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Review: A redenção de Hugh Jackman em ‘Logan’

Review: A redenção de Hugh Jackman em ‘Logan’

Certa vez li um depoimento do veterano ator brasileiro Ney Latorraca que afirmava não haver diferença entre o sucesso e o fracasso, tendo ambos o mesmo peso na carreira de um ator. Tais adjetivos eram impostos por terceiros e que para todo ator a experiência era sempre o mais importante. Que o diga Hugh Jackman que viveu por 17 anos o mesmo papel do mutante com garras de adamantium e encara agora sua nona e última participação na pele de Logan.

Situado num futuro onde há mais de 25 anos não nasce novos mutantes, Wolverine não é mais o mesmo. Vive seus dias como um amargurado motorista de limousine a fim de juntar dinheiro, comprar um barco e partir dessa terra de ninguém com um Charles Xavier (Patrick Stewart) bastante doente. Quando uma criança cruza o caminho deles e demonstra ter os mesmos poderes que Logan, Charles insiste para que eles ajudem a menina a fim de se redimirem um pouco de problemas causados no passado e ter o gosto de ser, pela última vez, um X-Men novamente e oferecer auxílio a quem necessita. A princípio Logan resiste a ideia, porém acata o pedido de Xavier sem saber o que terá que enfrentar pelo caminho. Bem debilitado e sem seu fator de cura terá que confiar nos instintos da pequena Laura (Dafne Keen) se quiser sobreviver até o fim dessa missão.

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Durante todo o tempo em que esteve na pele do mutante, Jackman teve que ouvir críticas e mais críticas por parte dos fãs sobre como deveria ser na verdade um filme dos X-Men, o grupo de mutantes mais famoso dos quadrinhos da Marvel e que possui uma legião fervorosa de adoradores. O que os mesmos falharam em reconhecer é que a culpa para o fracasso ou o desapontamento para com os filmes e suas histórias não é e nem nunca fui culpa de Jackman ou dos demais membros do elenco, como pontuado acima. O problema residia na visão daqueles que estavam transpassando as histórias das páginas para as telas e que acabaram por falhar em diversos momentos para a frustração dos espectadores. Talvez por isso Jackman tenha decidido permanecer com o personagem por tanto tempo, a fim de que alguém como James Mangold conseguisse dar a rendição que Logan necessitava, tal qual o próprio ator.

Logan não apenas obtém sucesso ao apresentar o Wolverine como gostaríamos que fosse desde o início, como também pode ser considerado a melhor adaptação de uma história de quadrinhos feita até hoje. E não me refiro aquela na qual é baseado (Old Man Logan), mas sim sobre a visão singular de Mangold que soube exatamente o que deveria ser feito com o personagem e, principalmente, o que os fãs queriam ver como um último filme do Carcaju.

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Temos aqui uma produção meticulosamente elaborada, desde a impecável direção de fotografia que ajuda a dar o tom certo a história, tal qual situar o espectador sobre o tempo em que a mesma ocorre, indo até aos enquadramentos pontuais que emulam as fotografias tiradas e publicadas nas redes sociais pelo próprio Mangold, que chega a lembrar quadros das páginas da revista em alguns momentos, passando pelo roteiro também criado pelo diretor e desenvolvido por Scott Frank e que por fim culmina nas cenas de ação, um dos pontos mais altos do filme. É hora de vermos o Wolverine como ele foi concebido originalmente, uma máquina de matar, sem freios e que não mede esforços para derrubar o seu adversário seja inteiro ou em pedaços. Algo que não chegamos a ver nos outros filmes devido a inúmeras questões que não serão abordadas nessa crítica. Contudo, James Mangold achou que era o momento de conseguirmos enxergar realmente o Wolverine ou quem deveria ter sido no passado, dando assim mais sentido ao seu apego e admiração com o próprio Xavier nesse filme e, criando também, um contraponto para a aparição de Laura que é tudo o que o mutante foi no auge dos seus poderes. É a chance de Logan conseguir se ver através das atitudes de outra pessoa e entender melhor como era visto pelo mundo e tornar-se aquele que Xavier acreditava que podia ser.

De uma certa forma, Logan demorou 17 anos para chegar aos cinemas, todavia, foi uma espera mais do que necessária para que o personagem finalmente ganhasse um filme a sua altura e também para que Hugh Jackman fizesse sua despedida com louvor e a sensação de dever cumprido.