Share
A prosa de Baldwin em “Se a Rua Beale Falasse”

A prosa de Baldwin em “Se a Rua Beale Falasse”

O escritor James Baldwin, falecido em dezembro de 1987, estava à frente de seu tempo. Conseguia transformar a realidade do negro americano em prosas tangíveis a ponto de mostrar ao mundo o que significava ser negro nos Estados Unidos. As suas palavras e visão expressiva são atemporais que tornaram-se filmes. Primeiro foi o documentário Eu Não Sou Seu Negro, que concorreu ao Oscar em 2017, onde Baldwin escreveu sobre os assassinatos de três pessoas próximas a ele: Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King, Jr.

E agora, nas mãos do talentoso Barry Jenkins, responsável por Moonlight: Sob a Luz do Luar, temos outra prosa de James Baldwin transformada em filme, Se a Rua Beale Falasse.

O longa que concorre a três estatuetas do Oscar 2019 – incluindo de Melhor Filme – narra de maneira não linear o romance entre Tish (KiKi Layne) e Fonny (Stephan James). Dois jovens negros que são vítimas do racismo e veem sua vida de casal mudar por completo antes mesmo de começar. Se a Rua Beale Falasse abusa da prosa de James Baldwin para elucidar as dificuldades na vida do jovem casal que é obrigado a se separar quando Fonny é preso injustamente. Com um sistema judiciário falho e sem provas, resta a Tish viver das lembranças do que foram um dia. Tudo isso enquanto está grávida do primeiro filho.

A narrativa não vive apenas dos diálogos do casal principal. Outros personagens, como a família de Fonny, a mãe de Tish e até amigos do casal são parte essencial que ajudam a construir a trama. Através do olhar de cada um é possível para o espectador entender melhor a atmosfera do momento e como vivem essas pessoas. As razões que os fazem tão amargurados ou deixados de lado pela sociedade.

Como acabam fazendo o que não querem para sobreviver. Como são marcados por uma sociedade racista que os estereotipa. Como entendem que não podem lutar, pois a batalha talvez já esteja perdida. Como o apoio uns dos outros é fundamental para seguir em frente. Como as vezes desistir é a solução mais correta.

Se a Rua Beale Falasse possui um ritmo vagaroso, quase morno e uma narração suave que cativa o espectador desde o primeiro minuto. É quase como acompanhar um audio livro e vivenciar as emoções com os personagens. A trilha sonora, a fotografia, o figurino são um caso a parte. A dupla de atores novatos sabe levar bem a história e evoluem quando necessário, cada um da sua maneira. Regina King tem seu momento e com uma voz calma e um olha ferino entrega tudo na cena que lhe rendeu uma indicação ao Oscar.

Muito mais do que um filme para ser visto, Se a Rua Beale Falasse é um filme para ser sentido. A rua Beale é um personagem marcante e todos que por ela passam deixam a sua marca. James Baldwin teria ficado orgulhoso.

Ficha Técnica
Diretor: Barry Jenkins
Roteiro: Barry Jenkins
Elenco: KiKi Layne, Stephan James, Regina King, Colman Domingo, Teyonah Parris, Michael Beach, Aunjanue Ellis, Ebony Obsidian, Dominique Thorne, Diego Luna, Finn Wittrock, Ed Skrein, Emily Rios, Pedro Pascal, Brian Tyree Henry
Duração: 1h59min 
Estreia: 7 de fevereiro