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“Verónica” é mais do que aparenta ser

“Verónica” é mais do que aparenta ser

Saber contar uma história é tão importante quanto o conteúdo da história em si. Por meio de técnicas e recursos estrategicamente organizados, se constrói uma narrativa atraente ao público. Criar uma história interessante e não saber como conta-la é como ter as melhores cartas do baralho sem compreender as estratégias do jogo.

Ao assistir a Verónica (2017), filme de Paco Plaza, temos a certeza de que o co-diretor do ótimo [REC] (2007) domina todas as regras do jogo, mesmo sem ter as melhores cartas.

A história baseada em fatos tem lugar na Madri de 1991. Enquanto toda a escola vai ao terraço para observar um eclipse solar, Verónica e suas amigas descem ao porão. Lá elas tentam fazer contato com espíritos utilizando um tabuleiro de Ouija. A garota de 15 anos queria contatar seu pai morto, mas, ao invés disso, desperta o que aparenta ser um espírito maligno que a acompanha.

Mesmo que o filme tome como base os registros policiais da época, a premissa central já foi abordada exaustivamente em obras do gênero. Desta vez, o diferencial é o que pode ser visto além da primeira camada. Coincidentemente ou não, entre belas cenas do filme, estão as que as pessoas observam o eclipse através de negativos de fotografias. Talvez aí esteja o recado de Paco Plaza: enxergue além.

O longa aposta em personagens cativantes e faz uso dos seus 105 minutos para contar a história deles. É isso que faz com que o espectador não perca a paciência com mais uma adolescente que brinca de trazer espíritos de volta com Ouija. Somos empáticos com Verónica. Porque ela não é mais uma adolescente comum que resolve brincar de convocar espíritos para quebrar o tédio. Com a morte do pai, a garota assume todas as responsabilidades de casa. O que inclui cuidar dos irmãos mais novos, já que a mãe trabalha fora para mantê-los. Desde as primeiras cenas vemos que Verónica não reclama do trabalho. Porém tem vontade de ter uma vida normal como a das colegas de classe.

O filme amarra bem os fios narrativos que lança ao espectador. A vulnerabilidade da protagonista e de sua família não se escora no horror do sobrenatural. Mas sim no horror da realidade cotidiana. É justamente nesse ponto que o filme encontra sua ruptura com os lugares-comuns. Nós, espectadores, somos convidados a acreditar na história de Verónica ou não. A sobrecarga emocional e física delegada a uma adolescente de maneira tão repentina, sem dúvida, causa danos à sua saúde mental. Os fatos existem, mas seriam eles causados por forças espirituais ou frutos dos delírios de uma adolescente com graves problemas psicológicos?

A acertada escolha de estilo na direção de arte e fotografia colaboram com as possibilidades de sentido que o filme proporciona. Somados a isso estão a boa trilha sonora e a opção em utilizar efeitos visuais mais oníricos em detrimento dos realistas. É preciso falar, ainda, sobre o bom trabalho do elenco. Dando um destaque para as atrizes Sandra Escacena, Ana Torrent, Consuelo Trujillo e um elenco infantil carismático. A direção competente de Plaza faz com que todos preencham bem as cenas e tragam dinamismo ao filme.

Verónica é um filme que merece atenção. Pois convoca o espectador a se identificar com os personagens. E subverte há muito recursos desgastados.

Ficha Técnica
Direção: Paco Plaza
Roteiro: Paco Plaza, Fernando Navarro
Elenco: Sandra Escacena, Ana Torrent, Consuelo Trujillo, Bruna González, Claudia Placer, Iván Chavero, Ángela Fabián, Carla Campra, Chema Adeva
Duração: 1h45min