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Uma boa aula de história americana em “Vice”

Uma boa aula de história americana em “Vice”

Há quem diga que o cargo de vice-presidente é apenas um título. O próprio Dick Cheney, o personagem retratado neste longa, pensava dessa forma. Até o candidato à presidência americana em 2001 George W. Bush lhe oferecer a vaga. Mas, antes disso acontecer, a estrada para Dick foi longa.

Vice do diretor e roteirista Adam McKay apresenta ao público fato e ficção envoltos na vida de Dick Cheney, considerado o vice-presidente mais influente da história americana. Acontece que nem sempre ele foi essa figura poderosa. Na verdade, ele era o que muitos consideram um zero a esquerda. Com um sub-emprego e propenso a beber até cair, Dick foi expulso de Yale e quase falhou em seu casamento. Todavia, foi o amor da esposa Lynne, como também a sua ambição, que motivaram Dick a ser alguém.

Esse alguém que marchou direto para as portas da Casa Branca e não saiu mais de lá. Bem, salvo uma mudança ou outra de presidente.

Vice retrata de maneira brilhante através de uma montagem e edição ímpares os sabores e dissabores na vida de Cheney, uma figura pouca conhecida do público atual. Tentando ser o mais apartidário possível, McKay mistura cenas do longa com outras da vida real, para construir o protagonista e a trama que flui de forma orgânica mesmo não sendo linear. Aos poucos vamos assistindo as peças do quebra cabeça se unirem, sem ficarmos confusos ou perdidos na história.

Além de uma montagem e edição que contribuem bastante para prender a atenção do espectador, temos também as atuações. Todo o elenco está muito bem, cada qual em seu papel e caracterização, mas tem duas figuras que roubam a cena: Amy Adams e Christian Bale.

É seguro afirmar que sem Adams, Bale não teria tanto destaque. Ele funciona bem em outros núcleos, quando ela não está presente em cena, mas nada se compara a química que ambos criaram. Além do mais, seguindo a própria história real, Dick Cheney não teria sido quem é sem a esposa. E mesmo optando em ser aquela que fica para trás a fim de que o marido prospere, Lynne foi a rocha que manteve a família unida em momentos de crise. Uma atmosfera que Adams soube desenvolver muito bem e passar segurança ao público. Do outro lado, temos a evolução de Bale no papel principal.

Deixando de lado toda a transformação física, vemos as atitudes e segurança do político irem mudando a cada novo cenário. Mudanças sutis de personalidade e confiança que Bale soube entregar sem igual. Ao passo que ia mostrando ao espectador todos os principais acontecimentos dentro da Casa Branca. Desde a renúncia do presidente Nixon, a tomada de Ford, a eleição de Reagan, Bush Sr. e consequentemente a de George W. Bush. Esse o maior responsável por construir Dick Cheney como o mundo o conhece. Afinal, foi ele quem deu plenos poderes que nenhum outro vice-presidente na história teve. Poder esse que Dick soube aproveitar muito bem na hora de decidir invadir o Iraque e derrubar Saddam Hussein. Momentos históricos que foram oriundos do ataque às Torres Gêmeas em Setembro de 2001.

Vice oferece ao público uma bela aula de história americana, mas do ponto de vista dos bastidores. A qual poucos ou ninguém tem acesso. Além de prover um narrador inusitado para tal e introduzir conversas nunca antes comentadas de fatos importantes da história dos Estados Unidos. Fatos esses que se misturaram bem à ficção criada por Adam McKay.

Vice foi indicado à 8 Oscars: Melhor Maquiagem, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Ator, Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Edição.

Ficha Técnica
Diretor: Adam McKay
Roteiro: Adam McKay 
Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell, Alison Pill, Eddie Marsan, Justin Kirk, LisaGay Hamilton, Jesse Plemons, Bill Camp, Don McManus, Lily Rabe, Shea Whigham, Stephen Adly Guirgis, Tyler Perry 
Duração: 2h12min 
Estreia: 31 de janeiro