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“Star Wars: Os Últimos Jedi” [com spoilers]

“Star Wars: Os Últimos Jedi” [com spoilers]

Como dito na crítica anterior, é meio difícil sintetizar Star Wars: Os Últimos Jedi em um único texto. Portanto, decidi escrever esse que vai estar recheado de spoilers. Leia por sua conta e risco!

Acredito que quando um filme é escrito e dirigido pela mesma pessoa tem mais chances de dar certo. É a sua visão e metodologia, logo, fica mais fácil atingir o objetivo. Certamente este é um dos trunfos de Os Últimos Jedi graças a função dupla de Rian Johnson e também porque ele é um grande fã da franquia. Não a toa o próprio George Lucas elogiou o trabalho numa recente entrevista.

O longa começa exatamente de onde paramos no Episódio VII com a Primeira Ordem atacando a base da Aliança e eles tendo que fugir sem poder carregar muita coisa. Só não contavam que a Primeira Ordem teria um rastreador e nem com pulos conseguem despistá-los. É então que Poe (Oscar Isaac) decide realizar uma manobra maluca para explodir um dos crusaders da Primeira Ordem. Ação que vai contra as ordens da general Leia (Carrie Fisher). A manobra é bem sucedida até certo ponto, pois vários membros da Aliança Rebelde morrem. O que deixa a general furiosa e a faz rebaixar Poe.

A sequência de abertura, justamente essa com o Poe voando na X-Wing e atirando nos canhões, já demonstra que este filme vai ser um pouco mais denso que o anterior. Há mais coisas em jogo aqui e sem margem para erros, algo que Poe demora a entender tendo uma natureza bastante impulsiva. O que provavelmente tenha lhe rendido o título de melhor piloto entre os demais. Entretanto, com a Primeira Ordem tão em cima deles, sem espaço para fugir, é preciso calcular melhor os riscos. E é esse o maior medo de Leia. Que não cheguem a tempo num esconderijo para poder contactar outros aliados. Fazendo com que sejam atingidos pelo Primeira Ordem e completamente dizimados. Sua esperança é que Rey (Daisy Ridley) traga Luke (Mark Hammil) de volta e mais pessoas queiram se unir a causa.

Bem, acontece que Luke Skywalker não é mais a pessoa que foi. Ele se fechou para a Força depois de sentir que falhou com o sobrinho. E a chegada de Rey e Chewie não ajuda em nada a derrubar o muro que construiu a sua volta. A ilha é habitada por Porgs (que divide opiniões do elenco entre serem fofos ou ratos com asas) e também as curandeiras que sofrem um bocado nas mãos desastradas de Rey. O que rende algumas cenas cômicas. Há também o reencontro de R2D2 e Luke e finalmente a resposta sobre a origem de Rey. Todavia, isso nem foi o mais importante, mas sim o elo que surge entre a órfã e Kylo Ren (Adam Driver). De alguma maneira (que é explicada mais para frente) eles conseguem manter uma conversa telepática.

Isso meio que ficou subentendido no trailer, mas ninguém quis acreditar. Ambos estão passando por grandes conflitos que envolve o uso da Força. Kylo Ren não está sabendo lidar muito bem com o fato de ter matado o próprio pai. E Rey se sente perdida com essa descoberta de controle da Força. Como bem sabemos, os sensitivos à Força e que estudam para se tornar Jedi possuem tanto luz e sombra neles. E é preciso aprender a controlar isso para não ir para o lado negro. Só que Kylo Ren abdicou disso justamente por culpa do próprio Luke que teve uma visão do que o sobrinho se tornaria e o atacou antes. Ele tentou ao menos. Mas aí Kylo que era Ben explode tudo, mata os outros aprendizes de Luke e foge com alguns. Onde eles foram parar? Ninguém sabe.

Por isso Luke tem dificuldades em lidar com a Força que emana da Rey que é muito similar a do sobrinho. E a própria não parece confiar muito no novo mentor. Por buscar saber mais da sua origem, não abre mão do passado e acaba desacatando uma ordem direta de Luke, indo de encontro ao lado negro da Força. A desobediência a leva a descobrir algo que lá no fundo sempre soube: que seus pais não eram ninguém importante. Luke sente que a garota não teve qualquer controle ao cair direto nos braços do lado negro e rompe o acordo de ensiná-la. Restando a Rey uma única solução que lhe parece a mais sensata no momento: ir ao encontro de Kylo Ren para salvá-lo.

No espaço a situação da Aliança Rebelde não é a das melhores. Continuam sendo alvos fáceis para a frota imperial e com a general Leia bastante debilitada depois que a ponte explode e ela milagrosamente retorna do espaço ao usar a Força. Cabe agora a Almirante Holdo (Laura Dern) encontrar uma forma de tirá-los dali e seu plano vai em desencontro ao que Poe imaginar ser o correto a fazer. O ex-comandante não vai deixar por menos e se alia a Finn (John Boyega) e Rose (Kelly Marie Tran) que acreditam ter um plano para salvar a todos que consiste em se infiltrar no crusader principal. Os dois então partem numa missão de encontrar alguém que os ajude a invadir o sistema, mas o propósito principal é outro, ambos querem entender como podem ser mais úteis à causa. Em especial Finn que continua perdido sem saber qual rumo tomar, quem seguir ou que fazer.

