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“Três Anúncios Para um Crime” e a culpa como gatilho

“Três Anúncios Para um Crime” e a culpa como gatilho

Nem todo filme precisa atender o padrão esperado. E certamente Três Anúncios Para um Crime é um claro exemplo de filme fora da curva.

A começar com os próprios personagens que ditam o desenvolvimento da trama e não o contrário. Afinal, é a partir de uma decisão de Mildred que as engrenagens da história se desenrolam. Após mais de um ano sem notícias sobre o assassinato de sua filha, decide que é hora de chamar a atenção da autoridade local e coloca três outdoors enormes exigindo respostas.

Por se tratar de uma cidade pequena, logo, todos estão sabendo do ocorrido e se questionando. Não tanto quanto o Xerife Willoughby (Woody Harrelson) que tem seu nome grifado no outdoor. Lidando com os próprios problemas, agora tem que se preocupar com as acusações de Mildred e reabrir um caso que esfriou. Não obstante, precisa lidar com o temperamento explosivo de Dixon (Sam Rockwell) a quem sempre protegeu e vive lhe dando problemas. Porém, ninguém sofre tanto quanto a própria Mildred (Frances McDormand) que se torna a pária da cidade de Ebbing. Os amigos do xerife lhe maltratam e ela passa a ser ameaçada. Todos tentam lhe dizer o que fazer, mas ninguém procura entender o que ela está vivendo.

Três Anúncios Para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri no original) lida com a culpa enquanto gatilho para decisões e mudanças.

A personagem de Mildred não decidiu de uma hora para outra que queria saber o que aconteceu a sua filha. Não. Na verdade ela carrega essa culpa desde o instante que brigou com a filha e a mesma saiu porta afora. E tem mais. Ela desejou mal a própria filha. No final, a garota não retornou, teve uma morte violenta e ela não pode se desculpar e nem fazer nada por ela. Tal comportamento se reflete no seu convívio familiar e no relacionamento abusivo que enfrentou por anos com o marido. Por isso, ela é encarada como uma pária em sua pequena cidade. E colocar esses três outdoors enormes, só a deixa mais em evidência.

Mas Mildred não está sozinha nessa. O departamento de polícia de Ebbing também possui culpa nessa história. Por conduzir as investigações de forma leviana. Por não insistir além das provas encontradas. Por ter se acomodado e deixado um assassino escapar. E trazer esse assunto à tona, deixa claro o quão incompetente eles são. Até porquê, o próprio Dixon, que é braço direito do Xerife, deveria estar preso depois de tanta confusão que arranja. Porém, como ele usa o distintivo como escudo, nada lhe acontece. Tudo isso e outros poréns recaem sobre o Xerife Willoughby que tenta fazer o que pode para contornar essa situação.

Só que no momento que ele decide fazer algo, as peças já foram movimentadas e não há como voltar atrás. Resta a todos os envolvidos seguir em frente como for possível e lidar com as consequências de suas escolhas.

Três Anúncios Para um Crime se destaca por conta das atuações de Frances McDormand e Sam Rockwell. A dupla brilha em diversos momentos e possuem diálogos singulares que só fariam sentido nesse estilo de filme. Frances mantém a faceta durona, da mãe preocupada, enquanto procura não transparecer sua culpa na frente do filho e de mais ninguém. O espectador se conecta de forma instantânea a sua personagem. De uma forma estranha o mesmo ocorre com Dixon. Ainda que o personagem seja a epítome de tudo  que um policial não deve fazer, a construção de Rockwell deixa o espectador intrigado e querendo ver mais. Já que ele precisa provar que é digno de usar um distintivo e limpar sua imagem em Ebbing.

E como nada disso é assim fácil de resolver, ao menos como era o esperado, o longa acaba saindo da curva e focando na evolução dos personagens para narrar a história e não o contrário. Aqui não existe um ponto claro de começo, meio e fim. A intenção é mostrar o que acontece nesse drama do absurdo quando atitudes extremistas levam a consequências explosivas e caminhos tortuosos. Além de mostrar que mesmo assim, todos estamos aptos a mudanças e um pouco de conformismo.

Ficha Técnica
Diretor: Martin McDonagh
Roteiro: Martin McDonagh 
Elenco: Frances McDormand, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Caleb Landry Jones, Kerry Condon, Darrell Brit-Gibson, Abbie Cornish, Riya May Atwood, Selah Atwood, Lucas Hedges, Zeljko Ivanek, Amanda Warren, Malaya Rivera Drew
Duração: 1h55min