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Review: ‘Manchester à Beira Mar’ rompe com o formato habitual de narração

Review: ‘Manchester à Beira Mar’ rompe com o formato habitual de narração

gradebmaisOs escritores asiáticos, em sua maioria, como Murakami, possuem uma forma muito particular de contar uma história. Não tem o hábito de se prender ao estilo padrão da narrativa como conhecemos com um princípio, meio, desenvolvimento e fim. Não. Preferem fugir a esse molde e jogar o leitor no meio da história apresentando apenas fatos relevantes que venham a ilustrar aquele pedaço em específico. Creio que Kennerth Lonergan teve a mesma inspiração na hora de escrever o roteiro de Manchester à Beira Mar.

Começamos o longa seguindo o emburrado Zelador/Faz-Tudo Lee que é vivido pelo ator Casey Affleck. Entre desentupir privadas, raspar a neve do chão e outros serviços de manutenção do prédio, Lee não esboça o menor sorriso e é até grosso com alguns inquilinos. Não fazemos ideia do porque de tanto mal humor e ainda assim o personagem intriga. Em alguns minutos de filme Lee recebe a informação de que seu único irmão havia falecido e é então que a história começa a tomar forma e colocar o espectador num rumo que talvez jogue alguma luz na cerne do personagem principal que até esse momento é um verdadeiro mistério.

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Manchester à Beira Mar não tem um tema feliz, ainda que foque no sentido de família, e tampouco possui tal pretensão. Ao lidar com sentimentos como perda, rancor, mágoa e culpa tenta ao máximo mostrar que a vida nem sempre é como imaginamos e que muitas vezes temos que aprender a lidar com os acontecimentos como der e não como esperam que a gente aja. A exata luta de Lee ao ter que aceitar que ficou com a guarda do sobrinho e tentar atender ao último desejo do irmão. Voltar para aquela cidade lhe incomoda muito, pois os problemas pessoais que lá deixou continuam assombrando e isso prejudica qualquer tentativa de melhorar de vida e não mais repetir comportamentos destrutivos. Acontece que não é tão fácil assimilar certos sentimentos e isso é algo que permeia por todo o longa. Enquanto Lee tem dificuldade em entender os motivos do irmão, Patrick interpretado pelo estreante Lucas Hedge, faz de tudo para continuar vivendo sua adolescência de modo normal enquanto lida com as questões envolvendo a morte do pai, de quem era muito próximo. Juntos vão ter que encontrar uma maneira de consolidar as vontades de todos sem atropelar os próprios sentimentos.

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Tal qual Murakami, Lonergan faz com que o espectador transite apenas naquele pedaço da vida dos personagens, achando necessário introduzir em breves flashbacks casos do passado que nos ajudam a compreender melhor toda a situação, em especial a eterna amargura de Lee. O diretor e roteirista não tinha intenção de ir além disso ou de tentar transformar a história em um conto de superação, como tantos outros que vemos por aí no cinema. O principal era mostrar como precisamos nos manter fiéis a nós mesmos e entender quais são os nossos limites diante de situações estarrecedoras como morte na família e que demonstrar isso ou não para aqueles que estão ao nosso redor, depende única e exclusivamente de uma vontade nossa e de mais ninguém.

Manchester à Beira Mar é um filme sobre perda e culpa, porém, acima de tudo, é um filme que reflete sobre as interações sociais dentro de um círculo familiar e como o jeito de cada um interfere, mesmo que de modo não intencional, na vida do próximo.

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