Dessa forma o filme passa a nos apresentar quatro linhas narrativas diferentes. As quais são necessárias para estabelecer vários acontecimentos simultâneos e dar seguimento ao arco final.

O encontro entre Rey e Kylo Ren não sai como o esperado. O que nos era óbvio. A garota é compelida pelo Snoke (Andy Serkis) a mostrar o paradeiro do Skywalker e mesmo resistindo bastante não consegue esconder o local. Diálogo vai, diálogo vem e o Supremo Líder cada vez mais menospreza o pupilo que assiste a tudo imóvel. Se vangloria de estar quase acabando com a Aliança Rebelde que tem suas naves de fuga explodidas a cada disparo. Num ímpeto, enquanto Snoke continua controlando Rey e ordena que Kylo Ren a mate, ele decide que as coisas precisam mudar e mata o mestre num golpe surpresa.

Tem início então uma batalha com a guarda Pretoriana, muito bem coreografada, com os cortes no momento certo e mostrando toda a habilidade de Rey e Kylo Ren que se ajudam nos momentos mais difíceis. O visual da sala com aquela parede vermelha e detalhes em preto contribui um bocado para essa sequência de luta. No fim, os dois percebem que buscam por objetivos diferentes. Rey só quer entender qual o seu propósito agora que sente a Força. Já Kylo Ren tem seu bem traçado que é sair da sombra de todos aqueles que habitaram em sua vida. Quer ser o Kylo Ren e não mais o filho, sobrinho ou neto de alguém. E qual posição melhor para ter esse respeito do que sendo o novo Líder Supremo?

Lá na ilha, mais uma vez, Luke sente que falhou como mentor e num impulso decide queimar a árvore que representa a sabedoria dos Jedi. Num golpe de surpresa, recebe a visita do seu próprio mentor: o Mestre Yoda. O interessante aqui é que ao invés de utilizar um CGI e dar mais definição ao personagem, Johnson optou por reutilizar o boneco com leves modificações, respeitando a aparência cartunesca do Yoda. E que encontro sensacional. Relembrando inclusive falas de quando Yoda faleceu. Logo, o título em português e demais línguas latinas está errado. Só pode ser chamado de Jedi quem completa o treinamento e Skywalker foi o último. Ele é O Último Jedi. Sem plural.

Com muita dificuldade e perdendo amigos pelo caminho, os membros restantes da Resistência chegam ao planeta Crait, antiga fonte de minério e que possui uma base rebelde abandonada. Não tem muita coisa com o que se defender a não ser essa enorme fortaleza. Só que infelizmente, continuam sendo perseguidos pelo Primeira Ordem tendo em vista que o plano de Finn e Rose não funcionou. Com equipamentos sucateados dá-se início a uma batalha num solo que ao se raspar o branco do sal, surge esse vermelho vivo do minério e que muito lembra sangue. Tal feito acaba levantando algumas interpretações, em especial no meio de uma batalha. Pode representar o fato da Aliança Rebelde estar sangrando após ter perdido tantos membros e estar a ponto de ser derrotada. Por outro lado, também pode significar o renascimento de uma nova rebelião com aqueles que sobreviveram e ainda creem na causa.

No último arco temos o reencontro dos irmãos. Leia e Luke juntos de novo. Do lado de fora a primeira onda da batalha dá a vitória para o Primeira Ordem agora liderado por Kylo Ren. No alto Rey e Chewie conseguem ajudar os amigos a se esconder novamente na base só que eles não tem muito tempo. É a hora do acerto de contas entre mentor e pupilo, tio e sobrinho. O general Hux (Domnhall Gleeson) pede que ele não vá, mas claro que Kylo Ren não vai ouvir a um subordinado.

Fica claro que ele precisa de mais treinamento, pois não consegue lutar de igual para igual com Luke que desvia dos golpes. Quando Kylo Ren por fim acerta um golpe que partiria o tio no meio, nada acontece, para seu espanto. Por que? Bem, o Luke não está ali de verdade. Tudo não passou de uma projeção para servir como distração e assim dar tempo dos últimos membros da Resistência, agora meio que liderados por Poe, fugirem após Rey levitar algumas pedras, para a surpresa de todos e ajudá-los a embarcar na Millennium Falcon. Lá dentro, em meio a tantos Porgs e ninhos, estão os livros que contém os ensinamentos Jedi, dando a entender que Rey vai continuar por conta própria, sem um mentor, porque bem, não restou ninguém mesmo. Abrindo espaço para a teoria do Jedi cinza tal qual mencionei num post anterior. Na ilha, usando de toda a Força possível, Luke se une a ela, desaparecendo.