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Review: O brilhantismo simplista de “Capitão Fantástico”

Review: O brilhantismo simplista de “Capitão Fantástico”

gradeamaisCostumava passar um programa no canal a cabo Discovery Home & Health chamado “Família Arrisca Tudo” que acompanhava a saga de três diferentes famílias dos Estados Unidos que tinham decidido, por diferentes razões, abandonar a vida na cidade e ir se refugiar no meio de florestas e campos. A ideia era começar do zero mesmo, erguendo casas, criando fossas, chuveiros, plantando a própria comida, caçando, e principalmente, sem energia elétrica. Todas as famílias tinham filhos e as crianças se viam obrigadas a embarcar, muitas vezes contrariadas, para essa aventura dos pais. O mesmo ocorre no longa Capitão Fantástico, escrito e dirigido por Matt Ross só que em outra proporção.

Viggo Mortensen é Ben Cash, um idealista e seguidor do Filósofo e humanitário Noam Chomsky que procurou passar ensinamentos pouco convencionais a seus seis filhos. Tudo isso enquanto moram em um acampamento no meio de uma floresta no Canadá. Ben treina os filhos diariamente, além de ensina-los dicas de sobrevivência na selva, caçar, plantar, defesa corporal e leituras diárias que precisam ser reportadas corretamente a fim de conseguir conceito. Eles tem vivido assim durante muito tempo até que a bolha rudimentar deles é estourada com a notícia do falecimento da mãe que estava muito doente e em tratamento. É então que as crianças convencem Ben a irem participar do funeral, mesmo com avisos contrários.

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Matt Ross soube captar muito bem essa realidade de pessoas que optam por abandonar o mundo urbano e viver como os antepassados, vivendo livremente e usufruindo daquilo que plantam e constroem com as próprias mãos. Entretanto, a abordagem filmográfica vai um pouco além e apresenta um pai austero, exigente, porém igualmente carinhoso e paciente. Numa tentativa de melhorar a vida dos filhos, Ben acaba impondo neles sua visão de mundo e com isso prejudicando os filhos, ainda que suas atitudes mostrem outra intenção final. As crianças são muito inteligentes, possuem habilidades únicas, assim como seus nomes, falam vários idiomas, sabem dialogar de modo assertivo ao apresentar conceitos filosóficos e racionais que muito adulto se complicaria para falar, porém, não possuem qualquer trato social. Ao privar os filhos de uma vida em sociedade, Ben os estava privando de aprender a lidar com o mundo e escolherem como gostariam de fazer isso.

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Isso fica muito claro quando decidem visitar a irmã de Ben e o jantar não sai como o esperado. Ben se recusa a mentir para as crianças, respondendo a todas as suas perguntas incluindo a clássica “de onde vem os bebês?” e até mesmo “o que é estupro?”. Não obstante as crianças sentem-se como peixes fora d’água naquele ambiente, mesmo sendo educados e gentis com todos, mas escondem a fim de não chatear o pai, com medo de perdê-lo tal qual fora com a mãe.

O diretor soube apresentar a temática de forma brilhante deixando claro todos os pontos positivos e negativos numa criação isolada do mundo e feita a partir do ponto de vista dos pais. Sem quaisquer distração eletrônica criou seis filhos muito inteligentes, curiosos, interessados nas mazelas do mundo, porém, sem trato social, com medo de serem rejeitados e, principalmente, sem uma mente aberta para tentar entender o porquê das pessoas viverem como vivem e gostarem de ser assim.

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Capitão Fantástico consegue ser estupendo em toda sua simplicidade e ainda contar com atuações ótimas tanto por parte do elenco mirim como também dos veteranos, exaltando Viggo Mortensen e George MacKay, que contribuíram para transformar esse título em uma pérola do cinema independente.

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