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Review: ‘Lion – Uma Jornada Para Casa’ emociona mesmo com falhas

Review: ‘Lion – Uma Jornada Para Casa’ emociona mesmo com falhas

gradebQuem nunca ouviu da boca de um adulto a expressão “criança cega as pessoas” não sabe o que significa. Em poucas palavras quer dizer que não podemos tirar os olhos de qualquer criança, pois basta um segundo para que algo ruim aconteça, como no caso do menino Saroo retratado em Lion – Uma Jornada Para Casa.

Na primeira metade do longa vemos que o pequeno Saroo (Sunny Pawar) de cinco anos que é morador de uma região miserável na Índia e costuma se aventurar com o irmão Guddu (Abhishek Bharate) pelas longas linhas de trem que cortam o município a fim de garantir bens que possam vender no mercado e assim prover leite e outros alimentos para sua humilde família. Numa noite em que Guddu consegue um trabalho noturno Saroo insiste em acompanhar o irmão mesmo sendo tarde da noite. O jovem se comovo com a determinação do irmão mais novo e decide levá-lo, mas ele adormece no caminho e então Guddu deixa o dormindo no banco da plataforma de trem. Quando o inquieto Saroo acorda e não encontra o irmão, começa a procurar e acaba ficando dentro de um vagão de trem e cai no sono. Ao acordar, o trem está em movimento e o levando para muitos quilômetros longe de casa.

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Depois de vagar por meses pelas ruas de Calcutá e fugir de inúmeros perigos e aproveitadores, a criança acaba indo parar em um orfanato e é eventualmente adotado por um casal de australianos. Tal acontecimento normalmente significaria o desfecho dessa história, mas não é o que caso do pequeno Saroo. Entretanto, ao dividir o filme em duas linhas de narrativa, faz com que uma parte não dialogue com a outra e há uma quebra no ritmo deixando o espectador meio incomodado.

Se na primeira metade tínhamos um adorável Sunny Pawar que conseguiu nos prender com um olhar meloso e poucas palavras, na outra metade temos um determinado e soturno Dev Patel que começa sua busca através de uma memória perdida e decide se fechar para o mundo, culpando inclusive a namorada (Rooney Mara) de atrapalhar seu progresso por não entender o quanto ele estava sofrendo. Aqui o diretor quis passar a angústia de um homem que aos vinte e poucos anos de idade descobre não ser quem pensava que era ou pior, de ter mentido para si mesmo durante tanto tempo a fim de criar uma nova identidade. É nesse ponto que Lion – Uma Jornada Para Casa começa a perder o interesse do espectador. Não pela atuação de Patel, que está bem emocionante, mas sim por elementos externos que não contribuem diretamente para com a busca de Saroo prolongando o filme de maneira desnecessária.

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Um desses elementos é apresentar com detalhes a relação conturbada de Mantosh, o outro filho adotivo, para com os pais e até mesmo com o próprio Saroo. Tais cenas não acrescentam em nada na trama a não ser para construir um paralelo ao espectador de um homem que vive preso ao passado e outro que sem saber esteve se escondendo dele. Essa necessidade de mostrar o quão problemático é o Mantosh serve apenas para ilustrar ao espectador a mudança no protagonista quando por fim passa a lembrar de sua infância. O que não precisava ser feito, pois fica nítido a confusão na qual Saroo se encontra ao descobrir que esteve mentindo para ele esse tempo todo, por esconder lá dentro de si uma verdade a qual ele não fazia ideia que existia. Tudo isso é colocado em palavras pelo próprio ao dialogar com a namorada e tentar explicar o vazio que sente dentro de si agora. Não sabemos se o mesmo aconteceu com Mantosh ou se sempre foi uma criança com problemas. O que dá para identificar é que há uma repetição de padrões que não são explicados, logo, não podem ser usados como meios de comparação.

Justamente por isso que uma parte do filme acaba não se conectando a outra, pois o que foi muito bem feito graças a inocência de uma criança, corre o risco de desmoronar na outra metade e que é salva apenas por um final emocionante ao lembrar o espectador que nem toda história de separação tem final triste.

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