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Sentir saudades de Bridget Jones é um “Dilema”

Sentir saudades de Bridget Jones é um “Dilema”

Poder, ambição e limite – ou a ausência dele. Esses são os fios que conduzem o desenvolvimento de Dilema, nova série da Netflix. A primeira parte da série antológica criada por Mike Kelley (Revenge) gira em torno dos dilemas vividos pelos personagens centrais nas situações exploradas ao longo dos episódios. As dinâmicas principais da série, entretanto, estão focadas no jogo em cadeia arquitetado por Anne Montgomery (Renée Zellweger), investidora de sucesso, famosa por apostar em projetos de alto risco.

A aposta da vez é no projeto de Lisa Donovan (Jane Levy). A jovem cientista se vê diante de um impasse. Montgomery propõe financiar seu projeto milionário com uma única condição: passar uma noite a sós com Sean (Blake Jenner), marido de Lisa, sem que nenhuma das partes falem sobre isso em nenhuma ocasião futura. Caso Lisa e Sean conversem sobre o assunto, é o fim do financiamento e os direitos da pesquisa passam a ser propriedade de Anne.

Além desse conflito central, a série apresenta sub-plots envolvendo os amigos e familiares de Lisa. Assim, acompanhamos a história de Ângela (Samantha Marie Ware). Uma médica residente que deve escolher entre salvar o casamento em crise ou apostar em sua relação extra-conjugal. E também os conflitos internos do irmão de Lisa, Marcos (Juan Castano), que se vê perdido em segredos que guardou durante anos. Entre outros conflitos paralelos ainda menos relevantes.

É evidente, no entanto, que os holofotes de Dilema estão apontados para Renée Zellweger. Não é difícil perceber que a atriz se entrega por inteiro à personagem. Anne é uma mulher decidida e obstinada a alcançar o sucesso custe o que custar. Para isso, ela utiliza de todas as armas possíveis, desde a sedução até a violência psicológica. Tudo com uma dose de sadismo.

Zellweger dá a personagem um tom interessante. Sua interpretação está sempre a um passo do over, mas há um cuidado para que isso não aconteça. A série ganha um tom melodramático com a trilha sonora exagerada e os efeitos visuais batidos, como trovões e chuva nos momentos de tensão. O que não é um problema.

Alicerçar a série num tom folhetinesco não é um equívoco. Pelo contrário. É uma escolha estilística muitas vezes acertada quando bem aplicada. Diversas produções brasileiras de qualidade têm tais características como premissa. Mesmo na TV estadunidense, isso é bastante comum. Basta lembrar de produções da Shondaland, da série musical Empire ou até de Revenge, sucesso também assinado por Mike Kelley. Então, o que diferencia Dilema dessas outras produções? Dilema tem todos os elementos para ser um ótimo novelão, mas parece ter vergonha de assumir isso a quem assiste.

O resultado é confuso. As falas de efeito de Anne acabam soando muitas vezes como um cansativo mantra do sucesso capitalista. As tramas paralelas são fracas e atropeladas em função de inúmeras cenas inúteis à trama. Os 10 longos episódios não são suficientes para gerar empatia por nenhum personagem da série. O ritmo não está em sincronia com o tom melodramático nem com os cliffhangers fracos no fim de cada episódio. Nem mesmo a reviravolta do desfecho é suficiente para compensar tudo isso.

Dilema é um balde de água fria para quem esperava ver Renée Zellweger em um papel desafiador e marcante na televisão. A atriz entrega uma interpretação digna diante do que foi oferecido. Assistir à série não é uma perda de tempo e há alguns momentos em que a trama prende o espectador. Mas, numa época em que a televisão passa a ser um novo espaço de consolidação de atrizes a atores do cinema, Dilema é, no mínimo, decepcionante.

Ficha Técnica
Criador: Mike Kelley
Roteiro: Mike Kelley, Brenna Kouf, David Graziano, Blair Singer, Robin Wasserman, Elizabeth Benjamin
Elenco: Renée Zellweger, Jane Levy, Blake Jenner, Keith Powers, Samantha Marie Ware, Juan Castano, Daniella Pineda, Louis Herthum, Saamer Usmani, Dave Annable, Saamer Usmani, Louis Herthum, John Clarence Stewart, Derek Smith
Duração: 10 episódios
Serviço: Netflix