela relação do trio principal Okoye, Nakia e T’Challa. As duas conversam com ele de igual para igual, sendo honestas e diretas, mas sem perder o respeito pelo Rei. E essa aproximação contribui para o desenvolvimento deles enquanto núcleo, fazendo até com que o público dê uma risada ou outra dos conselhos de Okoye. A interação flui em todas as cenas, passando da ação para o drama e até um pouco de suspense, sem perder a intensidade ou interesse do público.

O mesmo pode ser dito das cenas de T’Challa e Shuri que dialogam e agem como dois irmãos fariam. As brincadeiras, as pegadinhas, a preocupação, tudo corre de maneira natural e é bastante crível. Letitia Wright é uma das gratas surpresas de Pantera Negra que entrega uma atuação simples e honesta como deveria ser no papel de uma princesa adolescente que por acaso também é a engenheira de Wakanda. Coube a ela o papel de cientista aqui, quando nos quadrinhos (até dado momento) era a função de T’Challa. Essas relações descritas acima não se abalam nem com a chegada de Erik Killmonger (Michael B. Jordan) que ameaça o trono do Pantera.

O rival é uma imagem refletida do próprio T’Challa. Porém com propósitos claros e estratégias traçadas, algo que chama a atenção de alguns líderes tribais. Killmonger apresenta uma outra visão para Wakanda. Aquela a qual o então Rei vem travando uma batalha interna. Michael B. Jordan se destaca no papel de vilão e há um claro empenho de sua parte para tal. Há esse ar de mistério em torno do personagem que chama a atenção e é bem trabalhado pelo ator.

O embate entre ele e T’Challa acaba sendo mais no campo político do que no físico. Sim, há um combate direto, mas o ponto principal não é esse. Toda a atmosfera de Pantera Negra reside no lado político de Wakanda e o que eles podem ou não fazer com o vibranium. Por isso apresentar essa nação é tão crucial para que o público entenda melhor o protagonista e a trama. E Ryan Coogler não poupou esforços na construção de Wakanda que esbanja cultura africana. Desde as cores da fotografia, até o cenário que mistura savanas, florestas com o tecnológico, passando pelos figurinos e penteados e indo parar numa trilha sonora ímpar que mescla hip-hop e rap com ritmos africanos. Por isso Pantera Negra é tão importante.

Triunfa não apenas no quesito filme de super heróis, sendo bem diferente de tudo que vimos até agora, mas também em mostrar ao público que é sim possível fazer filmes com atores negros sem a necessidade de estereotipá-los. Vida longa ao Rei!

OBS: O filme contém 2 cenas pós-créditos então não saia do cinema antes da hora!

Ficha Técnica
Diretor: Ryan Coogler
Roteiro: Ryan Coogler, Joe Robert Cole 
Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Danai Gurira, Lupita Nyong'o, Angela Bassett, Letitia Wright, Forrest Whitaker, Sterling K. Brown, John Kani, Andy Serkis, Martin Freeman, Daniel Kaluuya, Florence Kasumba, David S. Lee, Winston Duke, Denzel Whitaker
Duração: 2h14min