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Na Estante: “A Garota no Trem” de Paula Hawkins

Na Estante: “A Garota no Trem” de Paula Hawkins

São poucos os livros que possuem de fato uma narrativa diferente e interessante. Não que isso classifique-os como ruins, mas parece que os autores se prenderam a um jeito tradicional e não gostam de sair muito dele. Felizmente, de tempos em tempos, aparecem autores como Hawkins que tenta fazer algo novo e se dá muito bem.

a-garota-no-tremRachel ama trens. Na verdade, é a única constante em sua vida desde que se divorciou de Tom e foi morar com a antiga amiga de faculdade. Além do mais, ela precisa sair de casa todos os dias e fingir que ainda trabalha e não foi demitida por ter chegado três horas depois do horário de almoço e completamente bêbada. Pois é, Rachel é alcoólatra, ainda que tenha dificuldades em admitir isso. Não passa mais de três dias sem beber e com isso tem afundado mais e mais sua vida tanto pessoal quanto profissional. Ela ainda manda mensagens e faz ligações para o ex, por quem continua apaixonada, e isso tem atrapalhado a vida de Tom que casou com Anna e juntos tem uma filha pequena. Acontece que há mais nessa história do que um simples divórcio e Rachel não consegue aceitar o fato de que foi trocada por outra. Por isso sua diversão é observar através da janela do trem o casal Jess e Jason que moram na mesma rua na qual ela costumava morar. Rachel criou nomes e uma vida para o casal sem sequer conhecê-los de verdade. Porém, tudo muda quando a foto de Jess – que se chama Megan – aparece no jornal como pessoa desaparecida e ela pode ter pistas sobre o paradeiro da moça. Porém, seu histórico de alcoolismo fará com que ela perca credibilidade perante a polícia, deixando-a sozinha para investigar o mistério.

Com uma narrativa não-linear Hawkins consegue deixar o leitor confuso até certo ponto. Há três narrativas e pontos de vista diferentes que se intercalam para, por fim, contar a mesma história. Contrariando o que conhecemos a protagonista é fraca e completamente sem jeito para detetive. Não tem nada daquilo de achar pistas e montar sozinha um quebra-cabeça para depois esfregar na cara da polícia. É exatamente o contrário e Rachel precisa da ajuda de terceiros para fazer isso já que sofreu uma amnésia alcoólica no exato dia em que Megan desapareceu. Ela possui apenas fragmentos de memórias, mas não consegue com que façam sentido. E é aonde mora o trunfo da autora, essa fragilidade da personagem que a torna extremamente vulnerável aos acontecimentos a sua volta.

Não apenas isso, Hawkins também explora o estigma do alcoolismo e como existem variáveis de cada história e pessoa. Nesse ponto Rachel acaba sendo duplamente uma vítima, mas não irei estragar mais a trama.

A Garota no Trem é um thriller viciante e um pouco previsível. Felizmente, descobrir quem é o culpado pelo desaparecimento de Megan não é o ponto chave da história.