Share
“The Post – A Guerra Secreta” entre dois poderes

“The Post – A Guerra Secreta” entre dois poderes

The Post – A Guerra Secreta é um longa que fala de questões do passado, mas que são relevantes ainda. Só para entender as razões que o fazem tão atual, precisamos andar para trás. Lá na famigerada Guerra do Vietnã.

Tendo início em Novembro de 1955, é possível resumir o conflito no Vietnã, Laos e Cambodia numa briga de poderes entre a então União Soviética e os Estados Unidos. Na época, os Estados Unidos, mais Coréia do Sul, Tailândia e Austrália eram a tida frente anti-comunista. Queriam parar a União Soviética de qualquer maneira. E enquanto dentro do país havia toda a atmosfera de uma Guerra Fria – algo que afetou inclusive Hollywood. A verdadeira batalha, com explosões, bombas, tiros, sangue e inúmeros mortos, acontecia no Vietnã.

O medo de admitir uma falha e reconhecer a então ‘vitória’ da União Soviética, fez com que os Estados Unidos arrastasse essa guerra por 20 anos. Passando pelo mandato de alguns presidentes até parar em Richard Nixon. Ponto o qual encontramos nossos personagens de The Post – A Guerra Secreta.

Kay Graham (Meryl Streep) precisou assumir a posição de dona do jornal The Washington Post após a morte de seu marido. Só que estamos em meados da década de 70 e tal cargo não é designado a uma mulher. Kay tem dificuldades de se fazer ouvir entre tantos homens ao mesmo tempo que pisa em ovos a fim de que o jornal continue a existir. Prestes a abrir ações para o público, precisa se manter firme e aprender a conciliar o novo emprego com sua vida social. Que envolve muitas festas, jantares e outros eventos recheados de convidados importantes. Por conta de seu papel, grande parte dos diretores não confiam em suas habilidades de gerenciamento. E nem ela própria.

Ao sempre ouvir qual era seu lugar, Kay demora a entender que pode mais do que lhe dizem. E até do que ela mesma pensa. Tal determinação não surge da noite para o dia. E tampouco é um sacode. Não. Em todas as cenas é possível notar na sutileza da atuação de Meryl o quão incomodada ela está em certas situações. Seja com um suspiro, um olhar ou mesmo um resmungo baixo. Sempre procura cercear o assunto de modo a não ofender a outra parte, nesse caso um homem. Não quer bancar a esperta, nem bater o pé de modo agressivo. Quer apenas ser respeitada em sua posição como dona do The Washington Post.

E do seu lado ela tem alguém determinado a lhe proporcionar a plataforma necessária: o editor-chefe Ben Bradlee (Tom Hanks). Ainda que cometa os mesmo erros que outros homens, Bradlee – que foi contratado pela própria – tende a situar melhor Kay no que anda acontecendo do que os demais diretores. É ele quem insiste para correr atrás da matéria secreta que o The New York Times está produzindo, ilustrando a concorrência saudável entre os dois jornais. A corrida para ver quem posta o furo primeiro ou quem tem a melhor primeira página. E desde o momento que o The New York Times publica passagens do estudo secreto que sentencia a Guerra do Vietnã, Bradlee sabe que precisa desses documentos. Tem que ir atrás dessa fonte. E, por sorte, tem um jornalista que acha que conhece um cara.

É então que ambos os jornais começam a travar tanto uma briga interna quanto externa. Cada qual com seus adversários. Onde a concorrência saudável se transforma em uma briga entre dois poderes: o governo e a imprensa.

The Post – A Guerra Secreta se passa na década de 70, mas dialoga muito com o que anda ocorrendo desde a posse do atual presidente americano. Cada notícia publicada é precedida de um ataque direto do mesmo via Twitter, acusando tal veículo de fake news. Nada do que é dito de maneira negativa a seu respeito, ainda que verídico, é encarado por ele ou pelos assessores da Casa Branca como real. Uma clara tentativa de tentar deturpar a visão do povo americano e de seus eleitores. É considerado por muitos como um ataque à liberdade de imprensa. O mesmo “golpe” que o então presidente Nixon tentou fazer tanto com o The New York Times quanto com o The Washington Post.

Não que ele fosse inteiramente culpado pelo o que estava acontecendo no Vietnã. Mas foi conivente com o estudo e preferiu tentar varrer tudo para debaixo dos panos a fim de se reeleger. Logo, um jornal publicar um estudo secreto do governo que afirma o fracasso da guerra é o começo do fim para ele. Principalmente uma guerra a qual grande parte dos americanos eram contra. Mais e mais suas chances de reeleição estavam indo para o ralo. E tudo só piora quando o The Washington Post fura o bloqueio imposto judicialmente e continua a publicar as informações.

Verdade que foi o The New York Times o primeiro a veicular a notícia. Todavia, foi a decisão do The Washington Post em dar seguimento na história e enfrentar o governo, que fez com que outros jornais seguissem o exemplo. Além de reforçar o fato de que a imprensa não pode ser controlada por nenhum governo. Ela deve atender aos interesses públicos. Como prevê a 1ª emenda da constituição americana.

The Post – A Guerra Secreta mostra a força que existe por trás da imprensa e que ultimamente tem sido esquecida ou deturpada. Tanto por agentes externos quando internos. É um filme que apresenta uma série de conflitos a fim de construir uma história verdadeira e tão revigorante. Diferente de Spotlight – Segredos Revelados que mesmo sendo um ótimo filme, falha em apresentar veracidade de um ponto de visto jornalístico. O foco precisa ser na reportagem e não no jornalista. Não esqueça que toda história tem dois lados. Spotlight não chega a apresentar o ponto de vista do Vaticano, por exemplo.

Já aqui isso é bem dividido entre o elenco. Há um esforço coletivo para ver uma matéria importante chegar a luz do dia. Sem dar muita importância a vida pessoal dos envolvidos. Mesmo que o longa centre na personagem de Meryl Streep e como ela conseguiu triunfar em um mundo de homens, o principal, o cerne de The Post – A Guerra Secreta é a resiliência do jornalismo.  A prova de que o poder da informação é sempre superior aos demais.

Ficha Técnica
Diretor: Steven Spielberg 
Roteiro: Liz Hannah e Josh Singer 
Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Alison Brie, Carrie Coon, Jesse Plemons, David Cross, Zach Woods, Pat Healy, John Rue 
Duração: 1h56min