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Review: O caráter teatral de ‘Um Limite Entre Nós’

Review: O caráter teatral de ‘Um Limite Entre Nós’

August Wilson não é muito conhecido aqui no Brasil, mas seu nome é famoso nos Estados Unidos e ecoa pelas coxias dos teatros do país. Dramaturgo já falecido, ganhou dois prêmios Pulitzer, possui mais de dez peças escritas sendo que todas elas giram em torno da vida do afro-americano. Fences que chega nos cinemas brasileiros como Um Limite Entre Nós, traz Denzel Washington e Viola Davis nos papéis principais.

Situada na década de 50 o longa gira em torno de uma família de classe baixa na Filadélfia que possui uma figura paterna muito presente e autoritária, não dando espaço para que outras vozes sejam ouvidas. Troy vivido por Denzel é um frustrado ex-jogador de baseball que se vê obrigado a trabalhar como gari a fim de sustentar a família depois que o sonho de se tornar um jogador profissional não funciona. Com isso vive os dias lamentando os erros do passado e se fazendo valer do papel como provedor da família, impedindo assim que o filho mais novo siga uma carreira promissora nos esportes, algo que ele não conseguiu. Do outro lado temos Rose, papel da atriz Viola Davis, que tenta a todo custo manter a família unida e controlar o temperamento do marido, até que o inesperado acontece e os dois vão precisar encontrar um jeito de fazer com que tudo continue funcionando da melhor forma possível.

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Um Limite Entre Nós possui uma narrativa peculiar e que muito lembra uma peça de teatro, algo que pode vir a incomodar o espectador que talvez espere assistir outro tipo de filme. Sendo o foco principal os diálogos extensos e bem intrincados, Denzel como diretor quis continuar na mesma linha que adotou quando dirigiu as 104 apresentações da peça de teatro aonde também atuou ao lado de Viola. Dessa forma, meio que obriga o espectador a não desgrudar os olhos da tela, especialmente quando é ele quem está conduzindo a cena e Denzel é um narrador nato como poucas vezes vemos no cinema. Não apenas possui o dom da oratória, mas a forma como narra os fatos, como conduz o personagem durante a história torna tudo mais atraente. E não se enganem, Viola Davis pode ter faturado do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, merecidamente, pois ela se destaca tanto quanto o próprio Denzel, porém esse é um filme no qual os holofotes seguem em cima dele.

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É Troy o fio condutor de tudo em cena. É graças a ele que vemos a transformação dos demais personagens no decorrer do longa e como as ações de uma única pessoa consegue impactar tantas vidas ao mesmo tempo. Conforme a trama se desenrola, Troy vai deixando de ser aquela figura onipresente e cheia de razão para se transformar em uma sombra do que foi por conta de um erro de conduta. E quando isso acontece é a vez de Rose sair de trás do marido e caminhar com as próprias pernas, virar dona de si como deveria ser desde o princípio.

E tudo isso é feito através de longos e muitas vezes complexos diálogos que não detalham exatamente o que está acontecendo ali preto no branco, mas sim guiam o espectador sobre qual vai ser o destino dos personagens a partir de uma conversa sobre dinheiro, auxílio do governo, bebidas num bar, bolsa estudantil, esportes e traição. Provável que por tamanha engenhosidade August Wilson tenha ganhado o Pullitzer lá em 1987, ano de lançamento da peça. Provável que esse também seja o motivo pelo qual Denzel Washington vem alimentando o desejo de dar vida a essa produção por tanto tempo. Mais do que uma oportunidade de mostrar uma outra faceta do seu talento, quis mostrar as idiossincrasias de uma família afro-americana vivendo de um salário apertado e poucas oportunidades.

Um assunto que estava em voga lá na década de 50 em Um Limite Entre Nós e que continua fazendo sentido nos dias de hoje, somado a atuações espetaculares dá ao filme um status de atemporal.